Sergio Castro|Estadão
Sergio Castro|Estadão

Theodoro e Sebastião caem na estrada e fazem show com músicas do pai Nando Reis

2 Reis se apresentam gratuitamente no Sesc Bom Retiro nesta quarta-feira

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2016 | 05h00

Nando Reis abre o portão de sua casa, na zona oeste de São Paulo, e lança olhares desconfiados para a reportagem do Estado. “Hoje não é comigo. Vocês vieram falar com eles, né? Estou sabendo. Podem entrar, fiquem à vontade”, diz o músico. Theodoro, 30, e Sebastião, 21, logo aparecem para a entrevista. Ansiosos, driblam o nervosismo quando o assunto é música. Tião exibe o limpador de vinis. Desenvolto, fala sobre Pink Floyd e Janis Joplin. “É simples. Só colocar o disco aqui. Sai limpinho”, explica. Theo, mais comedido, esboça uma risada tímida. Os talentos da dupla se complementam. Theo, o mais velho, assume os vocais. Tião, o terceiro de um total de 5 filhos de Nando, dedilha o violão com precisão. Juntos, os irmãos montaram a banda 2 Reis. Neste projeto, que começou em 2013, eles caem na estrada tocando as composições de Nando.

Foram apresentações pequenas em cidades do interior de São Paulo. Algumas, inclusive, gratuitas. Eles também participaram do reality musical SuperStar, da Globo, e agora se preparam para fazer show no Sesc Bom Retiro nesta quarta-feira, 15, às 21h. “A gente sempre teve o hábito de tocar as canções do nosso pai. De vez em quando, fazíamos algumas participações com ele em duas ou três músicas. Um dia, estávamos indo para Santos e pensei, poxa, Tião, tem tanta coisa do papai que gostamos. Por que não montamos um projeto? Várias composições legais dele não entram no repertório final”, conta Theo.

Além dos hits e músicas nem tão conhecidas do público de Nando Reis, Theo e Tião tocarão suas próprias composições. Passageiro do Vento, Repartir e Abri as Portas, escritas pela dupla, são peças fundamentais do show. As três lembram bastante a maneira sutil de compor de Nando. Não se trata, todavia, de uma coincidência. O duo cresceu ouvindo o pai com o violão na sala de casa. Os primeiros acordes aprendidos no instrumento, inclusive, foram inspiração familiar. “Não tem como negar que tudo isso veio dele (Nando). A gente começou a tocar as músicas do papai desde muito cedo. Foi o começo de tudo. Não temos vergonha de dizer isso. O nome da banda, inclusive, surgiu para homenageá-lo”, diz Theo.

Apesar da idade, os meninos já possuem alguma bagagem. Theo tem uma trajetória interessante de 10 anos à frente do grupo de reggae Zafenate. Já Tião, fã do rock dos anos 1970, tocava violão na banda Elefantes. “O Theo investia em composições próprias e eu fazia cover de Led, Tim Maia e Novos Baianos. Quando as bandas se formaram, demorou muito tempo para que tocássemos alguma coisa do papai. Não era um tabu, mas o momento era outro. Queríamos ir a diante com nossas próprias pernas, sabe?”, afirma Tião. “Quando tocamos Marvin pela primeira vez no estúdio, foi demais. Gostamos muito do resultado”, complementa Tião.

A versão de Família, clássico dos Titãs, no programa SuperStar, da Globo, chamou a atenção do público. “Com uma roupagem mais moderna”, segundo Theo, o duo fez uma apresentação enérgica e contagiante. “Acho que todo mundo se surpreendeu um pouco com a escolha e ainda mais quando souberam que éramos filhos do Nando Reis. Houve alguns comentários, acho que o Paulo Ricardo percebeu e fez elogios”.

Os 2 Reis ainda não têm disco de estúdio. O primeiro trabalho da dupla foi um EP lançado em agosto do ano passado. O material trazia a compilação Passageiro do Vento, parceria de Theo com o cantor Marcelo Mira, e uma versão de E.C.T., canção de Nando, Marisa Monte e Carlinhos Brown que ficou famosa na voz de Cássia Eller. O trabalho está disponível nas plataformas digitais Spotify, Deezer, Itunes e Google Play. “Estamos aproveitando a oportunidade para fazer shows e criar uma casca. Em contrapartida, também trabalhamos num novo disco ainda sem data para ser lançado. A hora vai chegar. Há todo um processo”, afirma Theo.

Ao lado da voz de trovão de Cássia Eller, Nando Reis desenvolveu uma das parcerias mais marcantes da história recente da música popular brasileira. Apesar da proximidade entre os dois, tanto Theo quanto Tião não tiveram tanto contato com Cássia. “Eu percebi mais a presença dela durante os ensaios para a gravação do Acústico MTV Cássia Eller, em 2001, produzido pelo meu pai. Ela era uma pessoa muito tímida e fechada, porém muito educada. Com aquele vozeirão todo, assustava bastante quando ela abria a boca. A Cássia, que sempre foi uma inspiração para gente, se transformava quando subia ao palco”, lembra Theo.

Filhos seguem os passos dos pais e lançam carreira musical

Em abril deste ano, Chico Chico, filho da cantora Cássia Eller, morta em 2001, fez sua primeira apresentação em São Paulo, no Bourbon Street, em Moema, na zona sul da cidade. Ao lado do Matuano Trio, o cantor e compositor apresentou seu álbum de estreia, 2X0, lançado em 2015, com músicas autorais que transitam pelo rock, blues, folk e MPB.

O público presente se assustou com a voz do garoto. Cássia, de alguma forma, estava ali presente. A entonação, o jeito de cantar, a maneira de sorrir: tudo era muito parecido com a mãe. Apesar dos inúmeros pedidos, Chico não cantou nenhuma música interpretada por ela. Preferiu se prender ao repertório autoral: Caponav, Quanto Calor, Folhas da Praça Paris ou Nada Mais. Quem queria ouvir Chico cantar Cássia ficou apenas na vontade. “As pessoas criam isso (de não falar sobre o assunto). Mas está tranquilo. Agora, eu acho que (o fato de ter o sobrenome Eller) facilita alguma coisa. Eu não estaria falando com você. Uma pena, isso reflete algo que está errado na mídia”, disse em entrevista ao Estado naquela ocasião. Apesar do tabu, parece questão de tempo para que ele “ceda à pressão popular”. 

Desde que se lançou como cantora, em 2002, Maria Rita teve de lidar com as inúmeras comparações com a mãe, Elis Regina (1945-1982). Uma responsabilidade imensa já que ela é considerada uma das maiores intérpretes brasileiras. Em 2012, quase 10 anos depois, Maria Rita aceitou o desafio e lançou em CD e DVD o registro do show Redescobrir, em que ela - finalmente - canta o repertório da mãe, Elis.

 

Os primeiros cinco shows ocorreram dentro do projeto Nivea Viva Elis, que relembrou os 30 anos da morte da cantora, no começo daquele mesmo ano. O projeto, entretanto, virou uma turnê que percorreu o País ao longo do ano, mas a decisão de cantar as músicas de Elis Regina não veio de maneira fácil e, segundo Maria Rita, ela sentia uma “insegurança descabida” de revisitar a obra da mãe.

Já o filho caçula de Caetano Veloso, Tom Veloso, de 18 anos, é o principal compositor da banda Dônica. O estilo musical do grupo é o rock, mas tanto nas letras quanto nas melodias ficam claras as influências da música popular brasileira, como Lenine, Milton Nascimento e, obviamente, Caetano Veloso. “Eu mostro minhas composições. Ele (Caetano Veloso), no entanto, nunca dá palpite. Não mexe em nada, só diz se gostou ou se não gostou”, afirmou Tom, em uma entrevista. O jovem compositor, embora tenha uma proposta musical diferente da do pai, nunca descartou tocar suas composições.

REPERTÓRIO

Não Vou Me Adaptar

Por Onde Andei

De Janeiro a Janeiro

Marvin

Família

Dessa Vez

A Letra A

Abri as Portas

O Mundo é Bom, Sebastião

E.C.T.

Passageiro do Vento

Repartir

A Minha Gratidão

2 REIS

Sesc Bom Retiro. Alameda Nothmann, 185. Telefone: 3332-3600. 4ª, 15, 21h. Grátis

2 Reis - Não vou me adaptar 

2 Reis - De Janeiro a Janeiro

2 Reis - Repartir

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