FERNANDA YOUNG / DIVULGAÇÃO
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Teresa Cristina estreia show cantando Noel Rosa

Cantora gravou clássicos como 'Feitio de oração' e 'O x do problema' para a gravação de 'Batuque É Um Privilégio'

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

21 Março 2018 | 10h39

RIO — A Lapa uniu Noel Rosa e Teresa Cristina. Vinte anos atrás, ainda com os olhos fechados pela timidez, a cantora se iniciava profissionalmente nas casas da área boêmia do centro do Rio já com o compositor de Vila Isabel como nome certo de seu repertório. Era um modo infalível de agradar um público que voltava a ocupar as ruas da região, cujos cabarés foram frequentados pelo sambista fundamental nos anos 1930. 

“É um dos compositores mais cariocas que eu conheço, quem não sabe cantarolar? Todo mundo tem a sua playlist de Noel. Agora estou mostrando a minha”, conta Teresa, que lança Batuque é um privilégio com show nesta quarta-feira, 21, e quinta-feira, 22, no Teatro Net Rio (ingressos esgotados) – no dia 28, ela se apresenta no Teatro Iguatemi Campinas, e no dia 29, no Net São Paulo, para depois viajar para o Sul e o Nordeste.

“Amor lá no morro é amor pra chuchu”, Noel ensinou em Não tem tradução, e Teresa escolheu abrir o CD com Feitio de oração, a conhecida carta de intenções que ensina que “o samba não vem do morro nem lá da cidade”. O x do problema, que ela ouviu primeiro na voz de Maria Bethânia, está entre suas preferidas. Filosofia, aprendeu com a gravação de Chico Buarque

Positivismo a cantora acha “a cara de Noel”. Minha viola traz dueto com Mosquito. Onde está a honestidade? cabe em qualquer momento da história do Brasil, Teresa aponta. “É engraçado quando ele diz ‘o seu dinheiro nasce de repente’. Lembrei do crescimento do patrimônio do (senador) Aécio (Neves), que triplicou”, brinca. “É incrível como Noel fez esses versos há 80, 90 anos. O Brasil que o Noel abominava está aí, o país dos hipócritas, do desamor.”

Teresa canta com graça as cômicas Gago apaixonado, Seja breve e Conversa de botequim. A voz serena comove em Pela décima vez, Deixa de ser convencida, Quando o samba acabar e Silêncio de um minuto – esta última, Caetano Veloso cantou semana passada em homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL), no dia seguinte à sua execução (crime que também devastou Teresa e a população do Rio). “Não te vejo e não te escuto/O meu samba está de luto/Eu peço o silêncio de um minuto”, a letra chora.

A intérprete está novamente acompanhada do violão de Carlinhos Sete Cordas, com quem montara uma antologia de Cartola entre 2015 e 2016. Ladeada também por Caetano, que mesclou suas músicas e as do poeta da Mangueira, o espetáculo, tão singelo quanto emocionante, rodou o Brasil e o mundo (América Latina, Estados Unidos, Europa, Ásia). 

Caetano assina a direção musical do novo trabalho, que ele apresenta como “um grande acontecimento na trajetória do samba”. “Ambos (Noel e Teresa) saem enriquecidos, e a consciência sobre eles se alarga”, escreveu o baiano, concluindo que “ouvir Noel na voz de Teresa sobre os arpejos de Carlinhos é ir fundo na experiência da nossa formação”.

Teresa lembra que “na metade da turnê do Cartola já estava paquerando Noel”. Ela ainda terminará a trilogia de pilares do samba. “Sempre cantei mais samba de terreiro, mas acho que já temos intimidade. Noel é o compositor da rima rica, da música bem feita. Um cara branco, de classe média, e que fez tudo o que fez. O lugar de fala do Noel não é nem o morro nem a cidade, é o samba. Isso ninguém tira dele.”

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