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Todas as sinceridades e curiosidades da turnê que Lady Gaga traz ao Brasil

Show de São Paulo, que será realizado no Estádio do Morumbi, deve ter pouco mais de duas horas

Roberto Nascimento / PORTO RICO,

03 de novembro de 2012 | 07h00

Desde abril, a turnê Born This Way Ball, de Lady Gaga, tem sido alvo de protestos religiosos, rixas e especulações sobre a longevidade de sua carreira. Foi banida pelo governo da Indonésia, alfinetada por Madonna em versões de Express Yourself (cantadas com trechos da semelhante Born This Way), e certamente será alvo, ao desembarcar no Brasil, para três shows nesta semana, de discussões variadas - do sentimentalismo inerente à sua figura de padroeira das minorias, à sua presente relevância, três anos após ter surrupiado o centro das atenções do cenário pop como nenhuma outra estrela em tempos recentes.

Logicamente, toda controvérsia é bem-vinda no cenário pop, e quando não está em turnê, Gaga tem seus métodos para continuar no noticiário (a maioria deles envolve o lançamento de alguma marca). Mas, ao se assistir a um show do Born This Way Ball, o plastificado verniz das manobras em prol da fama se desfaz, e a proposta da cantora parece ser mais sincera do que a que vemos, dia após dia, nos ciclos midiáticos. "Se tudo o que eu conseguir esta noite é fazê-los sorrir, então serei a pop star mais feliz do planeta", disse Gaga, em determinado momento de seu show, em Porto Rico, na última terça-feira. Ditas logo após a cantora trazer um jovem de cadeira de rodas para o palco, e dedicar-lhe uma música ao piano, as palavras soaram mais sinceras do que muito que já foi balbuciado por divas milionárias sobre palcos internacionais. Isto deve-se, em grande parte, às credenciais de paria em seu histórico. Gaga diz nunca ter se encaixado na turma popular da escola, e de fato não tem o físico natural de uma princesa pop. Começou do zero no circuito de inferninhos nova-iorquinos, e foi a própria autora de seu primeiro hit, Let’s Dance.

Em frente a uma multidão de adoradores, muitos deles homossexuais, esse discurso ganha força, e Gaga assume a condição de padroeira dos oprimidos, ou "little monsters", como gosta de chamá-los. Born This Way, seu hino a essa diversidade, que Madonna incluiu em Express Yourself para mostrar que Gaga não passa de um xerox, é tocada logo no início do show, para o delírio das bandeiras de arco-íris. Os cínicos dirão que trata-se de um discurso piegas, um golpe baixo para dar sustância emocional a um show que seria nulo não fosse essa estratégia.

Mas mesmo se os momentos quase evangélicos do show não passarem de falsidade premeditada, eles são responsáveis pela turnê mais curiosa em trânsito pelo planeta, neste momento. Onde mais veríamos um espetáculo pop com capacidade para trazer 80 mil pessoas a um estádio e referências tão sutilmente toscas quanto o Born This Way Ball? A cenografia baseia-se em um castelo medieval que não se situa longe, esteticamente, de um prostíbulo da Rua Augusta, ou de um buffet infantil transformado em casa de baixo meretrício da região. Envolta por uma fumaça de pista, Gaga pratica algo semelhante a um pole dance, recebe sexo oral simulado e metralha seus dançarinos com balas de festim. O castelo se abre, e uma barriga embutida com uma vagina gigante, tirada de um set de Pedro Almodóvar, dá à luz a cantora. É o início de Born This Way, que dá vez a outros hits sob uma luz vermelha, e ao som de sintetizadores noventistas, que, não fossem as conhecidas melodias de Gaga, seriam uma playlist do Love Story. Há dançarinos vestidos de escravos egípcios, capacetes intergalácticos e fulminantes trocas de figurinos em diálogo entre alta costura e tosquice pop - estes mais comedidos do que costumamos esperar de Lady Gaga. Há referências musicais ao heavy metal de Iron Maiden, e a Shania Twain. As projeções ao vivo lembram o brilho de videoclipes oitentistas.

Em meio a isso, o que transparece é a aura de uma estrela sinceramente entregue ao que faz. Gaga canta e dança com raro entusiasmo, algo que não é visto todos os dias em shows de divas de seu calibre. Seu corpo se move sem concentrar-se demasiadamente em sensualidade. E quando se aproxima da plateia, Gaga lembra nada mais do que uma menina empolgada, soltinha em qualquer pista de sexta-feira à noite. A postura um tanto torta de seu pescoço - certamente longe dos padrões de beleza que se espera de cantoras galácticas - completa sua aura comum, de uma nerd que transformou-se em rainha pop.

Por estas e outras, comparações com Madonna fogem da real questão. É óbvio que a veterana é a maior referência para Lady Gaga, e certamente, as duas dividem os gostos de fãs homossexuais de diversas gerações. Mas Gaga fala a uma juventude forjada no narcisismo online, cada vez mais insegura em sua forma de enxergar a si mesma. Enquanto Madge tornou-se o padrão de sagacidade pop ao navegar por referências distintas, provocar polêmicas e se renovar infinitamente, Gaga tem uma importância messiânica perante seus fãs. Por isso, quando a cantora leva um homossexual paraplégico para o palco, conta sua história de superação e diz que "se ela conseguiu, todos nós podemos conseguir", o show chega em um de seus momentos mais interessantes: Gaga realmente é o que prega e mesmo com toda polêmica sexual em volta de seus clipes, sua mensagem é positiva. No show de terça-feira, não fossem as simulações de sexo, um retrato de Jesus como homem negro e a letra de Judas, o grupo evangélico que protestava em frente à arena Coliseo de Puerto Rico, não teria razão de estar lá. Afinal, o figurino de Gaga é surpreendentemente comedido, e não apela à seminudez, como fazem tantas outras.

O show de São Paulo, que será realizado no Estádio do Morumbi, deve ter pouco mais de duas horas, e como em Porto Rico, deve sofrer uma queda de ímpeto devido aos discursos da cantora e às batidas arrastadas de suas músicas. Mesmo assim, se fosse pai, levaria meus filhos.

DESTAQUES

1. Uma versão de Edge of Glory, tocada ao piano, antes de deslanchar para o dance pop, é um dos grandes momentos da voz de Lady Gaga no show.

2.A rapidez da troca de figurino, que acontece cerca de 18 vezes durante o show, é impressionante. Lembra Irma Vap.

3. A simplicidade cenográfica, estruturada em volta de um castelo, deve ser ainda mais curiosa em um lugar gigante como o Estádio do Morumbi

 
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