Tom Zé põe dinamite nos pés do século

Qualquer texto ou obra artística é, segundo Julia Kristeva, um "mosaico de citações" com uma multiplicidade, senão uma infinidade de significados. Não existem fontes nem originalidade absoluta. O artista brinca constantemente com um repertório de signos e significados. Não há nada de novo sob o Sol.Mas há novas combinações e novos jogos de armar. Porém, na busca de unicidade, o artista ocidental freqüentemente oculta ou minimiza sua dívida dialógica com outras obras. Apesar das lições do pós-estruturalismo, pós-modernismo e outras bossas, continuamos presos a uma tradição autoral com todo seu peso cultural, social e legal que valoriza a "novidade" cheirando a mofo. Há, portanto, algo paradoxal em Jogos de Armar: Faça Você Mesmo (Trama, 2000), o mais recente trabalho do compositor-cantor Tom Zé: o disco alcança um novo nível de invenção na produção musical por meio da explicitação detalhada de todos os fragmentos sonoros e textuais plagiados que constituem a obra. Ou seja, Tom Zé é sumamente original no seu jeito próprio de articular a impossibilidade de fazer arte original. Que o diga Hans Joachim Koellreutter, o compositor-maestro-incentivador de vanguarda que vem abalando o cenário da música erudita no Brasil desde os anos 40. Num recente vídeo-documentário feito por Carla Gallo sobre Tom Zé, o consagrado fundador do Grupo Música Viva revelou que havia ficado "arrepiado", sem poder dormir depois de ouvir a composição Toc, um assustador bricolage de sons e ritmos do disco Estudando o Samba (Continental, 1976). Foi esse disco que tanto fascinou o roqueiro vanguardista e produtor norte-americano David Byrne, que depois lançaria para o mercado mundial uma coletânea de material dos anos 70 e mais dois discos de inéditos do cantor-compositor baiano pelo selo Luaka Bop. Naquela composição, Koellreutter vislumbra uma nova prática musical, "alguma coisa que é prestes a chegar". Com Jogos de Armar parece que chegou de uma vez aquela "coisa". Leia mais

Agencia Estado,

24 de fevereiro de 2001 | 23h04

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