The Who, a lenda, reaparece em Nova York

Eles fizeram parte nos anos 60 da agitação que derrubou o marasmo da capital inglesa e que rendeu à cidade o apelido de "Swinging London". Estiveram presentes nos maiores festivais de rock da época - Monterey, Woodstock, Ilha de Wight - e seu líder foi o responsável por uma guinada na forma de se fazer música pop com a criação da primeira ópera-rock do mundo, Tommy. Senhoras e senhores: The Who.O lendário e pouco creditado grupo londrino e seu mentor, o guitarrista, escritor, autor e diretor teatral Pete Townshend, 56 anos, nunca saem dos holofotes, apesar de não haver o histerismo que acompanha qualquer lançamento dos conterrâneos dos Beatles e seus muitos retornos serem chamados de oportunismo.No fim do mês passado, dois álbuns essenciais do grupo que unia o experimentalismo no estúdio a apresentações devastadoras no palco foram relançados nos Estados Unidos e Europa com faixas bônus. O ao vivo Live at Leeds, de 70, virou um duplo com um disco inteiro com músicas do álbum Tommy tocadas no show da Universidade de Leeds, e Who´s Next, de 71, veio com sete novas faixas como Water e I Don´t Even Know Myself. Ambos podem ser encontrados no site www.amazon.com, por, respectivamente, US$ 26,97 e US$ 13,99.A banda ainda irá participar no próximo dia 20, em Nova York, do show em benefício das famílias das vítimas do atentado ao World Trade Center. O evento é organizado pelo ex-beatle Paul McCartney. Townshend, no entanto, mantém reservas quanto à apresentação. "Sinto como se tivesse sido convocado a animar as tropas e perguntei se havia planos similares para beneficiar os refugiados afegãos que fogem da ofensiva americana", disse.Destruindo guitarras - Em entrevista feita por e-mail, Pete Townshend, que destruía guitarras e hoje é um respeitado e premiado autor teatral sediado em Londres, comenta seus projetos atuais - "escrever para teatro é o que mais me agrada hoje" - , a música, o The Who, e avisa aos fãs que, ao contrário de seu amigo Eric Clapton (que o livrou do vício das drogas e do álcool), não tem planos de shows na América do Sul.Continua se apresentando apenas na Europa e Estados Unidos e dando prosseguimento ao seu selo independente, o Eelpie, pelo qual lança material solo vendido no site www.petetownshend.com. Lá são vendidas faixas MP3 gravadas em estúdio ou ao vivo em shows pelo mundo. É o caso do antigo projeto Lifehouse, que se transformou em 71 no álbum Who´s Next, e que saiu este ano em quatro discos mais próximos da idéia original de Townshend. Cada um custa 15 libras."Não me incomodam as gravações não autorizadas e penso que a única forma de artistas terem total liberdade sobre sua obra é por meio dos selos independentes", afirma o guitarrista, que ainda estuda lançar em breve material do The Who por seu selo.O que o incomoda no show da próxima sexta-feira, em Nova York?Pete Townhsend - Farei o show, também já mandei um cheque. É que eu sou preguiçoso, preferia não trabalhar. Sou criativo, preferia ficar em casa e escrever novas coisas.Você acredita que a música tem o poder de inspirar as pessoas, mudar o mundo? Eu penso que ela é muito poderosa, mas no momento é apenas entretenimento. Não acho que o rock seja útil em tempos de guerra. Recentemente você respondeu a um artigo do jornal "The Observer", que dizia que aqueles que já têm mais de 50 anos deveriam largar o rock (um excerto do livro de John Strausbaugh, "Rock Til You Drop"). Isso não seria uma extensão da frase "espero morrer antes de ficar velho" (da música "My Generation")? Isso não é nada que já não tenha sido falado. Não fiquei ofendido com isso, mas com o termo "colostomy rock" usado no artigo. Meu pai morreu em 1988 com câncer no cólon e teve de usar uma bolsa de colostomia (que recebe os dejetos do intestino). Strausbaugh dá a entender no texto que o que a gente faz quando jovem se volta contra nós na velhice. Bem, se eu tiver que usar uma bolsa de colostomia, terei o maior orgulho em poder esvaziá-la na cabeça dele.O Who foi a primeira banda a usar sintetizadores em um álbum inteiro ("Who´s Next"). O que você pensa da atual tecnologia, como samplers, pro-tools e tudo mais? Eu amo tudo isso e uso de tudo. Mas continuo gostando de usar equipamentos analógicos também. Com todas essas máquinas, você acha que seria possível aparecer alguém que reinventasse um instrumento? Como Jimi Hendrix fez com a guitarra nos anos 60? Hah! Impossível. E do The Who? Os fãs podem esperar mais relançamentos de velhos álbuns com faixas bônus? Acho que não há mais coisas velhas deixadas. Mas vamos lançar alguns bootlegs (discos não oficiais). Eu acho... Há boatos sobre um novo disco do The Who, com inéditas... Eu nunca disse que estávamos planejando isso. Eu comentei que iríamos tentar fazer algumas canções, mas até agora não está funcionando muito bem. As diferenças com o vocalista Roger Daltrey parecem ter acabado. O The Who hoje é sua banda paralela? (o grupo costuma fazer apresentações de caridade tendo na bateria o filho de Ringo Starr, Zak Starkey). Não, no momento The Who está mais para história. Você já foi chamado de porta-voz de sua geração. Quando escreve as letras das músicas ou as peças de teatro você pensa em como isso vai atingir as pessoas? Eu não sou um porta-voz de uma geração. Eu falo apenas por aqueles poucos da minha geração que se identificam com o que eu escrevo. No teatro, além de montagens para os discos "Psychoderelict" (93) e "Quadrophenia" (73, esta última, assim como "Tommy", já apresentada na Broadway), há outros projetos? Eu estou trabalhando em um versão teatral de White City (documentário feito por ele nos anos 80 sobre o racismo no Inglaterra) e um importante versão-ópera para Iron Man (musical lançado em 89). Também estou ocupado com uma nova peça, que será autobiográfica. E, pela milionésima vez, quando e por que você começou a estraçalhar guitarras? Eu era um jovem estudante de arte, estudei seriamente até um certo nível. Eu não estava interessado em valores materiais ou de qualidade. Minha guitarra era uma ferramenta. Eu a destruía para mostrar que eu podia ficar livre de me afeiçoar a ela. Eu também a esmigalhava para mostrar que eu era um rebelde, sério e independente. Eric Burdon (ex-vocalista de outro importante grupo inglês, The Animals) disse que Jimi Hendrix fazia amor com sua guitarra enquanto eu estuprava a minha. Mas eu não a estuprei, eu a desmistifiquei.

Agencia Estado,

16 de outubro de 2001 | 10h30

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