The Mendonza Line, a boa surpresa

Já a partir de seu nome o grupo The Mendoza Line se apresenta como um projeto americano. Embora, para nós, Mendoza apareça primeiro como um sobrenome latino, para eles lá em riba evoca imediatamente um jogador de beisebol, Mario Mendoza. O ex-jogador de Pittsburgh Pirates, Seattle Mariners e Texas Rangers, ativo na Major League entre 1974 e 1982, tem a duvidosa honraria de inspirar a expressão ?a linha de Mendoza?.Sua medíocre média de .215 rebatidas por temporada é considerada, pelos analistas daquele folguedo infantil com regras inventadas por Einstein, como a linha que separa os aptos dos inaptos a jogar no equivalente à primeira divisão do esporte mais popular dos EUA. The Mendoza Line, portanto, é uma espécie de marco divisório entre o sucesso e o fracasso. Um grupo que escolhe este nome tem, no mínimo, um grande senso de humor.The Mendoza Line tem também grande música a apresentar aos brasileiros no seu primeiro lançamento nacional, Fortune (Sum Records). Coerente com o nome da banda, essa grande música é visceralmente americana, rock?n?roll com forte influência da country music, e traz letras preocupadas tanto com carrões quanto com o lugar do seu país no mundo. Um grata surpresa num fim de ano de tantas cartas marcadas, não é, Bono?A banda se formou no ano de 1996 em Athens, sim, aquela cidade universitária da Geórgia que já deu ao mundo o R.E.M. e os B-52?s, louvada seja. No início, o que equivale a dois CDs e um EP gravados meio na brincadeira, os cabeças eram Timothy Bracy e Peter Hoffman, cantores, guitarristas e amigos desde a infância, na Virgínia. Entre outros, eles logo recrutaram o baixista Paul Deppler. Dois anos depois, juntou seus trapinhos à trupe a cantora Shannon Mary McArdle, fã de country que, paradoxo, arrastou o povo para o Brooklyn, em Nova York. Hoje, quatro CDs depois, o Mendoza Line tem os supracitados mais Sean Fogarty (bateria) e John Troutman (guitarra-solo e pedal steel).Até este parágrafo evitou-se dizer que o sexteto Mendoza Line faz ?rock alternativo?. Primeiro, pela absoluta imprecisão do termo. Segundo, porque, apesar dessa imprecisão, ele evoca imediatamente um determinado som, no qual, talvez, os Pixies sejam a referência absoluta. Pois a banda faz rock alternativo - mas suas referências são bem diversas. No seu site www.mendozaline.com, Fortune é comparado, sem nenhuma modéstia, a Infidels (de Bob Dylan), Armed Forces (de Elvis Costello) e Squeezing out Sparks (de Graham Parker). Ouvindo a primeira faixa, Fellow Travelers, pensei, por exemplo, em Thalia Zedek (a vocalista do Come) à frente dos Heartbreakers de Tom Petty.Talvez tenha sido toda essa americanidade, presente mesmo nos ingleses Costello e Parker, que gerou um fenômeno curioso mas não inédito: os CDs do Mendoza Line saem primeiro na Grã-Bretanha e só depois nos EUA. Talvez do outro lado do Atlântico Norte é que se possa melhor apreciar a especificidade e a beleza do rock feito com a língua dando voltas no céu da boca. Talvez o mercado mundial já esteja saturado de bandas buscando em vão uma universalidade abstrata. Talvez ninguém mais agüente um bando de mauricinhos branquelos de Beverly Hills posando de gângsteres negros de South LA.O Mendoza Line não tenta se passar pelo que não é. E sua busca pela universalidade passa pela elaboração de uma música firmemente enraizada nos EUA e pela interrogação angustiada sobre o mundo que os cerca. Nesse sentido, a letra de Faithful Brother (Scourge of the Land) é exemplar: ?E agora meu lar é uma ilha/ E o mundo é um mar bêbado e selvagem/ Ele me separa de você e me cerca quando durmo.? Na verdade, todo Fortune é definido pela banda como uma série de narrativas sobre americanos viajando ao exterior e imigrantes recém-chegados à sua América. Ah, no site, o CD ainda é comparado a ?música folk análoga aos romances expatriados de Ernest Hemingway no final dos anos 20?...Estranheza e pretensão felizmente nunca vazam para as melodias. Elas parecem ter estado ali desde que o Liberty Bell badalou na Filadélfia. O fato de o grupo ter vocalistas homens e vocalista mulher se alternando a cada faixa no microfone principal dá ao CD uma dinâmica especial, que, bem como a rica instrumentação, lembra um pouco um grupo não-americano, o escocês Belle and Sebastian. Quando Shannon interpreta uma It?s A Long Line (But Moves Quickily), linda e sutilmente feminista, logo vem um dos rapazes para cantar a suave balada "Let´s not talk about it" ou a dylanesca "An architect´s eye". Assim sendo, o álbum Fortune está bem acima da própria linha de Mendoza.

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