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Thomas Zehetmair faz concerto vibrante e enérgico

Na apresentação da quinta, dia 2, regente comandou a Osesp, que contou com o solista Heinz Holliger, no oboé

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2016 | 12h53

Críticos, opinião pública e até os estudiosos posteriores a 1830 se acostumaram a jogar no limbo as duas primeiras sinfonias de Beethoven, tidas como mero aprendizado. É engano flagrante valorizar sua produção só a partir da terceira, a Sinfonia Eroica. O compositor escreveu a segunda em 1802, num momento trágico de sua vida, a constatação da surdez, que o levou ao isolamento e a fazer o testamento de Heiligenstadt. 

Isso tudo se reflete nesta obra fascinante, acusada na estreia por um crítico vienense de ser um "monstro horrível ferido se contorcendo que se recusa a morrer". Ela já apresenta novidades e dá as pistas de seu gênio revolucionário. Foi o que Thomas Zehetmair, empunhando a batuta frente à Osesp, na quinta, dia 2, ressaltou em sua leitura vibrante e enérgica. Desde a introdução, que, apesar de seguir o padrão Haydn - adagio-allegro con brio -, acentua ainda mais o contraste. Alarga o primeiro, com 36 compassos que alternam os tutti em fortíssimo com a delicadeza das madeiras. Quem for à partitura deste primeiro movimento vai perceber uma minúcia de indicações até então inédita na música sinfônica. Harvey Sachs contabiliza 260 indicações de forte, fortíssimo, sforzando, forte-piano e forzando-piano em seus 7 minutos (descartando-se a repetição da exposição). O curtíssimo scherzo, por exemplo, foi um clarão de virtuosidade. 

O complexo concerto para oboé do norte-americano Elliott Carter foi estreado em 1988 pelo mesmo solista que o interpretou quinta-feira, 2, na Sala São Paulo: Heinz Holliger. Possui os três movimentos tradicionais - rápido-lento-rápido, que no entanto fluem de modo contínuo, com o oboé dialogando com as várias seções da orquestra, que não lhe fornece um leito sonoro previsível, mas o desafia constantemente.   

Sua música não faz concessões. Diz o maestro David Robertson que ouvi-la é como assistir a uma peça de teatro numa língua desconhecida: "Você não entende o significado literal, mas vive a experiência emocional". Carter foi um autêntico compositor modernista, sentiu-se exilado em seu próprio país, só foi plenamente reconhecido nos EUA nas décadas finais de sua longuíssima vida (morreu em novembro de 2012, às vésperas de completar 104 anos). Jamais transigiu. Sem dúvida, foi emocionante poder compartilhar com Holliger e Zehetmair sua devoção a este grande compositor contemporâneo.

A curta abertura da ópera Alfonso e Estrella, de Schubert, abriu a noite. Escrita em 1822, só estreou em 1854, bem depois de sua morte em 1828. O compositor, conhecido em Viena por suas canções, escreveu 15 óperas, mas não conseguiu levar nenhuma à cena. Recebeu uma leitura empenhada de Zehetmair e da Osesp.

COTAÇÃO: ÓTIMO

 

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