Thiago E. lança o disco 'Cabeça de Sol em Cima do Trem'

Novo álbum do cantor é zona fronteiriça entre poesia e música

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2014 | 09h30

Da terra de Torquato Neto, o Piauí, desembarcou a navilouca de um dos mais inquietos novos poetas da atualidade: Thiago E. Ele não trabalha com a ideia de limitação, de fronteiras: faz música que declama, faz poemas que canta, faz uma revista de literatura (Acrobata) e busca a interlocução com os artistas do seu tempo. Um belo dia, Thiago chegou a São Paulo e tocou a campainha da casa de Augusto de Campos, uma de suas influências. Algum tempo depois, saiu-se com um livro e esse CD de poemas musicados, ambos batizados de Cabeça de Sol em Cima do Trem (o disco tem música ambiente de Jan Pablo).

Fiel à ideia de transcriação, transposição, transfusão, Thiago acabou gestando uma das melhoras obras do pop nesse último ano. Professor de colégios públicos, produtor, performer, vocalista e compositor da banda Validuaté, também assume a persona de andarilho da poesia que pode ser encontrado em feiras literárias com um livro numa mão e um celular com bases musicais na outra - bases que solta para preencher os espaços entre seus versos.

Transmissões radiofônicas, discursos, ecos, um filme de Woody Allen: tudo é matéria-prima da música de Thiago E.  Há brutal lirismo, como em Sopro do Coração ("Esse coração agora/Se torna uma boca vermelha/Quer lamber o lado de fora/Quer fazer o que der na telha"). Há trocadilhos pop em profusão: "É o maiakóvski que mexe com a minha cabeça e me deixa assim"). Bases de guitarra e uma brisa de jazz: tudo pode emoldurar seus poemas.

No livro que é o espelho da literatura cantada de Thiago E., lançado pela editora Corsário, o autor trabalha um concretismo de suave leveza e notável presença de espírito: até com uma leve gagueira ele brinca, fazendo paralelos entre gagos célebres, como Winston Churchill e Machado de Assis, e sua própria sina. "Tem palavra/Que não passa/É um mistério/Lá do cérebro/Ou do peito".

Jorge Mautner tem um depoimento no disco. Ele conheceu Thiago quando foi, com Nelson Jacobina, fazer um show no Teatro Luso Africano, em Teresina. Thiago o levou para gravar em seu estúdio. "É impossível falar do Piauí sem a presença de Torquato Neto; no enorme turbilhão de criatividade da obra de Thiago se nota também a presença de Torquato e muito também a influência dos irmãos Campos", diz Mautner. "Mais ainda: reflete em sua sonoridade, sua poesia, sua interpretação, seu ativismo cultural, toda uma novidade do Brasil do século 21, e estão presentes também as muitas culturas do imenso Estado do Piauí, que inclui também uma imensa parte amazônica", afirmou o músico.

Já Arnaldo Antunes pirou. "Cabeça de Sol é muito bom! Fazia tempo que eu não curtia assim um trabalho de poesia. Palavra-lâmina afiada em voz. Sua leitura, clara e expressiva, junto aos variados experimentos sonoros do Jan Pablo, resulta em quase-canções, que vitalizam os já surpreendentes poemas. Foi uma descoberta rara, tem muito pouca gente explorando essa seara com tanta originalidade."

Assim como outros poetas dos novos tempos, como Ademir Assunção e Rodrigo Garcia Lopes, Thiago E. corre o Brasil com sua poesia embebida de música, mas, como Drummond e Borges, carrega seu fardo na seara da sobrevivência real. Na Teresina de calor saariano com vento zero, ele se investe do trampo burocrático e rala num escritório (presta serviços ao Ministério Público do Estado do Piauí). Com o grupo Academia Onírica, editou a revista AO (2010 a 2012). Edita a coluna Intacta Retina, no Jornal O Dia, aos domingos, publicando poesia, prosa, artes plásticas de diversos artistas, amigos e cúmplices.

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