"Tommy" já teve seis versões

A ópera-rock Tommy tem seisversões. A original de 1969 foi integralmente escrita por PeteTownshend, músico que continua na ativa e, aos 56 anos, serevela um dos mais lúcidos filósofos contemporâneos europeus.Seu projeto Houselife, um calhamaço de CDs maravilhosos comgravações caseiras e ao vivo de Townshend sem o Who, estádisponível apenas no site www.petetownshend.com e está fazendoum enorme sucesso mundial. A versão sinfônica de Baba O´Riley ea transformação de Who Are You num rap denso, tenso,desesperado são apenas destaques de um dos CDs, chamadoElements. Na primeira versão de Tommy a história começa em1921, e os arranjos são ricos em violões misturados a guitarras,além de piano e um sofisticado trabalho de vocalização. Foi umsucesso estarrecedor que deixou Townshend e o Who apreensivosquanto ao futuro da banda. Tommy ganhara uma notoriedade queexigia da banda o compromisso de gravar o próximo disco mantendoo nível. O Who ousou, foi fundo e gravou Who´s Next, de 1971(considerado um dos dez mais importantes discos de rock doséculo que se foi), e em 1973 lançou a segunda, visceral,caótica, maravilhosa ópera Quadrophenia. A segunda versão de Tommy foi regada a pompa ecircunstância. A Orquestra Sinfônica de Londres a executou noantológico Royal Albert Hall, com vários convidados cantandotrechos da obra, entre eles Rod Stewart e Eric Clapton. Oresultado foi uma caixa raríssima, com tiragem limitada, quepouca gente tem. Tão rara que quando aparece no maior portal deleilões do mundo, o e-Bay, é arrematada no ato, por até US$ 2mil. Não há notícias de relançamento dessa versão. Em 1975, Tommy virou filme. Um filme absolutamentecalhorda, dirigido pelo micro (e mico)diretor Ken Russel, cujosroteiros têm um pacto crônico com a futilidade, as pantominas epurpurinas que nada têm a ver com a biografia do Who. O pior éque Russel tudo fez sob o "nada a opor" de Pete Townshend,transformando Tommy num produto pop vagabundo, digno de gôndolasde padarias da Barra da Tijuca, onde a nação emergente não párade se reproduzir em seus cativeiros de granito e cristal bacaráfalso. Tanto que o filmeco passa até no SBT. Entre outrascalamidades, a história original de 1921 passou para 1941, e amedíocre trilha sonora contou com artistas de fáceis digestãocomo Tina Turner e Elton John. Quando Ken Russel fez ostoryboard de Tommy tinha três objetivos na cabeça: dinheiro,dinheiro e dinheiro. Os fãs do Who saíram chutando hidrantespelas ruas. O próximo passo foi a Broadway, 1993. Tommy foitransformado num musical extremamente competente que arrancoulágrimas de Pete Townshend, que assistiu à estréia na primeirafila e ao final foi convidado para subir no palco. O mesmoTownshend tentava se redimir. Do musical da Broadway nasceu umCD que foi gravado praticamente ao vivo, num único sopro. Umdisco bom, coerente. Nessa época, chocando todo mundo, PeteTownshend disse durante uma entrevista coletiva que Tommy eraautobiográfico. Em 1989, The Who tocou Tommy ao vivo em Los Angelescom a participação de Phil Collins, Steve Winwood, Elton John eoutros. Esse concerto virou CD, vídeo e DVD. Agora, com ainclusão da íntegra da primeira execução ao vivo, pelo Who, deTommy em Live at Leeds, Townshend quita seu débito comos fãs e dá uma aula prática de rock autêntico.

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