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Tranquilo, Gil leva sua voz prodigiosa à Europa

Em turnê pelo Velho Continente, artista está lançando na França 'Gilbertos Samba', sua homenagem particular a João Gilberto; veja

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

14 de outubro de 2014 | 09h49

Gilberto Gil está na Europa. Passou pela Suíça, onde visitou seu amigo Paulo Coelho, e irá à Itália. No momento está na França, país que ele adora e cuja língua fala muito bem. O público o conhece e está impaciente para rever este artista que durante cinco anos foi ministro da Cultura de Lula. E não se decepciona.

Aos 72 anos Gil não é mais o homem que proclamou que “é proibido proibir”, que mergulhou em todos os excessos e entusiasmos dos anos 60 e 70, e inventou o tropicalismo. Hoje Gil é um homem tranquilo. Em Lyon, na semana passada, 2.500 fãs ouviram, fascinados, essa voz prodigiosa, a sua magia. “Fazer cair do céu tanta harmonia, interpretando sambas e bossas mil vezes ouvidas exige serenidade e uma segurança absoluta, como também algo de sobrenatural”, escreveu o crítico musical do Liberation, Edouard Launet.

Ao mesmo tempo foi lançado na França o álbum Gilbertos Sambas, dedicado por Gil a João Gilberto (83 anos), onde ele retoma uma dezena de músicas famosas interpretadas por João, como O Pato, Desafinado e outras, e que nos lembra que foi a admiração por João que levou Gilberto Gil a se dedicar ao violão em 1961.

Perguntaram a Gil se ele havia enviado um exemplar para João. “Claro. Mas não houve nenhuma reação dele, que vive solitário no Leblon, uma pessoa imprevisível a ponto de anular seus concertos em aviso prévio.

Gil disse que a última vez que esteve com João remonta a seis ou sete anos.

Na falta de uma resposta de João Gilberto, vamos citar aqui o comentário de Caetano Veloso sobre o disco: “Escutar Gilberto Gil relembrando músicas que João compôs com Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Dorival Caymmi é uma experiência de grande carga histórica. Toda a paleta de sons da bossa-nova e após a bossa-nova entremeada de tropicalismo e pós-tropicalismo se mostra e se esconde, se reafirma e se desfaz na liberdade da música de Gil”.

Segundo o crítico Edouard Launet, “podemos dizer também que no álbum Gilbertos Samba há meio século de música brasileira levada ao que ela tem de essencial e que, em consequência, é absolutamente necessário”.

Gilberto Gil não veio à Europa para falar de política, mas para rever um público que ele ama, as cidades onde gosta de caminhar sem destino, como Paris, Lille, Reims.

Mas Gil reage aos assuntos dos seu tempo. No sábado, diante dos alunos de Ciências Políticas da faculdade de Lille, interrogado sobre o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil, ele falou da amizade com Marina Silva, que conheceu quando ela foi ministra do Meio Ambiente e ele da Cultura. Gil chegou mesmo a escrever uma música para apoiar essa mulher simples, “símbolo da evolução racial”.

Aos estudantes de Lille, ele disse que Marina “não é reacionária, ao contrário do que as pessoas afirmam. E quanto à Igreja evangélica? alguém indagou.

“A igreja católica governa o Brasil há séculos. Ela proibiu o candomblé e o samba”. Sem jamais conseguir erradicá-los.

Em quem ele votará em 26 de outubro? Gil não respondeu, mas está claro que Dilma o enerva. Ele não consegue engolir o projeto da hidrelétrica de Belo Monte sobre o rio Xingu que vai prejudicar os indígenas e mutilar a grande floresta. “Os índios são os protetores da humanidade. Eles têm um pacto com a natureza que é contra a hegemonia de uma tecnologia destruidora”, disse Veronique Mortaigne, do jornal Le Monde. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Na página oficial de Gilberto Gil no Facebook, o artista divulgou fotos e vídeos da estada na França. Veja:

 


 

 

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