Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Tiago Barbosa estreia carreira solo com show intimista em São Paulo

Em 'Estrada', ele resgata suas influências musicais 

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

22 de setembro de 2015 | 04h00

Quando subir no palco do Bourbon Street, dia 29, para iniciar sua primeira apresentação solo, o cantor e ator Tiago Barbosa certamente vai respirar fundo e manter alguns segundos de concentração. Ao emitir as notas iniciais da primeira canção, Meu Guri, de Chico Buarque, as reminiscências mais fortes de seus 30 anos de vida virão à tona. Com um encantamento mágico, sua voz de som melodioso, aveludado, de vogais arredondadas e consoantes vibrantes, vai expor infortúnios e sucessos, acaso e persistência, amor e raiva.

“O show se chama Estrada porque conta a história da minha vida em três momentos distintos”, conta Tiago, conhecido por ter participado da versão 2012 do reality Ídolos e, principalmente pelo papel de Simba, no musical O Rei Leão. “Começo com uma música mais reflexiva, que conta um pouco sobre como foi minha infância e como poderia ter sido. Lembro da influência do meu pai, com um pouco de MPB, samba e R&B, depois entro em um momento mais clássico, com orquestra, passo pela história do programa Ídolos, momento no qual precisei me entender e me aceitar como cantor, até a fase de descoberta do universo do teatro musical e o trabalho com a Disney, chegando até a atualidade, de enfim compor o som que realmente gostaria de fazer e que por muito tempo optei por esconder. Isso é a estrada.”

Tiago é um artista envolvente, pois traz uma verdade inquestionável em sua fala. Meu Guri, por exemplo, vai lhe trazer a imagem do pai, Jorge, sua eterna fonte de inspiração mas que, em um momento de desespero, chegou a negá-lo - sua mãe, Maria da Penha, enfrentou uma gravidez complicada, a ponto de, ao final, um médico impor uma terrível escolha para Jorge: o esforço tinha de ser concentrado na luta pela sobrevivência de apenas um, a mãe ou o garoto. Pressionado, Jorge escolheu a mulher. O garoto, no entanto, vingou, tornando-se orgulho da família.

“Desde a infância, meu pai levava a música para dentro de casa, estávamos sempre cantando”, conta ele. A lembrança faz com que abra um sorriso que brinca em torno das bordas de sua boca, ameaçando materializar-se diante da mínima provocação. Quando finalmente se espalha por seu rosto, lenta e tranquilamente, transforma esse rapaz basicamente normal em um homem encantador. 

As conquistas nunca vieram placidamente. Ainda durante a interpretação de Meu Guri, Tiago vai se lembrar do dia em que, menino ao lado dos irmãos, era parado pela polícia que fazia a ronda em São João do Meriti, no Rio, desconfiada de armas e drogas. “Enquanto meu pai gritava dizendo que eram apenas instrumentos musicais, meu irmão recebia um tapa na cara de um oficial irritado”, conta Tiago, sem controlar a lágrima que desenha um caminho em seu rosto.

Em cena, Tiago estará acompanhado por 10 músicos - quarteto de cordas, teclado, guitarra, contrabaixo e percussão -, além de três backing vocals, que o apoiam. No set list, Milton Nascimento, Cazuza, Sandra de Sá, The Carpenters, Luther Vandross e Ray Charles, incluindo ainda composições autorais - uma delas feita em parceria com o amigo e colega de palco, César Mello. Como se trata de um show muito intimista, revelador - até um tempo atrás, ele não se sentia à vontade para tornar públicas suas canções -, Tiago se cercou de todos os cuidados.

Os músicos, por exemplo, estão dispostos a todo tipo de inovação. É o que vai acontecer, por exemplo, com o tema Fame, do seriado e do filme Fama. A primeira versão lembrava a Broadway, mas Tiago preferiu torná-la mais tribal, apenas com atabaques, voz e palmas. “Assim será esse show, Estrada: entrar nas minhas vielas, descobrir as cores da minha vida e conhecer esse pai que foi herói e também teve medo.”

ESTRADA - O SHOW

Bourbon Street. Rua dos Chanés, 127, Moema, 5095-6100. 

Dia 29/9, às 21h30. R$ 65. 

Roteiro marcado por sucessos, saudade e inundações

A cena já se tornou clássica entre os vídeos de musicais no Brasil: no final de 2012, Julie Taymor, a principal criadora de O Rei Leão veio a São Paulo participar da audição que definiria o elenco principal. Depois de alguns candidatos, ela observa a apresentação de Tiago Barbosa, que só estava ali porque os amigos insistiram e fizeram uma vaquinha para comprar a passagem de ônibus que o trouxe do Rio de Janeiro.

Tiago cantou Endless Night, um dos momentos mais marcantes do musical, em que Simba sente a ausência do pai. Julie não conseguiu responder - apenas chorar. O veredicto veio com um forte abraço em Tiago, já tratado por ela como Simba. Depois, Julie garantiu ainda que ele seria “o melhor Simba do mundo”.

Em 2014, Tiago estreou no musical com uma performance que lhe valeu o troféu de ator revelação na segunda edição do Prêmio Bibi Ferreira. E, depois de um ano vivendo as aventuras de Simba, ele mudou a trajetória para exibir sua veia cômica em Mudança de Hábito, em cartaz no Teatro Renault.

Momentos marcantes como esse formam o corpo de Estrada. “O show mostra os caminhos que percorri e, principalmente, as pessoas que me deram combustível para continuar”, conta ele que, mesmo sem intenção, já vinha desenhando a estrutura do show nos últimos meses.

Parceria. Tiago conta que não pretendia revelar suas canções próprias, temendo ser íntimas demais. Alguns colegas, no entanto, fizeram-no ver que ali estava uma nova rota para sua carreira. “Um grande incentivador foi o César Mello, que interpretou o pai de Simba no Rei Leão e agora divide o palco comigo em Mudança de Hábito”, conta ainda ele. “Passamos três anos trabalhando juntos, entre ensaios e apresentações, e houve alguns dias em que ele me pegou dedilhando umas notas no piano, durante algumas pausas no trabalho.”

César sabia do histórico de Tiago, especialmente da fase em que trabalhou como office-boy de uma igreja em São João de Meriti, no Rio - época em que a força da canção litúrgica lhe foi muito influente. “Ele se interessou e pediu para que eu apresentasse a canção. Quando percebi, César estava chorando. Logo, ele escreveu a letra e nasceu Intimidade, que apresento no show”, conta Tiago, que já se prepara para o próximo passo: eternizar em CD sua tão íntima experiência. 

Outras canções, mais conhecidas, também serão apresentadas como representativas de momentos delicados.

Travessia, por exemplo, clássico de Milton Nascimento e Fernando Brant: basta ouvir os primeiros acordes que Tiago volta no tempo e se recorda da primeira audição que fez para o Rei Leão, ainda no Rio de Janeiro. “Eu me esqueci da letra da música e fiquei apenas cantarolando”, lembra-se. “Voltei para casa chorando, acreditando no fracasso. Quando cheguei - na época, eu morava no Vidigal -, uma tempestade inundara meu espaço. O que me fez resistir foi a letra daquela canção.”

Toda história tem um começo, acredita piamente Tiago Barbosa. E, mesmo com o final distante, o que vale é a forma como percorrer a travessia. É o que ele pretende contar em Estrada, com refinamento e, especialmente, emoção.

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