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The Bad Plus traz seu jazz de sangue quente

Trio de Minneapolis, conhecido por rever clássicos do rock em linguagem cool, faz show hoje, no Bourbon Street

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2014 | 18h26

Antes que a ideia de ‘trio de jazz que faz cover de rock’ distorcesse sua trajetória e engolisse suas próprias personalidades, os três músicos do The Bad Plus retomaram o caminho das obras autorais. O álbum que deve sair até o final do ano, assim como Made Possible, de 2012, não trará Nirvana, ABBA, Black Sabbath, Bjork, Led Zeppelin, Pixies, Aphex Twin, David Bowie, Pink Floyd, Wilco ou Flaming Lips. Os espíritos que os levaram a romper a fronteira no início dos anos 2000, gravando toda esta gente com a linguagem da vanguarda em estado bruto (piano, baixo acústico e bateria), ainda rondam suas casas, mas não possuem mais suas cabeças como nos velhos tempos.

Analisando um pouco mais de perto o barulho que o jornal The New York Times fez quando ouviu discos como For All I Care, de 2008, descobre-se que tudo o que soa de melhor resulta de uma execução aparentemente simples. De tradicional, o Bad Plus tem o fato de surgir em trio clássico, a redução mais aceitável do jazz, e de ter as teclas de seu piano guardadas por Ethan Iverson, a resistência erudita da turma. De ousado, há todo o resto. O baixista Reid Anderson e o baterista David King defendem uma postura rock and roll sobretudo pós-anos 90, com uma dinâmica de calmarias e explosões, limpeza e catarse, mas jamais com solos de longa duração. Assim que um tema começa, algo acontece e esses dois mundos se encontram para criar uma terceira dimensão.

Um pouco de seus cinco discos anteriores, lançados desde 2003, mais os temas recentes de Made Possible, serão mostrados hoje, em apresentação no Bourbon Street. Ainda que não seja mais o foco, alguns dos covers que os tornaram sensação, como We Are the Champions, do Queen; Tom Sawyer, do Rush; ou Comfortably Numb, do Pink Floyd, estarão lá. Só não se sabe quais.

Se colocassem sua trajetória no papel, os músicos deveriam reconhecer que também são frutos de estratégia. O impacto de uma Tom Sawyer, quando bem-sucedida, é avassalador a qualquer forma de vida artística. E então, quando a prática se torna frequente, com Smells Like Teen Spirit (Nirvana), Karma Police (Radiohead) e Everybody Wants to Rule the World (Tears for Fears), que venham os jovens de ouvidos grudados na parede do estúdio durante a gravação do próximo disco.

O baixista Reid Anderson, claro, não concorda com o termo estratégia. “Eu não sei se poderíamos chamar assim. Acho que o que fazemos é conectar nossas experiências com a linguagem do jazz. E foi tudo muito natural para nós desde que criamos o grupo.”

A saudável atitude pula-cerca, que ganhou nos anos 90 o nome de “crossover” pelos próprios músicos eruditos e do jazz que colhiam temas pop em um quintal que muitos de seus amigos não ousavam pisar é outra prática, para Reid, não intencional. “As pessoas estão se sentindo mais livres para fazer música. Creio que há alguns anos não havia esta liberdade.”

O Bad Plus deixou suas casas em Minneapolis para vir ao Brasil por “cinco ou seis vezes”, pelas contas de Reid. Em nenhuma delas, ele diz, o grupo conseguiu fazer conexões com músicos brasileiros. As plateias, no entanto, sentiram sua força. “Sinto que elas reconhecem os temas quando tocamos. O lado bom de quando trabalhamos com os covers foi o fato de tocarmos músicas que sempre pareciam familiares a alguém.”

Ao recolocar os temas autorais na mira, e Made Possible é um exemplar legítimo do quão mais interessantes eles são quando provocam surpresas com as próprias ideias, o Bad Plus se reapresenta como um dos grandes trios de jazz moderno (e não mais como um trio de jazz que faz cover de rock). Nada contra a prática, mas ela deixava em segundo plano o que sempre deveria estar em primeiro: o jazz de sangue quente produzido por um trio fenomenal. 

THE BAD PLUS

Bourbon Street Music Club. Rua dos Chanés, 127,

Indianópolis, telefone 5095-6100.

Hoje, às 21h30. R$ 95. 

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