Temporada de Caetano em SP tem ingressos a R$ 500

Papa da "baianidad", Caetano Veloso agora também é o mestre-sala da bacanidade. Na sexta, estreou no club Baretto, apêndice do Hotel Fasano, em São Paulo, um show de exceção do cantor baiano, num local para pouco mais de 40 convivas e ao preço único de R$ 500. Caetano tem 12 shows marcados ali - quatro no fim de semana -, nos quais mostra o repertório do novo disco, A Foreign Sound, que lança em março. Não tem como ver, está tudo esgotado. O publicitário Nizan Guanaes pagou R$ 1 mil para ver o show duas vezes na mesma noite. Até o New York Times veio ver. A renda dos concertos vai para o Hospital do Câncer da Fundação Pio XII, de Barretos (interior de São Paulo). Na estréia, o neo-bacana Caetano mostrou sua versão intimista, acústica, de um punhado de standards norte-americanos de todos os tempos.Os puristas órfãos do grunge vão querer morrer com sua versão bossa de Come as You Are, do Nirvana, à base de violoncelo, guitarra e percussão. Ao final, levanta e dança entre a platéia. Os carnavalizantes vão adorar o bolerão The Carioca (Gus Kahn/Vicente Youmans/Edward Eliseu), visão gringa do Brasil dos anos 30 que Caetano absorve (e absolve), apenas anabolizando a percussão. "Eu errei a letra toda. Mas a letra é uma bobagem tão grande. Mas as partes bonitas eu lembrei, que interessante." Ao cantar Sophisticated Lady, de Duke Ellington, numa versão lânguida ao estilo Cassandra Wilson, o cantor explicou: "É uma canção difícil de cantar, eu achava que não ia ter coragem." Mais adiante, continuou. "São canções tão cantadas. Que diabos eu posso fazer mais por elas?"Amante do jogo metalingüístico, Caetano enxerta no novo show a questão dos idiomas e das relações culturais entre eles, uma preocupação que perpassa as músicas que ele escolheu. Por exemplo: Não Tem Tradução (de Noel Rosa, Francisco Alves e Ismael Silva), que abre o show. "Tudo aquilo que o malandro pronuncia/Com voz macia/É brasileiro, já passou de português", diz a letra. "São canções americanas, mas que são brasileiras porque a gente ouviu todas por aqui", pondera o cantor. "Eu tenho dois filtros pelos quais essas canções passam: a bossa nova, que é um filtro de refinamento; e o tropicalismo, que é um filtro de ironia. Mas nada disso seria possível sem São Paulo", ele diz, para depois chamar Carlos Fernando, ex-Nouvelle Cuisine, para cantar consigo Sampa, seu hino à paulicéia. É um dueto improvisado. Ao final, ele dá um beijo na boca do parceiro de microfone.Elvis, Cole Porter e Osama - No meio de tudo, ele mostra uma canção novíssima, que fez há apenas seis dias, Diferentemente. "Acho que ouvi/Numa canção de Madonna/When you look at me/I don?t know who I?m/Eu nunca imaginei que nesse mundo/Alguma vez alguém soubesse quem é", diz a letra inédita. Mas é o seu refrão que faz o portentoso PIB paulistano presente ao Baretto vibrar: "Diferentemente de Osama e Condoleezza/Eu não acredito em Deus." "E é boa, hein? É boa a danada da música. Não sei como fiz tão depressa", gaba-se o cantor, imodesto.No medley de Baby, dele mesmo, e Diana, de Paul Anka, Caetano se aproxima da bossa eletrônica e termina como numa marchinha. Já So In Love, de Cole Porter, ficou sombria, até com alguns excessos do violoncelo. Nature Boy o público mais jovem vai reconhecer da trilha de Moulin Rouge, na qual foi cantada por Ewan McGregor. Ele despe os principais standards, como Summertime, de suas ambições orquestrais, e os cobre de tamborins, timbaus, pratos, pandeiros e batida sintetizada (cortesia de Domenico Lancelotti). Canta Love for Sale a capela, e empresta a Body and Soul a guitarra mais econômica do mundo (de Pedro Sá). A Foreign Sound tem 26 canções já gravadas, revelou Caetano. Ele se penitenciou de não ter incluído Prince no seu arcabouço das canções clássicas americanas, mas não se esqueceu de Elvis Presley. Ao som de um tecladinho de presépio, quase uma brincadeira, Love me Tender fecha o bonito show de Caetano com chave de ouro.

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