Tem arte na música do Bonsucesso

Quando começou a compor sambas, ovocalista Rogério Homem (o Rogerman) tinha vergonha de mostrarpara os amigos. "Eu tocava contrabaixo na Eddie, ouvia e tocavarock. Mas quando pegava o violão, só saía samba", relembra ele, que sópôs o gosto em prática quando deixou a Eddie e fundou, comoutros amigos, uma nova banda. A empreitada deu tão certo que hoje até o nome da bandaque integra leva samba: Bonsucesso Samba Clube, que faz hoje oúltimo show da primeira fase de lançamento do novo CD Tem Artena Barbearia, no Sarajevo Bar. Quem quiser, pode comprar o disco no site da distribuidora (www.tratore.com.br) e, em breve, nas lojas da Fnac. O nome vem a calhar e homenageia o bairro de Olinda,cidade natal dos músicos da banda (Rogério, André Édipo, ChicoTchê, Bernardo Vieira, Gilsinho e Raphael), ex-integrantes dasótimas Eddie e Sheik Tosado. Samba Clube é referência ao BuenaVista Social Clube, cuja música latina é base de inspiração."Hoje será para comemorar. Em setembro, voltaremos e vamos tocarem lugares maiores e com outra estrutura", diz Rogério. Engana-se quem pensa que o Bonsucesso faça só samba. Abanda faz um som à altura do caldeirão cultural que é o cenáriomusical brasileiro, com batidas do ska jamaicano, reggae, ritmoslatinos e pernambucanos e, ao mesmo tempo, utiliza poucos e bonsrecursos eletrônicos sem receio de ser rotulada. "Não vamosreinventar a música, nem o samba. Mas, quem nos ouve sabe que éo nosso som", argumenta Rogério. De fato, o Bonsucesso não seencaixa em rótulos preconcebidos. A mistura tem agradado aos fãs, tanto no Nordeste comono Sudeste. Tanto que os pernambucanos se despedem comemorandosua melhor turnê fora de casa."Amadurecemos muito desde aprimeira vez que tocamos em São Paulo. O público também. É umageração que cresceu ouvindo o que o Mangue Beat produziu; nãodeixou de gostar de rock, mas aprendeu a valorizar o sombrasileiro, sem cair no folclore." Banda nasceu na pátria dos independentes A boa fase do Bonsucesso coroa também a ?pátria dosindependentes?. Sem contrato com grandes gravadoras, as bandasindependentes produzem seu próprio CD, coordenam desde a turnêaté a arte final do encarte. "Estamos nos articulando, trocandoexperiência, cuidando melhor das gravações. A tecnologia dá maisfacilidade para trabalhar", conta ele, que gravou Tem Arte noestúdio Batuka" de Bernardo Vieira, com uma microestrutura de30 metros quadrados. O amadurecimento não só do Bonsucesso, mas dosindependentes, passa pela polêmica do acesso às músicas nainternet. O sexteto de Olinda disponibiliza o conteúdo integralde seu CD para download gratuito em seu site oficial (wwwbonsucessosambaclube.com.br). "Não tenho medo. Os downloads nãoatrapalham nossas vendas de CD." A fórmula é simples. "Em vez devender por R$ 35, por uma gravadora, e ficar com centavos;vendemos por R$ 10 e ficamos com valor real", explica Rogério,que, da tiragem de 10 mil CDs de Tem Arte na Barbearia, jávendeu mais de 2,5 mil e pretende esgotar em dois anos. Outro trunfo é o encarte do CD, que presta homenagem aobarbeiro Seu Isnar, figura lendária de Olinda, com arte dodesigner Ricardo Gouveia de Melo. "Virou souvenir. Todo CD nossotem de ter arte bacana. Já planejo o próximo", conta Rogério,que já pensa também em novas letras. Será impossível não falarda ?fase paulista?. "Outro dia me peguei compondo um verso quefalava de São Paulo."Bonsucesso Samba Clube. Sarajevo. Rua Augusta, 1.385,telefone 3253-4292. Hoje, às 22h30. R$ 10. São Paulo. Crítica do CD, por Lauro Lisboa GarciaDos novos pernambucanos que baixaramnos últimos tempos no Sudeste, o Bonsucesso Samba Clube e oMombojó guardam semelhanças na linha de frente. Crias da segundadentição do movimento mangue beat, ambos estão no segundo CD,denotam influências do samba esquema supernovo reimplantado pelomundo livre s.a., mas caminham pelas próprias pernas. E também acabam com aquela mania de "síndrome do segundodisco", a que a mídia recorria em décadas passadas paraatormentar os pobres novatos. Independente, Tem Arte naBarbearia é melhor do que o álbum homônimo de estréia, de 2003,que foi co-produzido por eles e os paulistas do Instituto. Não é fácil para quem procura rótulos definir o estilodo olindense Bonsucesso. Mesmo misturando porções de gêneros jáexperimentado por outros - como samba, rock, reggae, dub,drum?n?bass, maracatu, carimbó, coco, etc. - o grupo imprimiupersonalidade já no primeiro trabalho. Bom saber que evoluiunitidamente no atual. Menos eletrônico do que o anterior, este mantém apluralidade e traz melodias mais bem desenhadas e soluções quecasam refinamento, simplicidade e eficácia nos arranjos - como oteclado vintage de Seu Nome Era Eu, os efeitos de talking drumem Eu te Encontrei, a guitarrinha da suingada "Téo de Tetê,uma das boas faixas com cara de hit, que no show se potencializa. Com seu jeitão maneiro e fluente de cantar, o vocalistaRogério Homem também manda bem na composição: é autor de todasas faixas, só ou com parceiros. A maior deficiência de duas gerações para cá é a falta deconteúdo nas letras. E isso o Bonsucesso também consegue driblarmelhor agora sem muita pretensão. "Como gosto de pensar/ Acharresposta sem parar/ Não decidir nunca/ Antes de botar à prova/Toda pergunta/ Cada resposta", diz a letra de Como Gosto.Mesmo com uma produção modesta, o BSC dá o seu recado comcompetência e criatividade. E é ainda melhor ao vivo.

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