Silvana Garzaro/Estadão - 29/7/2020
Silvana Garzaro/Estadão - 29/7/2020

Tom Zé: 'Sinto a diferença de não fazer shows principalmente no banco'

Cantor e compositor segue em quarentena em casa com a esposa Neuza, conectado, porém, com o mundo ao seu redor

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2020 | 09h00

Desde que lançou em outubro o disco Raridades — uma compilação de faixas gravadas entre 1969 e 1976, recolhidas agora de maneira inédita pelo jornalista do Estadão e pesquisador Renato Vieira —, Tom Zé tem cumprido uma extensa agenda de entrevistas. Ele próprio notório pesquisador, e agora nas suas palavras se esquecendo das coisas, o músico anota referências para falar com os jornalistas, e quando nomes e situações lhe escapam, pede uma ajuda para sua esposa, Neuza, sempre com as respostas na ponta da língua.

Nesta semana, Tom Zé falou novamente com o Estadão para comentar sua rotina de quarentena. “Rapaz, eu sempro lembro que contei essa história para um jornalista gringo que chegou aqui em casa com uma fantasia da Mangueira. Eu acordo às 4 da manhã, tomo meu desjejum, e desço para trabalhar. Meu pai era padeiro, ele me acordava nesse horário, e eu lembro que doía. Mas me acostumei. Como trabalho em casa e sou muito bate estaca, vou para o quarto e trabalho. Se no quarto tiver água eu viro peixe, se tiver ar, viro pássaro, se tiver fogo, viro aquela criatura que anda no fogo…”, diz, sem se lembrar. “Isso, salamandra”, fala após sugestão da reportagem. “Com ou sem quarentena, é assim.”

Desde março, ele trabalha em uma peça com o diretor Felipe Hirsch inspirada na sua canção, Língua Brasileira, do disco Imprensa Cantada (2003). Espécie de ode à versão nacional do idioma português, a música diz: “Babel das línguas em pleno cio / Seduz a África, cede ao gentio / Substantivos, verbos, alfaias de ouro / Os seus olhares conquistam do mouro”.

“Estou até hoje enforcado com esse trabalho”, diz, agradecido. “Compondo, estou preocupado com uma fábula da língua portuguesa. Estou trabalhando com linguistas, como o Caetano Galindo… e vai sair. Hoje em dia os pesquisadores conseguem extrair com o DNA da fala línguas nunca gravadas nem escritas, conseguem repetir os sons, não sei nem como é essa mágica.”

E sente falta dos shows? “Principalmente no banco”, ri, antes de voltar ao tom mais sério e lamentar também pela falta de movimentação no mercado da música que afeta outros profissionais, de técnicos a musicistas.

Tom Zé diz que mesmo antes da pandemia já não saía muito de casa, então a mudança na rotina imposta pelo coronavírus não alterou muito seu dia a dia. “Nunca saí muito, com a minha dieta macrobiótica como tudo em casa, e a gente tá velho. Eu não bebo mais, a gente quase não saía de casa. Saía para ir a um teatro, mas às vezes esquecia e um dizia para o outro: olha, faz um mês que não vamos ao teatro!”

Ele também menciona sua assistente de mais de 15 anos, Tânia, “minha interneteira chefa”. Tom Zé não tem celular e não mexe diretamente nas redes sociais, mas a assistente posta fotos com alguma frequência e repassa a ele comentários. “Ela me diz: qualquer coisa que você fala aparecem os militantes”, diz aos risos. 

No domingo de eleições, acompanhou tudo pela TV, a mídia “mais imediata” para ele e a esposa, já que ambos, nas palavras dele, não são “reis da bola na internet”. “Ninguém tinha pensado que ia ser tão palpitante. Comemoramos muito a chegada do (Guilherme) Boulos ao segundo turno.” A reportagem pergunta se ele relaciona a música Senhor Cidadão (de 1972, relançada agora) ainda com o momento atual. “Senhor cidadão / Na briga eterna do teu mundo / Senhor cidadão / Tem que ferir ou ser ferido / Senhor cidadão / O cidadão, que vida amarga”, diz a letra.

“Essa música tem um pouco a ver com a vida toda, quando a sociedade faz do chefe de família uma criatura em que os filhos são até para ele uns… “p* que pariu, como se diz... são muitos renovadores, digamos assim.”

Ouça o álbum Raridades, de Tom Zé:

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