Tradicional orquestra alemã toca em SP

Na cidade para três concertos, a Orquestra Sinfônica da Rádio de Berlim encerra, a partir de amanhã, a temporada deste ano da Sociedade de Cultura Artística, em são Paulo. O tradicional grupo alemão, criado em 1923, será regido pelo maestro polonês Marek Janowski, com quem gravou recentemente a ópera A Harmonia do Mundo, de Paul Hindemith. No programa de amanhã e quinta estão Finlândia, de Sibelius, o Concerto Para Piano e Orquestra, de Schumann, Morte e Transfiguração, de Strauss e a abertura dos Mestres Cantores, de Wagner. Na quarta-feira, serão interpretados o Concerto n.º 1 Para Piano e Orquestra de Beethoven e a Sinfonia n.º 7 de Bruckner. Como solista, participa o brasileiro José Feghali, em atividade no exterior e medalha de ouro do Concurso Internacional de Piano Van Cliburn em 1985.Ex-diretor da Orquestra da Rádio França, atual diretor musical da Orquestra Filarmônica de Monte Carlo e regente titular e diretor artístico da Filarmônica de Dresden, Janowski falou a Agência Estado sobre sua relação com o repertório de Bruckner e Strauss, as diferenças entre as orquestras de todo o mundo e - tendo ele gravado discos com grandes orquestras - sobre a situação do mercado discográfico de música erudita.A orquestra escolheu um repertório basicamente alemão para os concertos em SP. O sr. pode comentar as peças escolhidas?Elas são típicas do repertório alemão e permitem mostrar as qualidades de uma das principais orquestras alemãs, daí a escolha. No caso de Strauss e Bruckner, por exemplo, o motivo é também pessoal, uma vez que me sinto bastante próximo da obra desses compositores. As únicas peças não alemãs no programa são a sinfonia de Bruckner e Finlândia, de Sibelius, que não é típica do compositor que, nela, faz uma declaração de liberdade e entusiamo nacionalista a seu país, historicamente preso entre a Rússia e a Suécia.De onde vem esta relação especial com Bruckner e Strauss?Acho que deve ser algo relacionado à minha educação musical, mas também influenciada por uma simples questão de gosto pessoal. Bruckner, para mim, simboliza uma tradição católica austríaca com uma forte ligação com a natureza. Não é, de certa forma, um compositor de espírito alemão, aproxima-se mais da filosofia austríaca.E é um compositor que não recebeu, de certo modo, o reconhecimento merecido. O sr. concorda?Acredito também, e acho que se deve ao modo como ele compunha. Normalmente seus dois primeiros movimentos são admirados pelo público, enquanto os últimos parecem enfadonhos, redundantes. Isto realmente não ajuda em termos de popularidade. Mas acho que, como acontece também com Sibeliusm, é muito difícil levar ao público as mensagens por trás de suas obras.O sr. fala das qualidades de uma das principais orquestras alemãs. O que o público paulistano pode esperar desta orquestra?É muito comum dizer que as sonoridades das orquestras estão cada vez mais semelhantes, e isso se deve, em grande parte, à tecnologia de gravação, que aproxima as sonoridades em busca do apuro técnico. No entanto, há outras coisas que marcam uma orquestra, como o fraseado, por exemplo. Esta orquestra, pode-se dizer, é uma típica orquestra berlinense com uma sonoridade densa, reações rápidas.Por estar ligada a uma rádio, a orquestra tem uma longa tradição em gravações. O sr. fala da influência da tecnologia no resultado de uma gravação. Como o sr. vê o mercado discográfico de música erudita?Na minha opinião, os grandes e mais importantes anos na história das gravações estão no passado. Tudo já foi gravado muitas vezes. E, só se justifica gravar de novo se novos avanços tecnológicos puderem oferecer algo de novo aos artistas, o que não deve acontecer agora, mas em alguns anos talvez cinco ou dez. De qualquer forma, nunca um artista que está gravando - independentemente da tecnologia - deve perder de vista a necessidade de se ter em mente a presença do público, pois, sem isso, qualquer gravação fica sem vida.Serviço - Orquestra Sinfônica da Rádio de Berlim. De terça a quinta, às 21 horas. De R$ 110,00 a R$ 230,00. Teatro Cultura Artística - Sala Esther Mesquita. Rua Nestor Pestana, 196, em São Paulo, tel. (11) 258-3616. Até quinta.

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