Teresa Cristina canta a obra de Paulinho da Viola

Teresa Cristina e o Grupo Sementelançam amanhã, com show marcado para 20h30, no CentroCultural Carioca (Rua do Teatro, 37, centro), o CD duplo AMúsica de Paulinho da Viola, editado pela gravadoraindependente Deckdisc. No total, 28 músicas, duas das quais nãosão de Paulinho, mas, uma vez gravadas por ele, parecem serdele: Meu Mundo É Assim (aquela do "Eu sou assim/ Quemquiser gostar de mim/ Eu sou assim"), de José Batista e WilsonBatista, e Sentimento ("... no meu peito eu tenho demais"), de Miginha.Curiosamente, não há muitos discos dedicados à obradesse que é considerado um dos maiores compositores brasileirosde todos os tempos. No início do ano passado, os cantores Céliae Zé Luiz Mazziotti lançaram Pra Fugir da Saudade (JamMusic), só com músicas de Paulinho, e um outro, instrumental, dogrupo Galo Preto - talvez seja os únicos, antes deste de TeresaCristina e sua turma. E não há notícias de um songbook Paulinhoda Viola em execução.Portelense com nome de imperatriz, vascaína como seuhomenageado (e como foi Paulo da Portela, fundador da escola desamba), Teresa Cristina está na linha de frente do renascimentodo bom samba carioca. Se cabe a palavra renascimento. O bomsamba não andou definhando - apenas ficou escondido, por trás dopagode brega industrial que fez a triste trilha sonora dos anos90.Mas há um renascimento efetivo, e também dele está àfrente Teresa Cristina: o da Lapa de espírito boêmio, bonsbotequins que todos podem freqüentar, bom samba e bom choro nospalcos pequenos, quase improvisados - movimento que atraimilhares de interessados, de segunda a segunda, noite emadrugada, educando novos ouvidos e dando chance ao surgimentode novos talentos.Ligada ao samba desde sempre, Teresa Cristina tinhapouca experiência de palco quando começou a cantar no barSemente, no coração da Lapa, perto dos Arcos - o grupo queformou tomou de empréstimo o emblemático nome do bar. Meio deimproviso, há pouco mais de quatro anos, Teresa Cristina e oGrupo Semente foram substituir uma atração que cancelou apresença na última hora.De forma muito rápida, o Semente tornou-se o pontomáximo de referência e qualidade do (re)insurgente samba daLapa. Outras casas abriram portas, nas pegadas do sucesso doSemente; outros grupos foram criados, novos ouvintes atraídos,compositores jovens ganharam microfones para mostrar a criação.Teresa Cristina tem 34 anos (não custa lembrar: nummercado fonográfico torto e cruel como é o nosso, os novosvalores, de Chico César a Lenine e Mônica Salmaso, conseguemaparecer, furando o bloqueio dos modismos, depois dos 30). Éestudante de Letras, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.Antes, foi manicure, auxiliar de escritório, vendedora.Trabalhou na vistoria do Detran e, nos primeiros momentos davida universitária, criou uma rádio-pirata para tocar só músicabrasileira.Chegou aos palcos madura, sabendo o que queria (e, muitotímida, uma vez que a luz bate nela, vira rainha). Suasapresentações atraíram, além de novos, velhos sambistas. TeresaCristina tornou-se uma espécie de ícone desse tal ressurgimentodo samba. Merecedora do referendo, por versos e atos. Quando SeuJair do Cavaquinho, ilustre portelense da Velha Guarda, gravadopor Elisete Cardoso, Nara Leão e Paulinho da Viola, integrantedo grupo que lançou Paulinho da Viola, estava perto de fazer 80anos sem ter um disco-solo gravado, foi Teresa Cristina quemorganizou a coleta de fundos para dar-lhe o disco de presente deaniversário.A cantora, não a (ótima) compositora, é que aparece noCD de estréia. "Eu não escolhi começar cantando Paulinho; eupreferi começar assim, pois essa foi a minha chance", conta ela, que foi convidada por João Augusto, da Deckdisc, que fez oconvite. "A Marisa Monte me disse: ´Vai, lá, negocia, não topade cara´" - mas João Augusto, que havia oferecido o projeto,antes, para Gal Costa e Leila Pinheiro, sem resultado, foiconvincente. "Não negociei, topei na hora, sem saber quais eramas condições. Pensar, coisa nenhuma."Para quem tem como madrinha a cantora Christina Buarquee como admiradores todos os grandes do samba, Teresa Cristinanão podia fazer diferente: gravou um dos discos mais bonitos dahistória recente do samba, com participações do Conjunto Épocade Ouro, da Velha Guarda da Portela, de Elton Medeiros e, claro,do homenageado, Paulinho, no samba Depois de Tanto Amar. Noencarte, o álbum traz as letras e as cifras das 28 músicas.

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