Titãs, Tom Zé e Ana Carolina cantam a crise política

A crise política começa a vazar para a música popular brasileira. Tom Zé e Ana Carolina saíram-se com a canção Unimultiplicidade, na qual se insurgem contra este "país de manda-chuvas/cheio de mãos e luvas", onde há sempre alguém "se dando bem". Em seguida, os Titãs aportaram no Canecão a bordo de seu manifesto anticorrupção, a indignada canção Vossas Excelências. A música ainda não foi gravada. Deverá integrar o novo CD da banda, uma das maiores vendedoras de discos do País (4 milhões de cópias), um novo MTV Ao Vivo Titãs.Composta por Paulo Miklos, Vossas Excelências é virulenta, mas nem os Titãs nem Tom Zé caem na armadilha do linchamento generalizado e do discurso populista. Eles querem limpeza, mas não querem se tornar massa de manobra. Tom Zé vê uma crise crônica não só na política, mas em toda a sociedade, com o fracasso da ética, do afeto e da solidariedade. "Acabou a era do voto. No Brasil, votar não é o bastante. A política precisa instituir um mecanismo em que a sociedade possa estar constantemente vigiando e co-governando", ele pondera. Tom Zé vislumbra o aparecimento de uma figura nova no dicionário democrático: o filocrata. "O filocrata é o cidadão que estaria permanentemente colaborando, fiscalizando o sistema político, estabelecendo o umbigo entre esse governo e o filocrata", diz. Para Tom Zé, a crise é uma praga que acontece no Brasil mais ou menos de 5 em 10 anos, "como uma metralhadora de repetição", e sua preocupação principal já é a próxima crise, "na qual os que hoje bradam pela honestidade e cassam mandatos serão acusados, culpados e cassados". Ele recorre a um esforço que considera utópico para estancar isso. "Só um amplo trabalho de revitalização do espírito da sociedade, cujo comando hoje é entregue ao consumo conspícuo e a outros valores degenerados, pode evitar esse estigma nacional de crises repetidas."Paulo Miklos, dos Titãs, também quer que Vossas Excelências suplante a crítica oportunista e sirva para denunciar a "corrupção crônica" que assola o País não é de hoje e "transforma todo mundo em cúmplice", segundo declarou a Jamari França, de O Globo.Confira as letras das músicas:Unimultiplicidade, de Tom Zé e Ana Carolina Neste Brasil corrupção/ pontapé bundão/ puto saco de mau cheiro/ do acre do Rio de Janeiro./ Neste país de manda-chuvas/ cheio de mãos e luvas/ tem sempre alguém se dando bem/ de São Paulo a Belém./ pego meu violão de guerra/ pra responder a essa sujeira/ e como começo de caminho/ quero a unimultiplicidade/ onde cada homem é sozinho/ a casa da humanidade./ não tenho nada na cabeça/ a não ser o céu/ não tenho nada por sapato/ a não ser o passo./ neste país de pouca renda/ senhoras costurando/ pela injustiça vão rezando/ da Bahia ao Espírito Santo./ Brasília tem suas estradas/ mas eu navego é outras águas/ e como começo de caminho/ quero a unimultiplicidade/ onde cada homem é sozinho/ a casa da humanidade.Vossas Excelências, de Titãs Estão nas mangas dos senhores ministros/ nas capas dos senhores magistrados/ nas golas dos senhores deputados/ Nos fundilhos dos senhores vereadores/ Senhores/ Minha senhora/ Senhores/ Filho da puta/ Bandido/ Corrupto/ Ladrão/ Sorrindo para a câmera/ Sem saber que estamos vendo/ Chorando que dá pena/ Quando sabem que estão em cena/ Sorrindo para as câmeras/ Sem saber que são filmados/ O sol um dia ainda vai nascer quadrado/ Senhores filha da puta/ Senhores bandido/ Senhores corrupto/ Minha senhora ladrão/ Isso não prova nada!/ Sob pressão da opinião pública/ É que não haveremos de tomar/ Nenhuma decisão!/ Vamos esperar que tudo/ caia no esquecimento, aí então../ Faça-se a Justiça!/ Vamos arrumar vossas acomodações/ excelência.

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