Breno Galtier
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Tendência no Brasil, bedroom pop ganha novo single com lançamento de Anavitória e Jovem Dionísio

Nova música carrega cenário e sonoridade caseira para falar das fantasias de um encontro romântico que ainda não aconteceu; veja clipe

Gustavo Queiroz e Jessica Brasil Skroch, Especial para o Estadão

19 de agosto de 2021 | 20h00

Em uma troca de ideias no Instagram, Ana Caetano, do duo Anavitória, enviou um verso em voz e violão para os meninos da banda curitibana Jovem Dionísio, para saber o que achavam. Os músicos logo sentiram que a proposta era ótima e tinha muito potencial para produção. No desenrolar das versões, as bandas encontraram um espaço para explorar uma sonoridade propositalmente artesanal, impossível de ouvir sem visualizar um piso de taco regado por um sol de final de tarde e dois ou três drinks. Foi assim que nasceu Aguei, parceria lançada já com clipe nesta sexta-feira, 19.



“Aguei quando te vi chegar/ Pensei ‘meu Deus que beijo bom deve ter’/ Às vezes me divirto sozinha/ Às vezes me divirto pensando em você”. Não é difícil se identificar com a letra da música, que narra as fantasias de um encontro que ainda não aconteceu. Na fase do “pré flerte”, como chama o vocalista da Jovem Dionísio Bernardo Pasquali, o romance é um pensamento que parece real. 

Dirigido por Felipe Fonseca, o clipe provoca a imaginação de quem assiste ao lembrar das festas pré-pandemia. A câmera ocupa o lugar da garrafa do famoso jogo de verdade ou desafio e observa as reações divertidas de cada jovem. Assim como a letra, o vídeo estimula o gosto daquele “e agora?”. Para uma brincadeira que começa apenas com alguns shots, o final é inesperado.  

Ana Caetano conta que a faísca para a música existir surgiu após um story publicado no Instagram do humorista Eduardo Sterblitch. Ele postou uma foto de um bolo e Ana comentou “aguei”. Da brincadeira, nasceu o nome da produção. “É uma música que fala sobre uma fantasia. Ela quer muito uma pessoa que não está perto. O que resta é fantasiar todas as coisas”. 


 

Bedroom pop

“A música é uma grande mistura entre Jovem Dionísio e Anavitória”, explica Pasquali. Após os ajustes na letra, as bandas conseguiram deixar a composição em pé logo nas primeiras tentativas da pré-produção. Como a dupla tinha interesse de se aproximar dos processos dos curitibanos, o encontro para produzir “Aguei” foi à la Jovem Dionísio, com o set up dos equipamentos próprios da banda. O resultado envelopa a proposta da Jovem Dionísio com a letra e o ritmo de Anavitória em uma trilha que veio para ficar. 

“Quanto mais o Bernardo me explicava sobre o modelo de produção deles, mais encantada e curiosa eu ficava. Entrar no estúdio com os meninos e acompanhar isso foi muito massa”, reforça Ana Caetano. “Foi um clima muito íntimo, como o bedroom pop pede”. 

 


A ideia de uma produção mais caseira é familiar à Jovem Dionísio, que além de Pasquali, é formada por Gabriel Mendes, Gustavo Karam, Rafael Duna e Bernardo Hey. Os jovens ganharam espaço no cenário nacional com o lançamento do hit Pontos de Exclamação em 2020. O single que tem mais de 9 milhões de visualizações no Youtube deu fôlego para a banda mergulhar de vez em um tipo de produção hoje chamada de bedroom pop. 

“Adaptando esse estilo handmade a galera curte bastante. A gente tava com medo antes de lançar, mas a galera gostou desta forma” explica Mendes. “Era a primeira música que conseguimos incorporar a nossa criação desde a primeira etapa. Ela já tem uma outra estética, a sonoridade dela já é outra coisa, jogamos para o mundo para ver o que acontece”, completa Pasquali.

O formato ganhou força na esteira do mais conhecido lo-fi (lo-fi é o diminutivo de Low Fidelity - baixa qualidade, em inglês) e usa a qualidade sonora caseira como elemento central para uma música que funciona para curtir uma festa ou um friozinho no próprio quarto. “Quando começamos, a gente usava nossos instrumentos para tocar e era totalmente diferente do que a gente tem hoje. Nos adaptamos à realidade, tornando o processo criativo cada vez mais fácil”, lembra Karam. “A pandemia fez com que a gente tivesse mais recluso e nos forçou a fazer dessa maneira, fomos pegando prática e hoje é a forma que mais gostamos de produzir”.

Cada vez mais ouvido no Brasil, o bedroom pop tem expoentes consolidados no exterior, como os estadunidenses Gus Dapperton e Billie Eilish. Por aqui, a aposta é no sentimento que a composição traz, assim como a música é consumida de forma geral nas playlists dos streamings - mais pelo clima que pelo ritmo em si. “Isso aproxima Anavitória com Jovem Dionísio que não tem exatamente o mesmo estilo musical, mas desperta um sentimento na pessoa que está ouvindo que talvez seja o mesmo lugar”, conclui Rafael Duna. Não à toa, todo o clipe de Aguei acontece dentro de uma mesma casa, explorando a diversão que pode acontecer ali. 


 

Parcerias

As parcerias de outros músicos com a Jovem Dionísio acontecem naturalmente, contam os integrantes. Em um pouco mais de dois anos de história, a banda já tem produções com Muricá, Clara Valverde e Gilsons. Normalmente os contatos começam pelo Instagram, como aconteceu com Anavitória. 

“A gente vê que essas parcerias acontecem de uma troca de admiração. É um artista que a gente é fã e descobrimos que ele é nosso fã também”, completa Pasquali. Além disso, para eles, as criações conjuntas proporcionam aprendizados para ambos os lados e expandem o público dos artistas. 

Por isso mesmo, é difícil definir um estilo musical para a Jovem Dionísio, cujos integrantes têm entre 23 e 26 anos. “Como a gente se define… Pop, indie... Isso não faz mais muito sentido hoje em dia porque não é assim que a galera consome”, lembra Pasquali. Por isso não é difícil encontrar na música dos curitibanos uma bossa feita no quarto, um R&B, ou um tipo de pop alternativo, se o conceito for possível de existir. 

O sentimento de “um som que não se encaixa” mas que é encontrado e percebido por uma geração de jovens que também não querem se definir é o que escalonou o sucesso da Jovem Dionísio justamente durante o período de distanciamento social provocado pela pandemia da covid-19. Pontos de Exclamação, por exemplo, foi remixado pelo DJ Vintage Culture com a dupla Future Class e alcançou  milhões de cliques no Spotify. A faixa colocou os meninos na lista de músicas mais ouvidas no Brasil e no mundo (2ª e 23ª) no lançamento. 

Quando tudo passar, Ber Hey brinca que vai ter aquilo que começa com “s” e termina com “w”: show. Uma promessa para uma banda que estourou no digital, num ritmo feito em casa para, por enquanto, ficar em casa.

 

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