Chris Pizzello/ Reuters
Chris Pizzello/ Reuters

‘The Vault’ de Prince revela um tesouro brilhante que é ‘Sign O' the Times’

Álbum, considerado uma obra-prima de Prince de 1987, foi relançado e vastamente expandido

Jon Pareles, The New York Times

29 de setembro de 2020 | 09h00

Sign O' the Times, obra-prima de Prince de 1987, vai do realismo sombrio ao amor verdadeiro, passando pela fé inabalável, pela comunhão extática e por baladas e prazeres carnais. Começa com o funk esguio e minimalista da faixa-título - cuja letra fala sobre aids, drogas e gangues - e atravessa R&B, jazz, rock, synth-pop, gospel e muito mais. A ambição do álbum se viu ampliada por seu humor, sua maestria casual, sua vontade de provocar e agradar, ignorando - e transcendendo - todos os limites. E Prince, como sempre, gravou muito mais material do que o LP duplo poderia conter.



Agora, Sign O' the Times foi relançado e vastamente expandido. A configuração Super Deluxe traz oito CDs e um DVD, aumentando o original remasterizado com seus singles e lados B; mais dois shows ao vivo de 1987 (áudio de um show num estádio na Holanda e o vídeo de um show da véspera de Ano Novo no complexo de estúdios Paisley Park, em Minnesota); e, o melhor de tudo, três CDs com material inédito do enorme arquivo de Prince, conhecido como The Vault. Algumas das faixas do Vault são versões anteriores ou alternativas de canções conhecidas, mas dezenas delas só foram reveladas recentemente. As escolhas de Prince para o álbum se sustentam. Mas é um prazer ouvir muito mais.

Sign O’ the Times não começou como um LP duplo. Prince tinha muita música saindo de dentro de si. Ele queria lançar um álbum triplo chamado Crystal Ball, que tinha evoluído de um álbum chamado Dream Factory. Mas a Warner Bros., sua gravadora na época, insistiu que ele cortasse o material. Prince cedeu, reduzindo a lista de faixas para 16 canções. Algumas das outras foram surgindo ao longo dos anos. Assim que Prince passou a controlar seu próprio selo, a própria Crystal Ball - uma suíte de 10 minutos ousada e mutante, que teria dominado todo um lado do LP - chegou em 1998 como a faixa-título para um conjunto de três CDs. A nova coleção traz uma versão editada para um possível single, arrancando de dentro da suíte uma música funk psicodélica e ainda bem estranha.

Em meados da década de 1980 - e para muito além - Prince era infatigável. De 1985 a 1987, ele não estava apenas compondo canções para seus próprios álbuns; também estava em turnê, planejando projetos de filmes, supervisionando a construção do Paisley Park e entregando material para músicos que admirava, como Miles Davis, Joni Mitchell e Bonnie Raitt. E estava também experimentando alter egos - entre eles, uma persona feminina, Camille, criada a partir de vocais agudos, para quem ele havia planejado um álbum inteiro.

Prince também estava lidando com duas separações. Ele dissolveu sua banda de longa data, The Revolution, em outubro de 1986. E encerrou seu noivado com Susannah Melvoin, embora sua canção de amor para ela, Forever in My Life, tenha continuado em Sign O’ the Times, mas recomposta para ficar mais austera e percussiva do que a versão meio country e dedilhada do Vault.

As canções recém-lançadas revelam quantos caminhos Prince estava testando antes de finalizar Sign O’ the Times e quantas músicas consistentes ainda não atendiam a seus altos padrões de qualidade antes de sua morte em 2016. Ele estava avançando mais para o jazz em instrumentais como It Ain’t Over Til the Fat Lady Sings e para o swing em All My Dreams. Estava também afirmando sua fé em Walkin’ in Glory, onde faz sozinho o canto e contracanto de uma celebração gospel. E mergulhando no pop neopsicodélico elaborado que havia apresentado em seu álbum anterior, Parade, em Adonis and Bathsheba e Big Tall Wall.

Prince estava se firmando mais uma vez num funk profundo como Soul Psychodelicide, uma música que ele subitamente trazia ao palco gritando “Sorvete!” (o novo álbum finalmente registrou uma versão de 12 minutos). E brincando com os samplers de instrumentos disponíveis em seu sintetizador Fairlight e com efeitos de estúdio: uma música, a estranha Nevaeh Ni Ecalp A, inverte os vocais de outra música do Vault, uma valsa excêntrica que ele retrabalhou repetidas vezes, A Place in Heaven. Além disso, Prince estava escrevendo músicas new wave animadas como Cosmic Day (para sua voz aguda de Camille), detonando na guitarra em Love and Sex e reconectando o soul ao hard rock em duas versões muito diferentes de Witness 4 the Prosecution. Enquanto isso, suas letras experimentavam perspectivas masculinas e femininas e trabalhavam com desilusão, solidão, luxúria, espiritualidade e euforia.


 


Sign O’ the Times teria sido muito diferente se Prince não tivesse dissolvido a banda Revolution e silenciado, minimizado ou arquivado a maioria de suas contribuições - embora um dos pontos altos do álbum original seja uma faixa ao vivo de Prince & the Revolution, It’s Gonna Be a Beautiful Night. O álbum poderia muito bem ter sido mais rebuscado e menos agressivo, mais comunitário e menos solitário.

A maior parte de Sign O’ the Times foi, como de costume, o trabalho de uma banda de estúdio que só tinha um único integrante: “composto, arranjado, produzido e executado por Prince”. Mas algumas faixas do Vault no álbum expandido iluminam como Prince ficara mais colaborativo com os membros da Revolution, particularmente Wendy Melvoin (irmã gêmea de Susannah) na guitarra e Lisa Coleman nos teclados, que depois iriam gravar juntas como Wendy & Lisa.

Prince construiu algumas faixas a partir dos instrumentais com toques de jazz da dupla, e em algumas versões alternativas de canções do Sign O’ the Times Prince entregou suas faixas a Wendy e Lisa para uma produção adicional. Um achado entre as canções do Vault - um caminho intrigante e não percorrido - é In a Large Room With No Light. Composta com música de Wendy & Lisa, dá uma sensação animada de big band latina, com um refrão alegre e melodias e harmonias ziguezagueantes, desmentidas pela letra de Prince, a qual detalha vidas sem saída e “situações que não estão certas’. Outra colaboração Melvoin-Coleman-Prince, Power Fantastic, dá um lampejo do trabalho de Prince. É a primeira execução de uma balada sinuosa que começa com Prince dando instruções aos músicos e apresenta uma performance ricamente introspectiva que não é de forma alguma hesitante.

Prince conseguia escrever e gravar todas as partes de uma música num só dia, e às vezes mais de uma música por dia. Ele ouvia cada parte instrumental na cabeça e as gravava o mais rápido que podia. Parecia ouvir também todos os pontos de vista: homens e mulheres, amantes e lutadores, pragmáticos e sonhadores, heróis e canalhas. A enorme lista de personagens mencionados no álbum original - a garçonete Dorothy Parker, as colegas de classe de Starfish and Coffee, a garota bonita e durona de U Got the Look - todas as pessoas desesperadas que aparecem em Sign O’ the Times ganham novas companhias nas canções do Vault. Apesar de todo o tempo que Prince passou isolado fazendo música, ele nunca deixou de incluir a vida das outras pessoas.

E sempre entendeu a força do som puro, da melodia, da batida e da voz. Uma música que ele mandou para o Vault foi Blanche, talvez porque era um conceito muito leve, talvez porque Sign O’ The Times já trazia Housequake, outro hit de balada.

Blanche é um vamp funk que remete diretamente a James Brown, embora deslize caprichosamente para cima e para baixo na escala cromática. Interpretada inteiramente por Prince, é uma série de grunhidos e gemidos cantados por Stanley - o Stanley Kowalski de Um Bonde Chamado Desejo de Tennessee Williams - para uma Blanche esquiva e fugidia: “Blanche, você sabe que não viu nada / até dar uma volta comigo”. Era o tipo de coisa que Prince podia fazer sem pensar duas vezes só para depois esconder no seu Vault. Agora que está aí para todo mundo ouvir, vai ser difícil não dançar.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.