Marcos Hermes
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Toquinho lança ‘A Arte de Viver’, com letras do poeta Paulo César Pinheiro

Disco toca em temas que transitam entre os ensinamentos da vida, amores feitos e desfeitos e críticas políticas e sociais

Danilo Casaletti , Especial para o Estado

06 de novembro de 2020 | 05h00

Em A Arte de Viver, novo álbum de Toquinho, há dois tipos de rei. Um é aquele idealizado nas histórias românticas que rouba – com consentimento – o coração de sua amada. O outro é um autoritário que, com suas atitudes, acaba por impingir sofrimento ao povo – e este, mais uma vez, tenta dar a volta por cima. Ambos os personagens nasceram das cordas do violão do paulistano Toquinho e das palavras do poeta carioca Paulo César Pinheiro. Os dois assinam todas as 11 canções do disco que chega às lojas e plataformas digitais hoje, 6, em lançamento da gravadora Deck, com produção de Rafael Ramos.

Toquinho e Paulinho (como o compositor é conhecido) já haviam trabalhado juntos em 2000 – embora se conheçam desde os anos 1960 –, quando compuseram a trilha sonora do espetáculo Brasil – Outros 500, com texto de Millôr Fernandes (1923-2012) em comemoração dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Agora, livres de um tema único, eles transitam entre os ensinamentos da vida (como o título do álbum indica), amores feitos e desfeitos e críticas políticas e sociais em músicas que foram criadas em pouco mais de um ano.

“Fomos fazendo sem pretensão, música por música, até atingirmos um número de canções que julgamos estar linkadas no nosso DNA. Não pensamos no disco em si, mas nas composições propriamente. A unidade veio com o meu violão, que foi a base de tudo”, diz Toquinho. O trabalho foi feito a distância. Toquinho mandava as canções e Paulinho fazia os versos. “Elas já iam prontas melódica e harmonicamente e as letras que vinham eram irretocáveis. Paulinho é um grande poeta, com muita técnica. Eu nem mandava os temas. Temos um gosto musical muito parecido: música brasileira.”

Essa afinidade fica explícita na faixa Mão de Orfeu, na qual eles homenageiam o violonista Baden Powell (1937-2000), parceiro de Paulinho em sambas como Lapinha, Vou Deitar e Rolar e Cai Dentro. Para Toquinho, Baden é uma “entidade” que o guiou com sua técnica e brasilidade. “Não dá para esquecer o seu violão vadio gemer”, diz um dos versos da música que traz citações de Samba da Bênção e Deixa, ambas parcerias do músico com Vinicius de Moraes da década de 1960, pouco antes de o Poetinha se tornar parceiro de Toquinho. Ou seja, a vida e a arte dos quatro amarradas pelo fio da música.

A história do rei que, apaixonado, toma o coração da rainha está na modinha Rainha e Rei, uma das canções de amor na qual Toquinho divide o vocal com a cantora Camilla Faustino. A parceria também está em Roda da Sorte, que versa sobre a passagem do tempo e a importância de acompanhar a ciranda da vida.

Esse mesmo tema aparece de forma mais descontraída no samba que dá nome ao disco. A Arte de Viver aponta caminhos para levar a vida um pouco menos a sério, sem sofrer em demasia com os reveses que ela apresenta. “O mundo é um brinquedo para quem merecer”, sentencia a letra. “Ela serve como um conselho para quem se preocupa demais com a vida. A arte de viver é improvisada. Em tempos atuais, então, com essa pandemia, é preciso deixar mais leve tudo aquilo que nos pesa cotidianamente”, ensina Toquinho, aos 74 anos.

Como nem tudo são flores, o desamor aparece em Papo Final, um diálogo em que um homem faz de tudo para reconhecer os erros e tenta retomar um relacionamento, mas a amada não quer saber de volta. A canção tem a participação da cantora Maria Rita. A turbulência de uma relação a dois também está em Amor Pequeno, que conta com o bandolim de Hamilton de Holanda.

O disco não deixa de tocar em feridas sociais e políticas do povo brasileiro. Na faixa Tudo de Novo, um “rei” autoritário mata o sonho e deixa a esperança de uma nação na corda bamba. Paulinho usa sua voz rouca para cantar Coitado do povo, entrou mais um rei/ E vai começar tudo de novo. É a única vez que a voz do compositor aparece no álbum.

Em Fato Novo a mensagem se dá de forma mais direta ao citar as investidas da Polícia Federal para tentar frear a corrupção em Brasília. Só tem réu confesso com muito processo/ Enchendo o Supremo Tribunal/ Só falta o Congresso entrar em recesso/ Por causa da ficha criminal, diz o samba, que aponta “os tempos de Cabral” como o início da prevaricação no país. “O Brasil é corrupto, triste, sempre tem algo desagradável. Que vergonha isso!”, diz. 

Futuro. A capa de A Arte de Viver é uma criação do artista gráfico Elifas Andreato, conhecido por assinar trabalhos de nomes da música brasileira como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Tom Zé, entre outros. Andreato já havia criado para Toquinho as capas de Toquinho e Vinicius (1975), Aquarela (1983) e 30 Anos de Música (1994). Valendo-se da música que abre o disco, o artista colocou o compositor de costas, olhando para o futuro por meio de um espelho de camarim, mas cercado do seu passado – representado pelas fotos de Toquinho em diferentes fases da vida.

Apesar de A Arte de Viver ter uma versão em CD, Toquinho diz que se sente feliz por experimentar, pela primeira vez, o lançamento de um disco de inéditas nas plataformas digitais – Papo Final e Rainha e Rei foram lançadas como singles e ganharam clipes no YouTube.

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