Tom Zé seduz os franceses com novo disco

A França está louca por Tom Zé. E não o quer só como mero exemplar de músico exótico brasileiro ou como um fornecedor de temas experimentais para pistas de dança, como o vêem muitos dos seus admiradores americanos. O que a França quer de Tom Zé nem os brasileiros conseguiram ainda: conhecer mais e entender melhor como é que funciona a cabeça do baiano de Irará que tanto barulho tem feito em suas andanças.Seu mais recente disco, Jogos de Armar - Faça Você Mesmo, lançado no Brasil pela gravadora Trama, será distribuído na França com o nome Jeaux de Construction a partir de abril pela companhia BMG. Um grupo de jornalistas franceses, no entanto, não quis esperar.Com passagens e hospedagens bancadas pela BMG, vieram ao Brasil para espremer tudo o que puderem de Tom Zé. "No exterior sempre houve um pouco de amor ressaltado por mim. Mas nunca pensei que seria protagonista de uma coisa que nunca aconteceu na música brasileira", empolga-se Tom Zé.Eliane Azoulay, da revista Télérama, Gerald Arnoud, das publicações Epok, Jazz Man e Africultures, e Henri Laurance, diretor da BMG francesa, foram a um estúdio do bairro de Pinheiros onde o cantor e seus músicos os aguardavam na manhã de sábado. Ouviram trechos das novas criações do artista e o entrevistaram por duas horas. A reportagem do JT acompanhou a visita.Os franceses faziam questão ainda de conhecer o ambiente de criação de Tom Zé. Foram levados a seu apartamento, nas Perdizes, na zona oeste, para se familiarizar com os chocantes "instronzementos" - aquelas parafernálias sonoras feitas pelo próprio músico que se utilizam de peças inusitadas como buzinas velhas, panelas, serras elétricas e canos de plástico. Saíram extasiados. "Ele faz uma música contemporânea que poderia ser melhor apreciada. Tem tudo para agradar à juventude", disse Eliane.Uma outra turma de críticos franceses chega no próximo fim de semana para a mesma agenda de entrevistas e audições. Será a vez de Véronique Mortaigne, do Le Monde; Richard Robert, de Les Inrockuptibles e Jacques Denis da revista Vibrations. Não é a primeira vez que estes jornalistas se dispõem a propagar uma "tomzemania" por seu país. Muitos deles conhecem o músico de longa data. Verónique, por exemplo, já escreveu que Tom "mostra uma grande fusão que resulta em um incomum elitismo popular." Bernard Loupias, do Le Nouvel Observateur, emplacou sua consideração com ponto de exclamação: "É um gênio!"Uma prova de que tanto falatório em torno de Tom Zé é mais do que blá-blá-blá de crítico especializado ocorreu há pouco mais de um ano, depois de uma apresentação feita em Londres. Visto por um produtor francês, foi convidado a liderar um projeto musical em Paris, que trabalha a musicalidade de crianças de várias etnias. O baiano se apronta agora para fazer um workshop de quatro dias para estas crianças e dois shows em Paris.Entender a trajetória artística de Tom Zé é tão difícil quanto tentar decifrar o que é que o músico quer dizer em seus momentos de inspirações filosóficas. Um dia está no topo, outro na sombra. Vez ou outra estende-lhe a mão um figurão estrangeiro. Nos anos 80, David Byrne, líder do extinto Talking Heads, o levou para gravar nos Estados Unidos depois que ouviu seu Estudando o Samba. No fim dos 90, foi Sean Lennon, filho de John, quem veio para lhe prestar homenagens e gravar suas músicas.O que se passa lá fora, no entanto, ainda não condiz com a realidade de Tom Zé no Brasil. É certo que muita água rolou de 1998 para cá, depois que os Estados Unidos ouviram o disco Com Defeito de Fabricação, lançado pelo selo de Byrne, Luaka Bop, e relançado pela Trama, em 1999. Tom Zé tem a favor uma gravadora que lhe trata bem, uma banda que o faz sentir-se em família e todo a imprensa a seu lado.O sonho de ser visto como artista popular é que permanece o mais irrealizável. Jogos de Armar vendeu uma quantia aproximada de 15 mil cópias desde que foi lançado, em 2000. Não tocou em rádio e não virou tema de novela da Globo. O canal de comunicação com seu público, uma vez que os programas de tevê o vêem como um afugentador de audiência, são os shows. Estes estão invariavelmente lotados.Questionada sobre o que pensa da pouca divulgação de Tom Zé no Brasil, Eliane devolve a indagação ao repórter: "Queria fazer esta pergunta a você". Arnoud, da Epok, explica que a mediocrização chegou ao pop francês, e que os franceses estão carentes de trabalhos interessantes. "Esta procura por Tom Zé não foi de um dia para outro. Milhares de pessoas têm um grande interesse pelos tropicalistas."O que cria em Tom Zé a aura de "músico difícil" são conceitos - alguns procedentes, muitos equivocados - formados sobre sua música desde o lançamento do primeiro LP, em 1968. Que sua sonoridade nem sempre soe dançante, confere. Mas, vencido a barreira da primeira audição, descobre-se o quanto há de apelo popular em suas músicas. "A Europa em geral e os países desenvolvidos estão exangües de distração. Eu faço distração. Não tem nada de genial. Apenas distração feita com o maior amor ao ouvido alheio", conta Tom.E chega ao detalhe que tanto arrebata os franceses, povo acostumado a exportar ao mundo grandes jazzistas e músicos eruditos. A distração de Tom Zé não vem de graça. Como explica, ele primeiro dá o susto. Depois, arranca o riso. "Não faço distração por distração. Se você não meter um susto nas pessoas, elas não se distraem. Veja a montanha-russa. A arte é semelhante à montanha-russa. É preciso um pouco daquele mesmo impacto no estômago que a montanha-russa provoca. Ou daquilo que sentimos quando conhecemos a primeira namorada. É um susto. E aí, então, a distração começa."

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