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The Cookers estreia no País no festival brasiljazzfest

Saxofonista Billy Harper falou ao 'Estado' por telefone

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

25 Março 2015 | 03h00

É mais ou menos como se fosse a Velha Guarda da Portela do jazz. O supergrupo The Cookers, junto, soma mais de três séculos de jazz em cena e cerca de mil discos gravados. Juntam uma certa fúria do hard bop com a nostalgia e a leveza do swing, mas também estão umbilicalmente conectados ao nervosismo do pós-bop. São cinco notáveis que alistaram em seu time o reforço de “garotos”, como o trompetista Daniel Weiss, de 50 anos. Não estão na estrada para lustrar o prestígio das velhas composições: tocam principalmente músicas originais, registradas em disco como o recente Time and Time Again (2014). Desembarcam esta semana pela primeira vez juntos no Brasil, para um show no brasiljazzfest, no Auditório Ibirapuera. O saxofonista Billy Harper (talvez o músico vivo mais elegante do jazz, ao lado de James Carter), de 72 anos, tocou com Lee Morgan, Gil Evans, Art Blakey. O músico, que esteve em São Paulo com seu quinteto há três anos, falou ao Estado por telefone.

Vocês são um time de veteranos que acompanharam Miles, Art Blakey, Dinah. Como é quando vocês tocam com jovens?

Não é um problema, de jeito nenhum. Eu acho que os caras mais jovens aprendem muito com os mais velhos. O meu grupo vem tocando junto por anos. Em algumas situações, tocamos juntos em outras formações, como eu e Eddie Henderson, que estivemos juntos durante 8 anos. E Billy Hart também. E George Cables estava no meu primeiro disco. Crescemos juntos. Quando nos encontramos, já somos íntimos.

 

Vocês também parecem preferir tocar suas composições originais do que os velhos standards do jazz, não?

Sim. Muitos caras ouvem as canções novas e sentem que elas são tão fortes que acreditam que são standards. E são. Porque nós as interpretamos assim. A canção Sir Galahad, por exemplo. Acho que esse sabor de clássico vem naturalmente, ele se espalha com um certo tipo de espírito, de movimento, certo tipo de força. Esse é o meu foco, fazer com que tudo venha naturalmente.

O sr. tem uma elegância muito característica no palco. Parece um rock star. É algo que o sr. ensaia ou é natural?

(Risos) Não tenho nada a ver com um rock star. Eu, na verdade, acho que a música é expressiva em si mesma. Acredito que ela me faz sentir melhor. Quando eu toco a música e sinto a sua expressividade, eu me torno parte dela. Talvez seja isso que você chame de elegância, a sintonia com a expressividade da música. Pode ser que eu também, conscientemente, me prepare para aquilo que vou interpretar no palco, trabalhe minha aparência de algum modo.

Estamos vivendo um momento delicado para o mundo, muita crise financeira. O jazz experimentou uma de suas fases de ouro na Grande Depressão americana. Como avalia a presença do jazz no atual momento?

O artista tem que ter habilidade para sobreviver aos tempos. Os tempos, muitas vezes, podem ser muito ruins ou muito favoráveis, mas o artista tem que focar na música, na sua arte, seja qual for o ambiente. Nós somos afetados pelo que acontece ao redor, mas a música é constante. Ela não se detém frente às dificuldades. E esse deve ser o foco. Quando jornalistas ao redor do mundo, e especialmente nos Estados Unidos, escrevem que o jazz está morto, é somente mais uma tentativa de matá-lo. O jazz vive para sempre, é a música da respiração, é vida para alguns artistas, como eu mesmo.

Ouvindo sua música, parece um tipo moderno de hard bop. Como o sr. a definiria?

Não sei, esse é um termo OK. A música está sendo sempre rotulada. É algo que as pessoas têm necessidade. Eu prefiro vê-la como uma música em crescimento, com ênfase no legado afro-americano. Às vezes, é uma continuação do bop, às vezes é a continuação de outras coisas que nunca fizemos antes. Há uma corrente. Mas tem diferentes direções e sabores. Mesmo a música de artistas que vieram antes da gente, a música que eles tocaram, como o bebop, evoluiu da era do swing, e Dizzy Gillespie e Charlie Parker criaram uma coisa nova a partir dali, um jeito específico de tocar. E nós, agora, talvez estejamos criando uma nova extensão daquilo.

O sr. esteve nos Jazz Messengers de Art Blakey. Como era integrar um grupo de metais que tocava com um baterista à frente do conjunto?

Bem, Art Blakey foi um indivíduo fantástico. Ele era um grande personagem, e sua música muito inventiva. Ele dava a direção para o grupo, e foi um visionário. E o estilo dele foi chamado de hard bop. Mas ele tinha um jeito pesado de tocar, um hard pushing, e se tornou parte do que era Nova York naquela época. Essa comunhão entre cenário e personalidade foi exemplar, um marco.

Como aprender a essência do jazz? O que o sr. responderia para as novas gerações?

Eu diria que a coisa mais importante é aprender a respeito da História. E manter a si mesmos conectados com os propósitos da música. Há a parte do dinheiro, mas a música não é isso, a música é a própria vida.

OS NOTÁVEIS

Cecil McBee

Trompetista de 79 anos, tocou com Dinah Washington, Wayne Shorter e Miles Davis

Bennie Maupin

Saxofonista e flautista de 74 anos que gravou o lendário Bitches Brew, de 1969, com Miles

Charles Tolliver

Trompetista de 74 anos que acompanhou Jackie McLean

Donald Brown

Pianista, 61 anos, também foi dos Jazz Messengers de Art Blakey

Ralph Peterson Jr.

Baterista, 53 anos, acompanhou de Betty Carter a Charles Lloyd.

Daniel Weiss

Trompetista, 50 anos, acompanhou Abbey Lincoln, Freddie Hubbard, Christian McBride

BRASILJAZZFEST

Auditório Ibirapuera. Av. Pedro Alvares Cabral, s/nº, Parque do Ibirapuera, 3629-1075. 6ª e sáb., 21 h; dom., 11 h. R$ 20 (domingo, 11h, plateia grátis). 

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