Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

"Temos que manter a sanidade mental enquanto tentam nos fazer de loucas", diz Linn da Quebrada

Cantora travesti faz shows do disco 'Pajubá' e se prepara para a Berlinale 2018

Pedro Rocha, ESPECIAL PARA O ESTADO

07 Janeiro 2018 | 06h00

O ano de 2017 foi um divisor de águas para a cantora paulistana Linn da Quebrada. Conhecida antes, principalmente, no circuito alternativo, ela chegou ao grande público com seu álbum de estreia, o Pajubá, e com suas participações em dois filmes, atuando no ficcional Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano, e como uma das personagens do documentário Meu Corpo é Político, de Alice Riff.

O fato de os dois filmes utilizarem a palavra “corpo” não é uma mera coincidência. “Foi um ano muito simbólico e significativo, no que diz respeito a disputa de imaginário”, comemora Linn sobre o ano que se passou. “Era isso que estava buscando e propondo no meu trabalho, os nossos corpos ocuparem outros espaços.”

Linn é travesti e celebra o fato de, em 2017, não só ela, mas diversos outros artistas, de todas as siglas LGBT, terem conquistado espaço na mídia. “Seria inocente da nossa parte achar que somos pioneiras, mas acho que talvez seja a primeira vez que estamos ganhando tanta visibilidade. Ficou insustentável fingir que nós não existimos.” Para Linn, agora corpos “marginalizados, periféricos, pretos e transviados” conseguem circular por meios em que, antes, não tinham acesso. 

Pajubá é uma linguagem popular de raízes africanas, que nos últimos anos tem sido adotada por grupos LGBT como gíria. O disco de Linn, que leva esse nome, mistura ritmos, sendo puxado pelo funk, e traz músicas que falam sobre a luta e o dia a dia de pessoas marginalizadas, sobre oprimidos e opressores, e, principalmente, sobre as “contradições das tradições”, com o objetivo de fazer ruir o pensamento “caduco, macho patriarcal, branco, hétero e cis normativo”. “Já tava na cara / Que tava pra ser extinto / Que não adiantava nada / Bancar o machão / Se valendo de p...”, canta na faixa (Muito +) Talento. 

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Em 2018, Linn vai divulgar ainda mais o álbum, que foi produzido de forma independente, com ajuda de financiamento coletivo, e disponibilizado nas plataformas digitais em outubro. Em janeiro, a cantora deve fazer uma série de pelo menos cinco shows por centros culturais de São Paulo, em datas a serem confirmadas pela Secretaria de Cultura da cidade. Em fevereiro, Linn viaja para a Europa, onde deve fazer shows. 

Para o ano que se inicia, mesmo com a ascensão política no conservadorismo, Linn acredita que o espaço conquistado por artistas LGBT em 2017 não será perdido. “Pode acontecer qualquer coisa, mas espero que continuemos construindo tudo o que começamos em 2017”, opina. “Fica muito transparente, para mim, que a reação vai vir, porque temos conquistado espaço, território, e temos colocado as nossas e os nossos nas universidades.”

Linn da Quebrada começa 2018 também como uma das estrelas de um grande painel que ilustra o Centro de São Paulo, que celebra o orgulho trans, na companhia das cantoras Raquel e Assucena, as Bahias, que cantam com a Cozinha Mineira. Além do mural, as três gravaram juntas uma música, que faz parte de uma campanha de uma marca de bebidas. “A arte resiste”, diz o painel. 

“Queria que mais pessoas tivessem relação com o meu trabalho e sei o peso, em relação a opinião das pessoas, da importância de que três travestis sejam protagonistas de um trabalho assim”, revela sobre o motivo de ter aceitado a parceria. “Quando pegamos palavras como travesti, bicha, sapatão, ou mesmo transexual, e damos um novo significado, colocamos essa imagem ligada a outras coisas, à celebração das nossas vidas, isso tem um peso muito grande para todas nós.”

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Linn é amiga das Bahias, já morou com Liniker, e convidou para seu disco a funkeira travesti Mulher Pepita e a drag queen Gloria Groove. Para ela, é importante que exista uma “rede” de apoio entre artistas LGBT. “A gente tem um cuidado, constrói, além de contratos, redes de apoio afetivo, emocional, psicológico ou material.”

“Tudo isso é questão de sobrevivência, não é só close e aparência”, acredita. No país que mais mata transexuais no mundo, segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia, a arte é justamente uma forma de sobreviver. “Para que a gente se mantenha vivas, a gente precisa trabalhar, conseguir se manter economicamente, manter a sanidade mental, enquanto há toda uma massa que tenta nos colocar, a todo momento, como loucas.”

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