Todd Heisler/The New York Times
Todd Heisler/The New York Times

Thomas Kotcheff e Frederic Rzewski mesclam arte e política em álbuns

‘Songs of Insurrection’ e ‘This Land’ mantêm o justo equilíbrio entre motivação política e qualidade de invenção

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

05 de março de 2021 | 05h00

Você até pode ser zen e pacífico em relação a tudo, desde que uma instância política garanta o exercício regular da serenidade; e também permita lutar contra agressores eventuais, advertiu Maquiavel há cinco séculos. É por isso que, velada ou escancaradamente, as artes – e a música em particular –, por seu poder de subverter corpos e mentes, trazem um atributo que já assustava Platão na Grécia antiga.

O nó é manter o justo equilíbrio entre a motivação política e a qualidade de invenção. Quase sempre se afrouxam critérios artísticos em prol da mensagem política. Por isso, momentos virtuosos são únicos. Verdadeiros pontos fora da curva. No Brasil, as canções de Chico, Milton e da dupla João Bosco/Aldir Blanc estão nesse seletíssimo buquê. Também a música contemporânea que, durante a maior parte do século 20, era tratada como “a vanguarda”, pariu obras-primas engajadas assinadas por um Luigi Nono na Itália e por Gilberto Mendes por aqui.

Dois recentes álbuns extraordinários comungam desse bem-vindo credo. E dão de ombros para rótulos ou cerquinhas. Em Songs of Insurrection (Coviello Records), sete canções revolucionárias são transformadas numa suíte para piano solo que já é obra-chave destes primeiros 20 anos do século 21, em interpretação do pianista norte-americano Thomas Kotcheff, de 32 anos. Elas constituem a mais recente granada político-musical desferida pelo compositor americano Frederic Rzewski, hoje com 82 anos. 

Ao longo de seu itinerário artístico, manteve – e mantém – forte componente político. Ou seja, Rzewski é, acima de tudo, um animal político. O maior exemplo dessa atitude é sua obra mais famosa, as 36 Variações Sobre Um Povo Unido Jamais Será Vencido, tecida em torno da canção chilena que virou símbolo da resistência às ditaduras latino-americanas dos anos 1970. Detalhe: a obra foi encomenda do governo dos EUA para comemorar os 200 anos da Revolução de 1777. Quarenta anos depois, em 2017, Rzewski compôs essa nova suíte, à qual assisti em primeira execução latino-americana em dezembro daquele ano, em São Paulo, com o ótimo pianista belga Daan Vandewalle.

São sete impactantes variações sobre sete das mais famosas e célebres canções de luta de populações oprimidas durante o século 20. Um emocionante caleidoscópio de canções emblemáticas, como Grândola, Vila Morena, que embalou os portugueses na Revolução dos Cravos de 1974 e acabou com a ditadura salazarista. Outras canções altamente simbólicas: Katyusha, entoada pelos soldados russos resistindo à invasão nazista na 2.ª Guerra e depois repetida por outros movimentos de resistência na Grécia e Itália; a canção gospel Ain’t Gonna Let Nobody Turn Me Around, que se tornou o hino da luta pelos direitos civis nos EUA dos anos 1960 (gravada por Joan Baez); e Los Cuatro Generales, a canção de luta do poeta Federico García Lorca na Guerra Civil Espanhola de 1936-39.

Mesmo com matéria-prima tão rica, Rzewski não construiu o óbvio, uma colcha de retalhos. Trabalha fragmentos de melodias e refrões, dá espaços para improvisos do pianista; e oferece uma escrita pianística de primeira. Ou seja, de novo, como em 1977, Rzewski põe de pé um monumento artístico que vai muito além da panfletagem. É um emocionante choque de consciência, a lembrar-nos de que o risco autoritário sempre nos ronda perigosamente e pode chegar de repente, sem aviso. Mas sem abdicar do melhor de sua invenção. Kotcheff constrói uma interpretação à altura da obra-prima.

Bem, Rzewski é exceção. Habitualmente, os compositores engajados na luta política separam suas criações: de um lado, a invenção experimental; de outro, as peças fáceis engajadas, com letra ou então com títulos indicando o propósito político. Mas a música é fácil, acessível. 

This Land (janeiro, 2021), do quarteto de metais The Westerlies e o cantor Theo Bleckmann, é outro ponto fora da curva na produção musical atual. Em vez de reportar-se diretamente aos efeitos da pandemia ou mesmo protestar contra o governo Trump, prefere cutucar o inconsciente musical coletivo norte-americano de modo refinado. 

Bleckmann, nascido em 1966 em Dortmund, mudou-se aos 23 anos para Nova York. E, há três décadas, constrói uma das carreiras mais sólidas no domínio das músicas contemporâneas em sentido amplo. Ele tanto transita na vanguarda erudita (integrou por 15 anos o grupo de Meredith Monk) quanto no circuito mais acessível dos músicos e compositores do grupo Bang on a Can (Batendo Lata), de Manhattan. Fora isso, também cisca no maravilhoso repertório que brincava nas franjas do popular e do erudito na Alemanha de Weimar, nos anos 1920. Gravou álbuns extraordinários para dois selos afins, o Winter&Winter e a ECM.

Bem, Theo, dono de um timbre vocal especialíssimo, tem uma afinação impecável e uma compreensão profunda de tudo que interpreta. O quarteto nova-iorquino é formado por Riley Mulherkar e Chloe Rowlands nos trompetes, Andy Clausen e Willem de Koch nos trombones. Parece bizarro ou monótono, só que não. Eles “conversam” deliciosamente com a voz de Theo 

O impacto já acontece na primeira faixa, The Fiddle and the Drum, algo como a rabeca e o tambor, canção folk, portanto intencionalmente simplória, de Joni Mitchell, que vira um dueto de harmonias sofisticadas entre a voz e o par de trompetes. As surpresas aumentam quando os dois trombonistas Andy Clausen e Willem de Koch se juntam a eles. Em Looking Out, o tema tristonho do trompete de Riley Mulherkar aos poucos se encaminha para um duplo discurso: de um lado, conhecidíssimos temas que os norte-americanos dançavam durante a 2.ª Guerra, embalados nos salões pelas big bands. Aos poucos, entretanto, falas quase murmuradas de Theo dão conta do horror subterrâneo que o país ocultava: é o texto sub-reptício da Ordem Executiva n.º 9066, que prendeu e jogou nipo-americanos que viviam nos Estados Unidos em prisões em tudo parecidas com os campos de concentração alemães. Aqui e ali, salpicam vinhetas em torno de 60 segundos ou menos. Como esta, de título que é puro slogan de passeata: Tear the Fascists Down. Literalmente, destruam os fascistas.

Tente. Você não conseguirá passar incólume pela audição de Songs of Insurrection e This Land

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