Tom Zé recebe seu Prêmio Shell com a irreverência habitual

Sem discursos formais, cantor fala do peso do troféu e lê texto poético sobre carro e relações humanas

Lauro Lisboa Garcia,

28 de novembro de 2007 | 15h49

A gasolina serviu de combustível para o baiano Tom Zé soltar suas faíscas de ironia na recepção do Prêmio Shell de 2007, nesta terça, 27, que teve como mestre-de-cerimônias a comediante Maria Clara Gueiros, da Zorra Total. O evento aconteceu num sofisticado salão paulistano, Estação São Paulo, cujo espaço pode ser alugado para festas pela mixaria de R$ 25 mil. Coerente com a natural verve de irreverente, Tom Zé não fez nenhum discurso formal. Limitou-se a comentar sobre o peso do troféu na hora de recebê-lo e depois leu um texto poético aludindo ao funcionamento de um carro com relações humanas. Em seguida cantou algumas de suas invenções cancioneiras - como 2001, Augusta, Angélica e Consolação e Cademar - para uma platéia de engravatados e damas de vestido preto. Quem se assustou com o grito repentino em Brigitte Bardot provavelmente não imagina do quanto aquilo é café pequeno diante do que Tom Zé, um saudável moleque de 71 anos, ainda apronta no palco. No fim da curta apresentação de cerca de meia hora, até convenceu alguns dos chiques convivas a sacolejar as jóias, caindo no forró da ótima Xique Xique, parceria com Zé Miguel Wisnik para a trilha do balé Parabelo, do Grupo Corpo. Vestido de jeans, energético e sempre bem humorado, o compositor baiano radicado em São Paulo inteligentemente não abusou da platéia, parte da qual provavelmente não tinha intimidade com sua obra. Mas, evidenciando os contrastes de sua personalidade com as dos donos da gasolina, não se furtou a dirigir a eles críticas sutis, estabelecendo relação entre as guerras e o petróleo, quando cantou Politicar.  Arrancando pedaços da própria jaqueta preta, que usou como paródia de fraque, Tom causou um certo espanto ao entoar versos como "Meta sua moral, regras e regulamentos/ Escritórios e gravatas, sua sessão solene/ Pegue, junte tudo, passe vaselina/ Enfie, soque, meta no tanque de gasolina".  A primeira menção ao combustível veio no clássico 2001, que compôs com os Mutantes nos primórdios do tropicalismo: "Meu sangue é de gasolina/ Correndo não tenho mágoa/ Meu peito é de sal de fruta/ Fervendo num copo d’água." "Essa música já dava sinal de que a gasolina ia fazer bem à minha vida", observou o compositor, referindo-se ao prêmio. Agradeceu a David Byrne, que o tirou do ostracismo no final da década de 1980, quando ele planejava desistir da carreira musical para voltar a sua Irará natal, na Bahia, e trabalhar como frentista num posto de gasolina de um primo. "Mas não era Shell", ironizou mais uma vez. Tom Zé foi o 27.º contemplado com o Prêmio Shell de Música e agora figura na galeria ao lado de gigantes como Tom Jobim, Moacir Santos, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, Baden Powell, Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, entre outros. Tom foi escolhido por um júri formado pela cantora Zélia Duncan, que esteve na cerimônia anteontem, o músico Ricardo Silveira, os jornalistas Leonardo Lichote (de O Globo) e Márcia Vieira (do Estado) e pelo pesquisador Rodrigo Faour. A decisão não foi unânime.

Tudo o que sabemos sobre:
Tom ZéPrêmio Shell

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.