The Bad Plus, que vem para o TIM Festival, fala ao Estado

Um dos mais desafiadores trios de jazz acústico da atualidade, The Bad Plus, é um dos nomes confirmados para o próximo TIM Festival. Eles tocam no TIM Lab, na Marina da Glória, no dia 29 de outubro.São ousados. Gravaram "Smells like Teen Spirit", do Nirvana, improvisando no palco, e "Heart of Glass", do Blondie. Seu disco mais recente foi produzido por Tchad Blake, mais conhecido por seu trabalho com o rock.Assim, acabaram escandalizando críticos mais conservadores e os puristas de nariz empinado. Doug Rampsey, escrevendo para a revista JazzTimes, observou que, no Portland Jazz Festival do ano passado, o Bad Plus foi anunciado pelo organizador da mostra, Bill Royson, da seguinte forma: "Isto é a esperança e o futuro da nossa música." Ao que o crítico retrucou: "Se ele estiver certo, o futuro vai ser entretenimento, vai ser tortuoso e muito barulhento."Mas nem todos são obtusos ao julgar a novidade. "A bateria soa como a cozinha de Bjõrk, as linhas de baixo sugerem a voz soprano de Robert Plant, e o piano acentua o caos, como uma textura sinfônica de A Sagração da Primavera", escreveu outro crítico.The Bad Plus é formado por Reid Anderson (baixo), Ethan Iverson (piano) e David Kling (bateria), e são considerados os novos "punks" do jazz. Nos últimos três anos, tornaram-se um verdadeiro fenômeno nos Estados Unidos, mas já vieram ao Brasil antes da febre: em 2003, tocaram em Ouro Preto, Minas Gerais. Na sexta-feira, o baixista Reid Anderson falou ao Estado por telefone, de Nova York, Estados Unidos.Vocês tocaram em Ouro Preto, Minas, há três anos. O que você lembra desse show?Lembro que era um lugar muito bonito, uma platéia vibrante. E que foi uma viagem muito longa e cansativa, já que só ficamos dois dias. Viajamos mais de 20 horas para tocar uma hora. Gostei muito de Hermeto Pascoal. Não sou um conhecedor de música brasileira, mas é claro que já ouvi Jobim.Vocês hoje estão na vanguarda do jazz, como o trio Medeski, Martin & Wood. Você vê alguma semelhança entre vocês e eles?A similaridade é que também somos uma banda, também somos três tocando, também buscamos a energia de um trio tocando. Nada mais.Muitos críticos dizem que vocês lembram muito a banda sueca E.S.T. Você concorda?Sim, é verdade, tem muito a ver. É a mesma instrumentalização, eles também têm influência da música pop, buscam trazer músicas do pop para outro tipo de platéia, revestir isso com outra roupagem.Qual é sua ambição quando gravam algo como Smells like Teen Spirit, do Nirvana?Bom, essa é a música que crescemos ouvindo, a música que gostamos, que nos desafia desde a adolescência. Como artistas, nos sentimos desafiados a transportar essa música para o nosso jeito de tocar, nossos instrumentos.E quanto ao jazz tradicional? Não foi uma influência nas suas carreiras?Sim, tanto um quanto o outro são influências. Ouvimos o jazz tradicional, o avant-garde, o rock, a música clássica. Mas, quando garoto, eu ouvia muito mais o rock.O que você acha do pianista Brad Mehldau?Brad é um gênio. Todos na banda somos grandes fãs dele.Quando Brad toca Radiohead, por exemplo, a música acaba soando como se fosse uma outra coisa, uma peça completamente diferente. É essa também sua intenção?Quando você pega uma música pop para interpretar, o que tenta fazer é torná-la sua, como se fosse algo que você mesmo tivesse feito. Essa é a intenção.O último disco que ouvi de vocês por aqui é "Suspicious Activity?" (lançado pela Sony em setembro de 2005). Há algo novo a caminho?Sim, vamos entrar em estúdio em setembro para gravar em Minnesota. Já temos várias novas composições, e deveremos tocar muitas delas nos shows no Brasil.O título "Suspicious Activity?" soa muito apropriado nos dias de hoje, com toda essa confusão de terrorismo na Inglaterra e nos Estados Unidos. Há de fato alguma conexão?Sim, é uma referência a isso. É triste esse tipo de coisa que está acontecendo no mundo. Acho que é uma coisa perigosa quando se radicalizam tanto o terrorismo quanto o medo. Daí o título Atividade Suspeita?. O que é suspeito, no final das contas? É melhor manter a confiança da população informando, não escondendo. Cria-se um clima meio McCarthy, que foi um capítulo triste da nossa história nos Estados Unidos.Como baixista, quem foi sua influência? Alguém como Jaco Pastorius?Na verdade, me sinto mais influenciado por Charlie Haden. E por Jimmy Garrison, que tocou com John Coltrane. Esses dois foram mais importantes.E quanto aos baixistas do rock e do pop? Não gosta do Flea, do Red Hot Chili Peppers?Sim, gosto. Mas não ouço muito essas bandas. Há muitos instrumentistas bons no rock e no pop. Eu, particularmente, gosto de ouvir Radiohead, Bjõrk, Interpol.O improviso é importante na música de vocês?Sim, muito importante. Nós somos improvisadores.E como você define o improviso na música?Trata-se de reagir ao momento. Improvisação melódica, harmônica é a coisa mais importante, porque implica você ser hábil para viver o momento. Que é algo que está sempre mudando, como a vida.

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