Lisi Niesner/Reuters
Lisi Niesner/Reuters

Tenor polonês canta peças de Puccini, Verdi e Gounod na Sala São Paulo

Estrela da ópera internacional, Piotr Beczala abre temporada do Cultura Artística

João Luiz Sampaio, Especial para o Estadão

02 de maio de 2022 | 20h00

Aconteceu em fevereiro de 2019. Durante o terceiro ato de Tosca, de Puccini, em Viena, o tenor Piotr Beczala cantou a famosa ária E Lucevan le Stelle. Os aplausos que se seguiram não paravam. E um breve olhar entre ele e o maestro deu a senha: a ária seria bisada.

Um bis em cena aberta na ópera parece pertencer mais a um tempo lendário do que ao presente. Há quem diga que se trata de uma deselegância. Em 2016, também durante uma Tosca, a soprano Angela Gheorghiu irritou-se com o bis de outro tenor, Jonas Kaufmann, uma vez que haviam combinado não repetir nenhuma ária (a fúria foi tamanha que ela esqueceu de entrar no palco logo em seguida).

Coisas do mundo da ópera. Mas Beczala tem encantado de tal forma plateias mundo afora que oferecer um bis é o menor dos indícios da qualidade com que tem interpretado grandes papéis do repertório de tenor, de autores como Verdi, Wagner, Puccini.

E é com eles que o polonês faz nesta terça, 3, sua estreia no Brasil. Na Sala São Paulo, ele abre a série de concertos internacionais da Cultura Artística, que precisou ser cancelada nos últimos dois anos por conta da pandemia. Serão dois recitais: ele canta ainda no dia 9, também em São Paulo, antes de seguir para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde no dia 12 abre a programação de concertos da Dellarte. 

"É minha primeira vez na América Latina e esses compositores são muito próximos do que faço como cantor. Achei que seria interessante, sendo meu primeiro contato com esse público, cantar algo que permitisse me apresentar como cantor”, diz o tenor em entrevista ao Estadão.

Nascido em Czechowice-Dziedzice, no sul da Polônia, onde começou seus estudos de música, a primeira ópera que viu foi O Elixir do Amor, de Donizetti. Não lembra de grandes detalhes da apresentação, apenas de que também queria cantar. Fez parte de corais, mas resolveu que queria ser solista. Após um tempo em casa, mudou-se então para Katowice. E, em seguida, para a Suíça, onde foi ser aluno de Sena Jurinac. Entrou para o elenco da Ópera de Frankfurt. E não demorou muito para conseguir trabalhos nas principais casas de ópera dos Estados Unidos e da Europa.

No início, a voz mais leve levou o tenor ao repertório chamado ligeiro. Mas aos poucos ele foi incorporando à carreira papéis um pouco mais líricos. Aventurou-se pela música francesa, cantando Romeu e Fausto, nas adaptações de Gounod para as histórias de Shakespeare e Goethe. Depois, Verdi.

“Quando você é jovem, está começando, tem vontade de cantar tudo. Eu, com 20, 21 anos, já queria ser Cavaradossi. Mas então alguém te faz entender que é preciso ter calma. Não é que necessariamente você não possa cantar alguns papéis quando é jovem. Você até pode. A questão é: se fizer isso, vai ter problemas na voz e, consequentemente, uma carreira bem curta. Então, pensar em uma trajetória no longo prazo exige que você não apenas cante, mas saiba fazer isso com cuidado e inteligência”, explica.

Essa trajetória está representada no repertório de seus recitais em São Paulo. Há papéis de diferentes momentos de sua carreira, assim como a sugestão do que vem por aí: papéis de compositores como Puccini, por exemplo. 

“Nós cantores costumamos pôr ênfase no repertório que podemos ou não fazer e isso está correto. Mas o que significa cantar? Para mim, há uma questão-chave: encontrar, em cada papel, a minha voz. Em outras palavras, que tipo de som posso emprestar àquela música. Cantar com a sua voz parece algo óbvio, mas não é.”

Um outro aspecto, ele explica, está relacionado ao caráter daquilo que se canta. “Se você canta Verdi ou Wagner, precisa saber que há no modo como eles escrevem para voz mensagens a serem consideradas. E há o idioma. Se você canta em francês, por exemplo, deve deixar o idioma francês, suas peculiaridades, te guiar na hora de criar o som.”

De Wagner, Beczala já cantou Lohengrin. E parece decidido a parar por aí. “Ele escreveu papéis fascinantes, mas tornar-se um cantor wagneriano é um caminho muito específico. Pois, no fim das contas, você se vê pronto para cantar alguns pouco papéis. Enquanto, no repertório italiano ou no francês, há pelo menos 20 à disposição em qualquer momento de sua carreira.” 

 

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