Thiago Pethit lança o álbum 'Rock'n'Roll Sugar Darling'

Músico mescla rock e afeto no terceiro disco da carreira

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

09 de novembro de 2014 | 19h00

Cantor e compositor a serviço da própria obra, Thiago Pethit sempre pensou fora da caixinha. Enquadrado na cena que ficou conhecida como ‘neo MPB’ - ao lado de outros jovens nomes da música, como Tiê, Tulipa, Marcelo Jeneci, entre tantos outros - quando lançou o primeiro disco, Berlim, Texas, em 2010, Pethit aceitou a nomenclatura enquanto ela designava pluralidade. Rock, samba, pop, enfim, cabia de tudo ali. Hoje, sente que ela não o representa. “O mercado funciona desse jeito: precisa ir engavetando as coisas, tornando-as cada vez mais chatas, mais caretas, mais quadradas para a gente poder vender”, acredita ele. “Sinto agora uma similaridade nos trabalhos. Antes, o que era mais parecido era: eles são diferentes. Cada vez menos me identifico com essa ‘neo MPB’. Cada vez mais tenho vontade de dizer eu faço rock.”

Mas, claro, seu rock não cabe numa prateleira específica. E, em seu novo disco, o terceiro da carreira, Pethit faz o que chama de Rock’n’Roll Sugar Darling - título desse trabalho, que tem lançamento oficial hoje. Para ele, é um rock com açúcar e com afeto - ou com afetação. “Não é qualquer rock, não é o rock que é feito para o homem heterossexual, da cerveja. Você vai ao show de rock e só tem homens, É outra coisa: é o rock afetado, safado, cretino”, define o cantor paulistano, de 29 anos. 

Antes mesmo de seu disco entrar em pré-venda no iTunes e, agora, chegar a prateleiras indefinidas, Thiago Pethit já dava uma amostra de sua própria leitura para o ritmo que imortalizou artistas como Elvis Presley ao lançar o clipe do single Romeo, que foi rodado em Los Angeles, Estados Unidos. Com clima de roadmovie, ao estilo de Coração Selvagem e Thelma & Louise, a história de amor e tragédia do casal transgressor é ‘roteirizada’ pela letra da canção assinada por Thiago Pethit e Hélio Flanders, do Vanguart - um dos poucos com quem Pethit encontra afinidade para compor. “Esse teu jogo é sujo desde o começo/ Isso pouco importa, mas por isso eu te peço/ Quero entrar no teu carro e fugir com você/ Você foi o mais perto que cheguei de morrer”, diz um trecho da música. 

Sensual, Romeo tem a mesma força de Moon, de seu disco anterior, Estrela Decadente, de 2012. Assim como Romeo e outras canções de Pethit, Moon tem uma letra ‘visual’ - talvez pela proximidade do compositor com o universo dramatúrgico, já que, antes de ir para a música, ele era ator - aliás, Pethit retorna às origens atuando no novo filme de Vera Egito, SP é Uma Festa. E, no ano passado, Moon ganhou clipe dirigido por Heitor Dhalia. Ali, de novo, Pethit desconstruiu o estereótipo do casal-apaixonado-que-quer-casar-e-ter-filhos. Em Romeo, amar está no limiar da morte. “Não suporto esse papinho que o amor vai salvar o mundo. Acho que amor é uma coisa muito de vida ou morte, é muito violento amar uma pessoa”, justifica. “Talvez seja mais fácil lidar com a existência se a gente assumir esse ponto de vista, que é uma barra estar vivo. Conhecer pessoas, conviver, se relacionar são coisas difíceis. Prefiro refletir em cima desse assunto.”

No novo álbum, Thiago Pethit volta a reverenciar os ícones. Às vezes, de forma proposital, às vezes, não. A começar pela faixa de introdução, que traz a voz de Joe Dallesandro, ator-fetiche de Andy Warhol e o ‘Hey Joe!’, de Walk On The Wild Side, de Lou Reed. Little Joe, como é conhecido, assistiu ao clipe de Moon, apresentado a ele por um amigo em comum, e os dois passaram a se falar com frequência. 

Preste atenção ainda em outros flertes, como no provocador Quero Ser Seu Cão, numa menção direta a I Wanna Be Your Dog, de Iggy Pop, com guitarra à la Bo Diddley. Na canção, cabe ainda uma espécie de resposta a Nancy Sinatra, em These Boots Are Made For Walking. Na música, ela sentencia: “Um dia desses essas botas andarão por cima de você”. “É um pouco: ‘anda com as botas em cima de mim, quero ser seu cão’”, diz Pethit, comparando o clássico da filha de Frank Sinatra com a sua canção-homenagem. Há também, só para citar outros exemplos, uma mescla de anos 1960, clima ‘fantasmagórico’ de Twin Peaks, de David Lynch, e um quê da melancolia com jeito de Radiohead em Story in Blue, e a incursão pelo rock clássico em Voodoo

Assim como em seus discos anteriores, Pethit une, em suas composições, letras em português e inglês. O bilinguismo soa natural, sem pedantismo. “Acho que é muito geracional. Aquela história do mundo globalizado, sou de uma geração em que o mundo já estava resolvido desse jeito, não consigo nem entrar na lógica do ‘imperialista’. As coisas mudaram muito, a internet trouxe outra relação com os idiomas.” 

A produção do álbum é compartilhada por Kassin e Adriano Cintra (ex-Cansei de Ser Sexy). Essa parceria resultou em um equilíbrio interessante de dois dos mais requisitados produtores da atualidade: de um lado, Kassin, que carrega consigo a experiência de ter trabalhado com diferentes nomes da música brasileira, de Caetano Veloso a Ana Carolina, passando por Nação Zumbi; de outro, toda a carga pop e certeira de Cintra. Nesse finalzinho de ano, Rock’n’ Roll Sugar Darling chega a tempo para entrar na lista dos melhores discos de 2014.

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