Tom Zé, o irrequieto parceiro do futuro

Proclamou-se, em música, parceiro do futuro - isto em 1968, plena explosão tropicalista, antes do AI-5 e da dissolução do grupo baiano em conseqüência do exílio londrino de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Proclamou-se parceiro do futuro em 2001, música composta com Rita Lee, sobre máquinas inteligentes e viagens intergaláticas, cantada com sotaque de caipira.Adotou e fez-se adotar por São Paulo, chegado da Bahia, onde havia começado a carreira na música popular - ao lado dos mesmos Caetano, Gil, mais Maria Bethânia e Gal Costa, geração emergente. Com eles fez, em 1964, os shows Nós, por Exemplo e Velha Bossa Nova, Nova Bossa Velha.Ao contrário de seus companheiros de palco daquele tempo que compositores e cantores autodidatas, brilhantes, mas intuitivos, Antônio José Santana Martins tinha sólida formação musical. Era mais velho, também - os outros são dos anos 40 e 50. Tom Zé nasceu em 11 de outubro de 1936, em Irará, no interior da Bahia. O compositor baiano é um dos concorrentes do Prêmio Multicultural 2001 Estadão Cultura.Mestres - Em Salvador, fez curso de música na Universidade Federal baiana. Teve aulas de composição e estrutura musical com Ernst Widmer. Fez história da música com Koellreuter; estudou contraponto com Yulo Brandão; com Piero Bastianelli e Walter Smetak estudou violoncelo.Fez cursos ainda de harmonia, com Mary Oliveira, de instrumentação, com Lindembergue Cardoso, e de orquestração, com Sérgio Magnani. São nomes importantes na história da música brasileira contemporânea, da erudita como da popular. Koellreuter foi professor de Tom Jobim; Smetak pôs a Bahia na primeira linha do experimentalismo nacional.Certamente o espírito inquieto de Tom Zé deve muito a esses mestres - não custa lembrar que Smetak era inventor de instrumentos, coisa que Tom Zé também é. Voltando à sua história de vida: veio para São Paulo em 1965 e participou, como ator e cantor, da montagem do espetáculo Arena Canta Bahia, dirigido por Augusto Boal. Na trilha sonora do espetáculo havia uma composição sua, Cachorro do Inglês, uma parceria com Chico de Assis (o mesmo Chico de Assis que lutou pela profissionalização de Chico Buarque, naqueles anos 60 morador de São Paulo, e que é responsável direto pela profissionalização do MPB-4, quando os rapazes não sabiam se terminavam a faculdade ou se abraçavam a música como ofício).Ainda em 1965, Tom Zé gravou, pela RGE, seu primeiro disco, com a música Maria do Colégio da Bahia. Quando o tropicalismo chegou ao disco, com Panis et Circensis, em 1968, Tom Zé posava na famosa capa em que apareciam também Caetano, Gil, Gal, Nara Leão, José Carlos Capinam, Rogério Duprat (segurando pela alça um penico como se fosse xícara de café). Entre as faixas do disco-manifesto, outra composição sua, o cáustico baião-pop Parque Industrial, aquele que fala do "banco de sangue encadernado que só se precisa folhear, e usar - porque é made, made, made, made in Brazil".Foi também em 1968 que fez seu primeiro elepê individual pela gravadora Rozemblit, e que venceu o (quarto) Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, com a música São, São Paulo (Meu Amor) - aliás, obteve ainda o quarto lugar do festival, com a já mencionada caipira-espacial 2001, parceria com Rita Lee.O segundo elepê saiu dois anos depois e se chamou Tom Zé (o disco foi relançado, em 1984, com outro título: Se o Caso É Chorar). Em 1973, novo elepê, Todos os Olhos (pela Continental).Talvez sua obra-prima seja o disco Estudando o Samba que saiu em 1976. Mas aproximavam-se os negros anos 80, em que toda pretensão de arte musical estruturada foi sufocada pelo pop adolescente e rasteiro de rebeldes afásicos de fancaria. Ainda assim, Tom Zé gravou mais: Correio da Estação do Brás (Continental, 1978). No show de lançamento do disco, levou para cena instrumentos de sua invenção; os instrumentos foram mostrados, depois, num concerto no Teatro Municipal.No ano anterior, havia trabalhado em publicidade. E seu único disco da década negra dos 80 foi Nave Maria, lançado em 1984, com repercussão modesta se consideradas beleza e importância da obra. Nesse tempo foi cronista do Caderno 2.No fim dos anos 80, o músico norte-americano David Byrne egresso do grupo Talking Heads, ouviu alguns de seus discos. Montou uma coletânea - The Best of Tom Zé - e a lançou por sua gravadora, a nova-iorquina Luaka Bop. Tom Zé não tinha contrato com nenhuma gravadora brasileira. Estava sendo esquecido. David Byrne o contratou. Os leitores da revista especializada em música Down Beat elegeu The Best of Tom Zé quarto melhor disco de 1991. Os críticos da revista o puseram em terceiro lugar.Tom Zé gravou, em 1992, o belíssimo e instigante The Hips of Tradition - título em inglês, músicas em português. A carreira internacional deslanchou. Como costuma acontecer, a crítica brasileira, colonizada e subserviente, "descobriu" o gênio do compositor. Afinal, se angaria respeito por quem fala inglês, só pode ser bom.O fato é que não é apenas bom. É ótimo, um artista de imenso talento e integridade, fiel a seus amplos propósitos estéticos e obediente ao espírito irrequieto, empreendedor, desbravador de fronteiras formais.Não fez marketing, não vestiu a capa da modernidade-jovem-a-qualquer preço, não lançou moda nem quis estar nela.Outros campos - Expandiu limites. Escreveu trilha sonora para o balé do Grupo Corpo, de Minas Gerais (Parabelo, 1997, em parceria com José Miguel Wisnik, trabalho que trouxe o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte) - e, agora, está criando, com Gilberto Gil, outra obra para o mesmo grupo.Nos anos 70, havia atuado como ator no espetáculo Rock Horror Show, que tinha direção de Rubens Correa; nos 90, voltou a atuar, no filme Sábado, de Ugo Georgetti - um papel marcante, não o único que fez em cinema.Nos últimos anos, lançou dois CDs preciosos: Com Defeito de Fabricação, pela Luaka Bop, e Jogos de Armar, pela brasileira Trama. Recuperou o lugar de honra que não havia deixado de merecer, incorporou prestígio popular ao que a crítica já lhe dedicava e conquistou público jovem que o transformou em ídolo.No palco, Tom Zé, aos 64 anos, é moderno e jovem. Sua inteligência verbal o transforma num falante de surpresa constante - pela verbalização peculiar, de frases bem construídas, pelas associações de idéias originalíssimas, pela vitalidade interrogadora.Num cenário intelectual em que tantos bons artistas, em nome da popularidade, em busca dela, acomodam-se em fórmulas fáceis e simplificadoras, Tom Zé é o exemplo de que a criação articulada, intelectualmente elaborada e a todo instante inovadora pode, sim, existir e marcar-se em evolução constante.

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