Tenor mexicano Ramón Vargas no Teatro Cultura Artística

Consagrado nos principais teatros de ópera do mundo, o tenor mexicano Ramón Vargas chega hoje a São Paulo para dois recitais no Teatro Cultura Artística, acompanhado da pianista Mzia Bachtouridze. Mas não será a ópera o tema das apresentações. Em vez disso, Vargas montou um programa de canções de autores europeus e latino-americanos. Quer, explica ao Estado, mostrar ao público brasileiro uma outra faceta de sua carreira. "É importante que o cantor mantenha-se sempre com um certo frescor. Para isso, é preciso reciclagens constantes. E o repertório de canções é o ideal para isso", diz.Vargas esteve no Brasil em 2002, quando participou da programação do Festival de Campos do Jordão. Na ocasião, diz, cantou o que se esperava dele - uma seleção de árias das principais árias de Verdi, Donizetti, Puccini que abriram para ele as portas do mercado internacional. Agora, vai interpretar dois programas. Hoje, canta Faurè, Respighi, De Falla, Villa-Lobos, Montsalvatge e Manuel Ponce; na quinta, Bellini, Donizetti, Obradors, Salvador Moreno, Ignacio Esperon e mais Villa-Lobos e Ponce. "Quis criar programas variados, até com o objetivo de apresentar alguns compositores desconhecidos, em especial latinos, cuja música faz parte de minha rotina desde a infância."A história de Vargas é até certo ponto comum entre cantores - a grande chance da carreira surgiu por acaso, na última hora, quando foi chamado a substituir Luciano Pavarotti em uma récita de Lucia di Lammermoor, de Donizetti, no Metropolitan de Nova York. Foi exaltado como o novo tenor da vez e logo assinou contrato para gravar seu primeiro disco, uma interessante seleção de árias de óperas francesas e italianas (lançado em edição nacional pelaBMG). Impressionou, desde o início, o cuidado na escolha de repertório, que ele explica pela "capacidade e humildade de escutar sua voz e ver se ela bate com o que se está estudando". "Em resumo, deve-se seguir a voz e não os seus desejos de repertório, o que vai evitar uma série de problemas."Vargas parece lidar bem com as comparações com outros cantores do passado - Pavarotti o principal entre eles - que a crítica especializada tem feito desde que subiu ao palco pela primeira vez. "Não me sinto seguidor ou sucessor de ningué. Se olhamos a questão desse modo, estamos sempre sucedendo a alguém: Caruso, Gigli, Di Stefano, Corelli, Pavarotti, todos eles vieram um após o outro, mas todos conquistaram o seu devido lugar na história da ópera", diz o tenor, que cita Enrico Caruso, Jussi Bjorling e Franco Corelli como referências importantes. "São sim, claro. Mas a questão é como funciona esta relação. Cada um deles teve uma função, uma importância específica na história da ópera. A questão é descobrir qual a nossa função, os desafios que o nosso tempo coloca aos cantores", diz.E quais seriam estes desafios? "A arte tem um componente intelectual e outro emocional. A especialização levou, em alguns lugares, à intensificação exagerada do lado intelectual em detrimento da emoção. Como cantor, estou sempre entre estes dois elementos. Nunca foi tão importante o conhecimento a respeito de estilos de interpretação para cada repertório, etc. Mas isso não pode fazer com que esqueçamos que estamos lidando com emoções ao cantar", diz. "E neste sentido as canções ajudam o cantor a refinar o estilo, o cuidado com as palavras. Quando se canta uma ária famosa, todo mundo sabe o que esperar. Mas quando escolhemos uma canção, precisamos apresentá-la ao público, contar a história que o compositor escreveu. É um desafio." Ramon Vargas. Teatro Cultura Artística/ Sala Esther Mesquita (1.156 lug.). R. Nestor Pestana, 196, 3258-3616. 3.ª e 5.ª, 21 h. R$ 100 a R$ 200

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