Tião Carvalho louva o Maranhão em SP

O cantor e compositor - também ator, bailarino, percussionista, violonista - Tião Carvalho lança amanhã, no Sesc Pompéia, seu primeiro CD-solo, Quando Dorme Alcântara, que sai pelo selo independente Pôr do Som. Se alguém ainda se lembra das músicas apresentadas naquele festival de música promovido pela Rede Globo, há dois anos, vai lembrar, por certo, do tambor-de-crioula do maranhense José Antônio de Carvalho.Alcântara é uma cidade do litoral do Maranhão que foi construída para uma visita do imperador ao Estado, visita que nunca se deu. Quando os geradores de força elétrica são desligados, à meia-noite, vêm às ruas o espírito de um preto velho morto no pelourinho, a filha do nobre, neta do rei de Castela, que atravessa a cidade até a praia, onde anda nua, na Lua cheia. É quando soam os tambores.É desses sons, dessa memória, desses mistérios que fala Quando Dorme Alcântara, a canção. É de tambores e mistérios maranhenses, numa cuidadosa ponte traçada entre a tradição da cultura popular e a música contemporânea, que tratam todas as faixas do disco, assinadas sempre por Tião Carvalho ou por conterrâneos seus, novos ou consagrados - João do Vale (Passarinho, com José Lunguinho), Erivaldo Gomes (Cajapó), Josias Sobrinho (Dente de Ouro), Ana Maria Carvalho (Até a Lua), Ronaldo Mota (Dalva). Nascido em Cururupu, no interior, Tião foi levado por uma tia, aos 8 anos (tem hoje 47) para São Luís, onde uma família portuguesa o criou.Cruzaram-se cultura popular e européia. O menino fez-se artista dos grupos Cazumbá e Laborarte. Com este último, participou de um festival de teatro de bonecos em Ouro Preto, onde conheceu o grupo teatral carioca Vento Forte, em 1979, no qual ingressou. O Vento Forte veio para São Paulo, Tião junto.O maranhense estabeleceu-se no Morro do Querosene, no Butantã, dividindo casa com o iniciante violeiro Paulo Freire. As festas que davam tinham freqüência de gente da comunidade, mais artistas, universitários do campus próximo, da USP, e outros curiosos que chegavam.Há dez anos, os três bois tradicionais (no Sábado de Aleluia, no São João e na primavera, sem data fixa, de preferência num sábado de Lua cheia) e seus diversos ensaios atraem, de cada vez, coisa de 5 mil pessoas.Uma associação ainda informal, comandada por Tião, sem sede própria, promove a festa, assim como organiza atividades de lazer e educação para idosos e crianças, e comemora com dança e música o São Benedito, o Dia de Reis - um espaço de cidadania que supre a ausência do Estado. Sempre em paz: "O morro tem a curiosa característica de não ser ponto de passagem", diz Tião. "Quem está no morro é porque é de lá ou porque foi lá por alguma coisa." Vai-se para ver a festa animada pelo compositor. Quando Dorme Alcântara é um disco belíssimo e estará à venda no Sesc Pompéia, podendo ser comprado, também, pelo site www.pordosom.com.br. No show, o músico, sua banda e a nobre participação do flautista Toninho Carrasqueira.Tião Carvalho. Amanhã, às 21 horas. R$ 5,00 (estudantes), R$ 7,50 e R$ 10,00. Choperia do Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700.

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