Daniela Ramalho / Estadão
Daniela Ramalho / Estadão

Tom Zé lança 'Vira Lata na Via Láctea' com shows na Vila Mariana

Baiano de Irará derruba qualquer possível fronteira convidando Milton Nascimento, Caetano Veloso, Kiko Dinucci, Chá de Boldo e Criolo

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2014 | 03h00

Se quiserem mesmo dividir o País em dois, deixando o Norte e o Nordeste separados das outras regiões por um muro, Tom Zé vai pedir dupla cidadania. A absurda proposta que vem sendo feita por eleitores frustrados nas redes sociais depois da vitória de Dilma Rousseff para a presidência nem espanta mais esse baiano de Irará que desconstrói cercas desde que nasceu, cresceu e ajudou a dar forma à Tropicália. Quando faz shows no Rio Grande do Sul, por exemplo, diz ele o seguinte aos gaúchos que ainda preservam o sonho de terem uma república independente: "Se quiserem fazer isso, tudo bem. Mas eu entro com meu pedido de dupla nacionalidade no dia seguinte".

O novo disco de Tom Zé, 'Vira Lata na Via Láctea', que terá seu repertório apresentado deste sábado a domingo, no Sesc Vila Mariana, não precisa de bandeiras para justificar a existência. Soaria até banal tentar erguê-las, mas não deixa de ser curioso ouvi-lo justamente neste momento de deformidades morais e delírios coletivos pregando a segregação de um país que só é forte porque, como diz Jorge Mautner, soube fazer a amálgama de sons e cores como nenhum outro.

Um agregacionista por instinto - e não por ideologia, o que o tornaria um chato -, Tom Zé tem nas mãos um disco demolidor mais por aquilo que é o próprio Tom Zé do que pela constelação que o cerca. O vira-lata do nome é ele mesmo, que se coloca humildemente pequeno assim, revirando sacos de ideias em uma Via-Láctea habitada por Milton Nascimento (carioca/mineiro), Caetano Veloso (baiano), Silva (capixaba) e os paulistanos Criolo, Filarmônica de Pasárgada, O Terno, Trupe Chá de Boldo e Kiko Dinucci. Todos falando no sotaque de Irará.

As pontes foram erguidas pelo jornalista Marcus Preto, que assumiu a direção artística e possibilitou costuras que trouxeram convidados especiais. Milton Nascimento canta com Tom 'Pour Elis', letra feita pelo baiano sobre texto escrito por Fernando Faro sobre Elis Regina. “Quando o Marcus ouviu, ele achou a cara do Milton e levou para ele cantar”, diz Tom. É um raro momento em que ele, em suas próprias palavras, “deixa de ser cognitivo para se tornar contemplativo”.

'Geração Y', uma das forças da natureza mais arrebatadoras de Tom, deixa que o jovem narrador fale de sua angústia em primeira pessoa. A questão se coloca em um futuro bem próximo, quando a turma dos smartphones for chamada a liderar as nações. É aí que a velha política pode se encontrar com a nova e, ao final, provar que todos, com ou sem páginas no Facebook, são amaldiçoadamente iguais: “Daqui a alguns anos / vamos ter de governar, ah, ah!... / Oh, e os nossos ideais, ai, quem diria / no mesmo camburão da burguesia / Uma renca de parentes atender / nos ritos e delitos do poder / Puta, que tragédia! / desaba sobre nós / logo depois que a ilusão tem voz”. Cenas reportadas jornalisticamente por um homem de 76 anos que se recusa a envelhecer ou deixar-se domesticar. Um brasileiro indivisível chamado Tom Zé.

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