DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Tom Zé entra no mundo infantil baseado em fábula de Elifas Andreato

Depois de usar o mote sexo como centro do disco 'Canções Eróticas de Ninar', Tom vai ao universo das crianças para fazer 'Sem Você Não A'

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2017 | 07h00

A voz de Tom confunde tudo. É música para criança, para adulto, ou para a criança que está dentro do adulto. A temática infantil surgiu em sua vida desde sempre, mas ele disse que agora teve de pensar diferente assim que passou a musicar as letras que o artista plástico Elifas Andreato lhe enviou. “As repetições, por exemplo. Crianças gostam muito de repetições, por isso eu fiz algumas poucas alterações nas letras do Elifas para colocar um pouco mais desse recurso”, diz Tom. Depois de o sexo estar no centro de seu recente disco, Canções Eróticas de Ninar (2016), o universo infantil é o visitado em Sem Você Não A (um ‘a’ assim mesmo, nu como veio ao mundo, sem o ‘h’ na frente).

As letras seguem a ideia de uma fábula criada por Elifas Andreato, explicada minuciosamente no encarte. “Esta fábula não começa com ‘era uma vez...’ porque ela acontece no abecedário, terra onde vivem os habitantes do alfabeto”, narra Elifas. A história em que “não há reis nem rainhas, nem princesas, sapos ou fadas” tem as letras como protagonistas. As maiúsculas precisam das minúsculas e as vogais, das consoantes. “Elas bem entendem que letra nenhuma escreve nada de fundamental sozinha.”

Além das letras, vivem também nesta terra criaturas como a Curiosidade, quem conduz as letras no papel de “guardiãs do passado, intérpretes do presente e construtoras do futuro.” O Silêncio, outro personagem, resolve sequestrar a Curiosidade para exigir das letras a resposta ao enigma: qual a maior palavra do mundo? Ele dá uma única dica: “A palavra começa com E, e tem pelo meio Amor, Alegria, Amizade, Solidariedade, Liberdade, e acaba com a última das vogais”.

A música de Tom Zé para este episódio mata a charada. “A maior palavra do mundo é eu / Eu, eu, eu, eu, digo eu / Simplesmente Eu / Eu, eu, eu, eu digo eu / Simplesmente eu.” Aí entra Tom Zé e seu poder de fazer do aparentemente frugal o surgimento de um planeta. A música continua: “O Eu é tão gorduchão / É tão gigante grandão / Que o mundo é um pigmeu / Diante de um simples Eu / E como, não se sabe como”. E voltamos à pergunta: música para adulto ou para criança?

E o silêncio, esse espaço sem o qual não existiria som, onde a palavra será colocada? Ou ainda mais, “onde a história da humanidade será colocada”, como diz Tom. Houve shows de lançamento do disco no início do mês, no Sesc Pinheiros, e a reação das crianças a músicas como esta foi das mais gratas a Tom. “Rapaz, nós resolvemos usar elementos que usamos em shows, mas trocando símbolos para o universo infantil”, conta Tom. O capacete dos integrantes da banda, um artifício incorporado em outros shows de Tom Zé, era golpeado por um martelo. “Mas, se eu colocasse isso no show de agora e elas fizessem isso em casa, iriam parar no hospital. Trocamos então o martelo por frutas”, diz.

Mas e o Silêncio, esse esperto que cria o conflito na história ao sequestrar a Curiosidade? Tom Zé fala sobre ele na música A Praga do Silêncio, abusando das repetições. “Eu vou te rogar uma praga / Praga, praga / Abracadabra te pega / pega, pega / Assim como flor arrancada do chão / Murcha, murcha, ah ah ah / Estrela tirada do céu / Apaga, apaga, apaga, apaga, apaga.” “Isso (no show) foi uma grande felicidade. As crianças subiram no palco, contra a orientação do próprio Sesc. Olha, quando eu fui fazer esse disco, pedi ao espírito que ele fizesse uma música interessante, e ele respondeu. As crianças, como escreveu alguém, são o mundo a começar de novo.” 

Ainda sem resposta à pergunta de qual a maior palavra do mundo, Curiosidade fica presa para sempre, mas as letras começam a se solidarizar. Elas se juntam e começam a pensar no enigma, até que o A se desespera e foge para tentar resolver o caso sozinho. E quem se desespera agora são as outras letras, que sentem a falta que um A faz no alfabeto. O mágico G dá uma solução para o problema, quando faz descer do céu algumas de suas amigas estrelas. Elas ocupam as lacunas deixadas pelo A e fazem a leitura ainda possível. Alivia, mas não cura. “Sem você não haverá luas / Nem teremos o azul do mar pra navegar / Ai ai, hum hum / Sem você não A / Sem você não haverá canção”, canta Tom Zé na faixa-título Sem Você Não A.

As letras e as palavras passam por uma nova revolução desde a chegada das novas tecnologias. Ao mesmo tempo em que as pessoas começaram a escrever mais, o tempo todo, nunca a língua portuguesa foi tão maltratada em abreviações de postagens em Twitter, Facebook e WhatsApp. Tom Zé olha para um buraco mais acima. “Há mais de 20 anos que a universidade forma pessoas que não sabem ler nem escrever. Antes da internet, a língua portuguesa já estava depreciada pelas autoridades públicas. Acabar com os professores para acabar com os alunos é um projeto.”

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