Bernie Walbenny
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Thomas Roth celebra carreira na música com projeto ‘Ouro Velho’

Cantor e compositor fará lançamentos semanais ao longo de 12 meses, com grandes sucessos e inéditas

Matheus Mans, Especial para o Estadão

25 de novembro de 2021 | 15h00

De barba e cabelos grisalhos, Thomas Roth deixa claro o orgulho de sua idade, de suas rugas e de sua experiência. Cantor, compositor, instrumentista, arranjador, produtor e publicitário, Roth celebra seus 52 anos de carreira, assim como os 69 de idade, com um lançamento que deixa explicitada a experiência do carioca desde o título até a concepção da ideia. É Ouro Velho, projeto que reúne 52 gravações de músicas compostas por Roth, entre inéditas e sucessos na voz de outros cantores, que agora ganham interpretação do carioca.

A ideia, conta Roth em entrevista por vídeo ao Estadão, é fazer de Ouro Velho um verdadeiro manifesto contra o preconceito pela idade. Ele, batendo na casa dos 70 anos, resolveu sair dos bastidores para, enfim, colocar sua voz em suas criações. Não se deixa abater, em momento algum, por algum preconceito que poderia vir a existir por sua idade ou por qualquer acontecimento de outros tempos. Empunhando a bandeira, fala com propriedade e convicção que o projeto é para celebrar o passado e empoderar o presente.

“Sabe o que eu gostaria de ser? Porta-voz de um olhar mais forte para essa coisa do etarismo. O que eu quero dizer, beirando os 70, é que eu estou mais vivo do que nunca. Estou com muita energia. Fico possesso quando vejo quando as pessoas de 45 ou 50 são discriminadas. É uma das maiores discriminações”, afirma Roth. “Comungo do direito dos negros, LGBT, deficientes físicos, mulheres, indígenas. Temos muitas causas. Mas todos e todas ficarão velhos algum dia, todos sofrerão desse preconceito. Isso tem que acabar”.

Caminhos

Para colocar essas 52 faixas no mercado, Roth avança com a calma que a vida lhe ensinou. Será um lançamento por semana, ao longo de 12 meses. Um conta-gotas que, dessa forma, pode possibilitar que o público vá degustando músicas como Quero, gravada por Elis Regina; Cachoeira, famosa na voz de Ronnie Von; São Paulo, Boa Sorte, Como Nunca e Balada dos 400 Golpes por Beto Guedes; e, ainda, Canção de Verão, Voo Livre e Um Pouco de Amor, gravadas pelo Roupa Nova. E inéditas, como a faixa-título Ouro Velho. 

Até o momento, para começar o projeto, Roth já colocou sete gravações no mercado, que podem ser encontradas em serviços de streaming e no próprio canal oficial do músico no YouTube. Com essa espera pelos lançamentos, fica evidente como este é um movimento contrário de tudo que o mercado mainstream faz hoje, lançando músicas cada vez mais curtas, lançamentos feitos para estourar no momento e rapidez na produção. Roth vai com calma, lançando as músicas aos poucos, sem pressa e sem grande alarde. Tudo é calmo.

“Tem uma coisa cultural de hoje, da garotada de hoje. Isso é outra coisa. Mas isso não quer dizer que tudo seja assim. Tem essa visão monocromática. A música é um grande iceberg. A grande indústria é a ponta visível. Isso não traduz a música”, diz. “Eu escolhi, ainda que não deliberadamente, nadar contra a maré. Eu escolhi por conta de minhas convicções, pelo que eu acredito, que me satisfaz. Não estou preocupado se 100 pessoas vão gostar ou 1 milhão de pessoas. Não tenho preocupação com sucesso ou resultado financeiro”. 

No processo de criação, Thomas Roth também conta histórias de canções que foram marinadas por anos. Ele diz que terminou recentemente uma música, por exemplo, feita para as filhas. Quando nasceram, teve uma ideia, que logo esbarrou em uma dificuldade de encontrar o caminho. Só terminou recentemente, 40 anos depois. “Quanto mais eu avanço nesse mar, mais percebo que fiz a coisa certa”, afirma o carioca. “Nunca fiz música pensando em fórmulas. Pelo contrário: sempre fujo quando percebo que a música está ficando cerebral. Quando eu sinto que uma música não tá mais me arrepiando e me fazendo viajar, paro”.

‘Ouro Velho’ surge

No nascimento do projeto Ouro Velho, que Roth conta com visível alegria e emoção, também está esse compasso de espera. O carioca, afinal, começou sua carreira nos anos 1970, no mercado publicitário, quando fazia composições de jingles. A música surgiu como um refresco para a alma com composições aqui e acolá até que, nos anos 1980, formou dupla com Luiz Guedes (primo de Beto Guedes) e gravou dois compactos e dois discos. Foi um sucesso, mas acabou chegando ao fim por conta de diferenças entre Luiz e Thomas.

Depois, já nos idos dos anos 1990, Thomas quis retomar o projeto de colocar sua voz nas músicas que tocavam nos rádios na voz de outros intérpretes. Para isso, abriu as portas da gravadora Lua Music. Só que os planos não correram como o esperado. O selo acabou se tornando refúgio para artistas que, na época, estavam desassistidos pelo mercado, como  ngela Maria, Cauby Peixoto, Guilherme de Brito, Jards Macalé, Aldir Blanc e Casquinha da Portela, Wanderléa, Amelinha, Moacyr Luz, Maurício Pereira, Virgínia Rosa, dentre outros.

A ideia de lançar gravações próprias ficou para depois. Já nos anos 2000, com 440 discos lançados pela Lua Music em 14 anos, Thomas Roth ainda encarou outro projeto: se tornou jurado no SBT, primeiramente no programa Ídolos e depois do Qual É o Seu Talento?. Ainda que tenha dado uma palhinha como cantor ao lado de Cyz Zamorano, outra jurada dos programas ao lado de Arnaldo Saccomani e Miranda, não encarou a experiência. Aliás, até hoje, ele relembra com riso, e um traço de melancolia, essa apresentação que fez na TV.

“Nosso diretor falou: ‘Thomas, você e a Cyz ficam cantando na coxia, vamos apresentar’. Topei. Cara, eu levei tanta pedrada. Perguntavam como esses caras ficam julgando a gente. Isso criou um alerta. Virei vitrine. Lançar [meu disco] é bobagem. Também não queria parecer oportunista. Não queria contaminar o meu trabalho”, explica. Ouro Velho, assim, se tornou uma ideia para depois, se esparramando entre as décadas, entre os tempos de Thomas. Mas a compreensão de que não dava mais para esperar veio com a pandemia. 

“O tempo corre muito depressa. Quando veio a pandemia e comecei a perder amigos e a entender o tamanho do drama, pensei: ‘cara, eu posso morrer amanhã e não lancei o meu álbum. Tenho mais de 100 músicas prontas”, conta Roth. “Não sou mais um menino, não vou disputar no mainstream. Pensei: não preciso mais seguir o caminho normal, lançando um álbum, fazer isso ou aquilo. Eu quero que as pessoas saibam que eu sou compositor, que fiz essa e aquela música da novela. Quero que as pessoas conheçam esse trabalho”.

No final, dá para dizer que Ouro Velho demorou, mas chegou no momento certo na carreira do músico carioca. Com esse trabalho, Thomas Roth quebra de vez qualquer preconceito ao redor do que fez ou deixou de fazer. Não quer ser um músico de rótulos. Também tem essa calma de perceber como pôr isso no mercado. Por fim, o manifesto contra o etarismo e a celebração da idade se torna providencial. A música-título do projeto, aliás, deixa claro. Thomas Roth tem algo a dizer: “Sou como ouro velho. Sou velho, mas ainda valho”.

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