Termina a nona edição do Percpan

Uma cena difícil de ser imaginada: numa sexta-feira, início de noite de Lua cheia, na praça do Campo Grande, em frente do Teatro Castro Alves, rapazes tocam tambores. Ouvindo-os, em semicírculo, cerca de 200 pessoas. Ouvindo-os. Ninguém dança, nem sequer mexe o corpo. Apenas ouve. Como, na Bahia, alguém toca tambor e o espectador não dança? Eles, que tocam, são músicos do grupo francês Les Tambours du Bronx. Haviam tocado, na véspera, na noite de abertura da nona edição do Panorama Percussivo Mundial, PercPan, no palco do teatro em frente. Planejavam, para o dia seguinte, destruir - o verbo é deles - os tambores, na praça.Os tambores são galões de óleo, pintados de preto. Os rapazes vestem roupas pretas, tatuam os corpos e têm dentes ruins. Eles sãos feios, sujos e malvados. Fazem música pavorosa - a trilha sonora do fim do mundo, na visão deles mesmos e pelo que fica no auditório. São marciais. Marcam o ritmo quaternário sem acentos, perspectiva monocórdia da expressão de galanteio - o ritmo é galanteio. Eles não são galantes. Não estão ali para agradar, mas para ofender. São de extrema direita - Gilberto Gil os saudou lembrando a ascese do extremo-direitista Le Pen ao segundo turno das eleições presidenciais francesas.Os 18 integrantes do Les Tambour du Bronx não cantam: grunhem, urram sílabas desarticuladas. Para eles, esgotou-se a capacidade humana de contato verbal, de qualquer sintaxe. Estão no pós-apocalipse. A música que fazem é o som da caverna habitada pelo bicho-homem depois que as cidades foram destruídas.Os Tambours fugiram de uma história em quadrinhos vagabunda para o palco do festival. É assustador, mas eles estão lá para louvar a intolerância. Morram os árabes, os judeus, os negros, os índios - e também as mulheres, as crianças, quem e o que acene com a possibilidade do amanhã.O PercPan foi de quinta a sábado. Les Tambour de Bronx fecharam a primeira noite. Na abertura, também tocando em tambores de óleo, mas pintados de cores vivas, os meninos e meninas da banda baiana Sucatamania expressaram uma outra visão de mundo. Vindos de Alagados, periferia miserável de Salvador, fizeram música que louvava a vida, canto de esperança. Não eram bons espetáculos, o da Sucatamania e o dos franceses. Mas a primeira noite do PercPan 2002 ofereceu o curioso confronto de visões pré e pós-utópica, terceiro e primeiro mundos, uma narrativa política talvez involuntária mas contundente.Entre o grupo baiano e o francês, a noite ofereceu a oportunidade de se ouvir um extrato da bateria da escola de samba Mangueira, acompanhando o compositor carioca Moska, e a cantora siberiana Sainkho Namtschylak (que é a atriz principal de Derzu Uzala). Ela foi a grande atração, uma curiosa figura de idade indefinida e voz capaz de emular as mais terríveis ameaças do gelo ou o mais doce dos cantos ancestrais de fazer dormir.A nona edição do PercPan foi montada em 15 dias. No ano passado, o festival correu o risco de não ser realizado. Perdeu patrocínio baiano, conseguiu apoio financeiro no Recife e mudou de praça. Voltou, meio apressado, neste ano, ao palco natal. Parece que fica. A produção promete, para o ano que vem, uma edição comemorativa dos dez anos do festival, reunindo em cena algumas das atrações interessantes desse tempo.Promete, também, uma nova ida ao Recife, pretendida para novembro, festa ao ar livre com atrações bem populares. O PercPan é um festival de tambores, encontro de sotaques percussivos internacionais. Leva à cena de expressões ainda tribais aos eletroacústicos contemporâneos. A direção artística é de Gilberto Gil e de Marcos Suzano. O percussionista carioca Suzano ocupa a posição no lugar do pernambucano Naná Vasconcelos, que trabalhou no evento desde sua criação, em 1994, até o ano 2000.Na sexta-feira, o PercPan mostrou o grupo baiano Hip Hop Hoots (assim mesmo, com h), o percussionista eletroacústico italiano Aldo Brizi (que teve como convidado o compositor Arnaldo Antunes, responsável pelo momento mais bonito da noite, quando cantou, acompanhado pelas palmas do grupo do italiano a música que dá título a seu disco mais recente, Paradeiro) e a carioca Fernanda Abreu, num set eletrônico especialmente mostrado para a noite.Atração programada para a sexta, os percussionistas - que também usam tambores de óleo de Trinidad e Tobago do Renegades Steel Orchestra não puderam fazer sua apresentação. A sempre eficiente Alfândega prendeu seus perigosos instrumentos. A Renegades Steel Orchestra apresentou-se no sábado, quando todas as atrações anteriores voltaram à cena para a confraternização dos tambores. Não foi uma grande edição do festival, mas foi, pelo contraste da desesperança daqueles pobres franceses fascistas com as outras vozes que se fizeram ouvir, uma das mais curiosas, um didatismo que incomodou tanto quanto foi instrutivo.O repórter viajou a convite do festival

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