EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO
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Tiago Torres da Silva festeja bodas de prata de romance com o Brasil

"Quando ouvi Bethânia cantando uma música minha pensei: 'posso morrer amanhã'", diz português ao anunciar ano produtivo

Lauro Lisboa Garcia, Especial para o Estado

11 Janeiro 2015 | 19h49

Neste 2015, o poeta e compositor português Tiago Torres da Silva completa 25 anos de carreira. Entre a poesia, a letra de canção e o teatro, ele soma incontáveis parcerias com artistas brasileiros. Dirigiu Bibi Ferreira, tem discos inteiramente dedicados a suas composições gravadas por Olívia Byington e Jussara Silveira, acaba de lançar o CD Brincar aos Fados, projeto para crianças, com músicas cantadas por grandes vozes do gênero de diferentes gerações. Para celebrar as “bodas de prata”, em grande parte ligada à música brasileira, há 16 anos, está produzindo o novo álbum da cantora Joanna, o segundo dela voltado para a terra de Torres, incluindo parcerias dos dois, e este também ser o ano de lançamento do disco Contrabando, encontro dele com Luis Felipe Gama e Ana Luiza. Há ainda em andamento outro projeto mais ambicioso: ter suas canções mais representativas gravadas pelas grandes vozes brasileiras da geração que despontou nas décadas de 1960 e 1970, como Simone, Elba Ramalho, Elza Soares, Ney Matogrosso, Caetano Veloso.

A admiração do poeta pela música brasileira vem desde pequeno: seu primeiro disco foi um compacto simples com Gal Costa interpretando Modinha pra Gabriela (Dorival Caymmi), de 1975. “Pra mim é a melhor cantora brasileira e meu sonho é ter uma música com letra minha cantada por ela. Isso até agora não aconteceu, mas outras coisas que não esperava foram surgindo: Célia gravou uma música minha, Cida Moreira escolheu outra, Oitava Cor, para entrar no disco novo, Vanessa da Mata escolheu Aprender a Sorrir para um disco do António Chainho, que é um dos maiores músicos de guitarra portuguesa. Alaíde Costa e Gonzaga Leal pediram autorização para gravar Meu Amor Abre a Janela no CD Porcelana.”

Parceiro de André Mehmari, Alzira E, Swami Jr., Iara Rennó, Vinicius Cantuária, Zé Paulo Becker, Zé Renato, entre outros, Torres acaba de completar 45 anos. Em 2011 recebeu o Prêmio Amália Rodrigues (cantora que ele idolatra e de quem foi amigo) pelo conjunto da obra como poeta do fado. “No último ano e meio, optei por fazer mais teatro do que letras. Assim, escrevi e dirigi cinco peças de teatro.”

Torres é “uma máquina de fazer letra”. No entanto, em janeiro de 2012, quando perdeu o pai e a mãe com diferença de seis horas, parou com tudo. “Aquilo foi tão violento, tão incrível que fiquei sem escrever durante muito tempo. A escrita exige que você vá a alguns lugares em que eu não queria ir. Você tem de deixar que as emoções venham com força e eu não podia fazer isso.” Quando retomou as atividades não começou por escrever nada que tivesse ligação com essas perdas irreparáveis.

A relação Brasil-Portugal continua sempre presente. “Pesando os prós e contras desses 25 anos de carreira, tenho muito a agradecer. Algumas coisas me frustraram porque fiquei na porta esperando acontecer. Se não tivesse essa expectativa talvez tivesse sido mais fácil. Quando ouvi Maria Bethânia cantando uma música minha pensei ‘posso morrer amanhã’. Para um português já está bom demais. Eu não estudei música brasileira, já estava na minha vida desde os 5 anos de idade. Desde os antigos até os contemporâneos me interessam.” Entre as novas cantoras ele admira Tulipa Ruiz, Juçara Marçal e Alice Caymmi, as duas últimas as que mais lhe causaram impacto. “O disco de Juçara (Encarnado) é um abismo de uma coragem inacreditável.”

Para ele, que estudou muito a História do Brasil, como a mitologia do candomblé, gírias, o vocabulário não só de palavras, mas de ambientes, pra melhor compreender o País e sua música, há uma grande diferença em escrever para o fado e para a música brasileira. “Por exemplo, a palavra barriga você não pode usar num fado, é quase grotesca. Agora, ‘o tempo parou pra eu olhar para aquela barriga’ é lindo”, diz, referindo-se ao verso de Caetano Veloso em Força Estranha. “Talvez isso seja menos um mérito e mais uma necessidade minha. Tive de estudar mais para isso, porque um erro de um cara que não pertence ao lugar é só um erro. O erro de alguém que não pertence é imperdoável. Só aceito fazer o que não sei. Ser artista é andar à procura, quem achou já não é artista.”

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