Nilton Fukuda / Estadão
Nilton Fukuda / Estadão

Tecnologia Atmos faz voz de Elis Regina chegar 'por todos os lados'

Canção 'Como Nossos Pais', a primeira gravada pela cantora a ser convertida em Dolby Atmos, mostra o poder de um realismo sonoro que pode devolver o protagonismo à música ao provocar, de novo, o 'espanto da audição'

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2021 | 05h00

Elis está a dois ou três metros bem à frente, de pé, a uma altura um pouco acima da cabeça de quem a vê. Seus músicos tocam pela sala, espalhados, mas não dispersos, fazendo com que os instrumentos soem juntos, mas de pontos diferentes. A bateria de Dudu Portes sai de sua esquerda, o piano de Cesar Camargo do lado quase oposto e o baixo espacial de Wilson Gomes, denso e macio, vem, como sempre veio, de muitos lugares, como um lençol que desce para cobrir tudo. Elis canta as primeiras estrofes de Como Nossos Pais e logo cresce, irrompe e seduz seus músicos a se agigantarem também. O som do teclado toma a dianteira para um solo rápido, mas ainda crescente, devolve a melodia para Elis e ela segue quase sem respiros até terminar exaurida diante de quem a vê quando tudo já não se trata mais da audição de uma canção cantada por um mulher que, dizem, morreu tem quase 40 anos.

A obra de Elis Regina começou a ser submetida a um tratamento de audição imersiva chamado Dolby Atmos, uma tecnologia que eleva a experiência musical a um nível de realismo espantoso. É, de fato, como se os músicos tocassem e cantassem ao lado de quem os ouve. Ao lado, à frente, por trás ou de cima. Os instrumentos e as vozes chegam em níveis mais sutis ou mais radicais de um distanciamento que pode ser decidido pelos produtores. E essa é a nova entrega em comparação com outros formatos. O som imersivo cria uma espécie de círculo sonoro em volta do ouvinte, possibilitando que os instrumentos e as vozes sejam colocados em qualquer ponto desse espaço virtual e não mais apenas em canais específicos, como nos velhos sistemas estéreo. Giovanni Asselta, senior solucion engineer da Dolby para a América Latina, explica a tecnologia originada para o cinema, em 2012. A magia se realiza com a junção de dois tipos de mixagem usuais: a de cama e a de objetos. “A cama é a base, é o som que eu mixo pensando nas caixas. Uma mixagem por canal. Objeto não. Objeto é aquilo que eu mixo para a sala. Então, conseguimos fazer a somatório de cama e objeto, criando um áudio imersivo.”

A facilidade de acesso à experiência, que requer apenas um fone de ouvido simples, é outro ponto que a diferencia das práticas audiófilas analógicas, os cultos à maciez do vinil. Além de não serem imersivas, essas audições clássicas e ritualísticas demandam espaço físico e aparelhos, da agulha às caixas de som, sempre caríssimos. Aliás, a comparação nem vale. Audiófilos em geral devem passar longe de qualquer sistema digital que, além de ser digital, interfira na sensação de espacialidade do som original, profanando, em suas percepções, a natureza do vintage. Mesmo sabendo que existe diante da obra da mãe, Elis Regina, públicos analógicos e digitais, João Marcello Bôscoli, produtor musical e estrategista do legado físico de Elis, diz que é preciso tomar cuidado com a instigação imersiva e com “o céu é limite” de um projeto com essas matrizes. “A mixagem vai agora por um caminho artístico, não mais apenas técnico, mas é preciso cuidado. Se Elis está cantando algo superemocional, não posso colocar uma virada de bateria passando por trás da cabeça do ouvinte. Isso seria como soltar um fio de raio laser durante uma interpretação dramática de Fernanda Montenegro. É preciso respeito.”

A reportagem do Estadão foi convidada para ouvir, nos estúdios da Dolby, em São Paulo, o resultado da primeira canção em Atmos gravada por Elis. Como Nossos Pais, de Belchior, foi registrada pela cantora no álbum Falso Brilhante, de 1976. Mesmo João, que participou do processo de preparação da faixa, estava emocionado quando a canção terminou. “O que mais gosto é do tanto que podemos nos sentir envolvidos. É como estar no teatro. Você não tem mais só a emissão do som, você consegue fazê-lo andar dentro da sala. Se fosse estéreo, a voz de Elis sairia dali (aponta para as caixas) e, daqui em diante, seria o que Deus quisesse.”

Nem todas as plataformas de streaming estão preparadas para a tecnologia. Como Nossos Pais só é oferecida, por enquanto, aos clientes da Tidal e da Apple Music. E a versão em Atmos não é colocada de maneira clara. A Apple usa um selo minúsculo no canto esquerdo do track, que é designado como Como Nossos Pais (Remastered 2006) – Single. Foi sobre a remasterização deste ano, a mais recente, que o Atmos foi aplicado. Um último detalhe: é preciso habilitar o celular para Dolby Atmos no campo de configurações. Giovanni Asselta, da Dolby, tem uma aposta. “A tendência é de que as músicas sejam oferecidas por serviços ‘premium’. Serviço que não oferece áudio imersivo perde mercado.”

Um executivo da Universal Music deve ter feito a melhor definição, segundo Asselta. “Ele disse: como um criador, eu era antes um pintor. Agora, me transformei em um escultor.” Sua produção pode ser apreciada por pontos de vista distintos. “A Mona Lisa do quadro não pode ser vista por trás. Se fosse uma escultura, poderia”, diz o engenheiro. Asselta adianta que os próximos passos devem avançar ainda mais em busca da perfeição de um som, se é que, de fato, ele exista. “Cada um de nós ouvimos a música de um jeito, isso por causa do tamanho de nossas orelhas, da própria cabeça e de outras questões. Mas, por meio de algoritmos, essa diferença vai ser diminuída quando você puder acessar uma plataforma que tenha esses dados todos sobre seu corpo. Um dispositivo de celular vai escanear sua cabeça, calcular as variantes sonoras e adequar esse som, tudo por metadados.” Não sabemos o que Elis acharia de tudo isso, mas dá para ouvir seu sorriso chegar por todos os lados diante de um fato: 40 anos depois de morrer, ela é o primeiro artista brasileiro de catálogo a ter suas canções convertidas para a nova tecnologia. 

O retorno da música ao papel principal

João Marcello diz que a nova tecnologia tem força para trazer de volta o ‘espanto da audição’ e fazer o ouvinte ir até o fim

Constata-se, então, que a música, colocada na perspectiva de uma linha do tempo que aponte os avanços históricos de suas formas de audição, ganhou território e perdeu protagonismo. Em outras palavras: ouvíamos menos música no passado, mas ouvíamos melhor. Ou ainda: nunca se produziu tanta música, nunca se ouviu tanta música, mas nunca prestamos tão pouca atenção em uma música. E por aí vai, até chegarmos ao ponto que interessa. Uma tecnologia nova, que provoque o chamado de “espanto da audição”, pode ser uma aliada interessante na recondução da música ao papel principal que desempenhava na era dos vinis: parem tudo que eu vou ouvir música.

João Marcello, que remasteriza e remixa a obra da mãe por pelo menos três revoluções, LPs, CDs e streaming, observa com preocupação a evolução (ou involução) da audição comportamental. “Ouvir uma música hoje do começo ao fim é algo raro. Veja: as pessoas veem minissérie apertando a tecla X2 (aumentando a velocidade do filme), que é o mais próximo de um hamster que um ser humano consegue chegar. Uma loucura isso. Gosto muito dessa música sensorial, porque você fecha os olhos e fica por três minutos fazendo apenas uma coisa. Sei que é minha visão, mas acho que o seu cérebro também implora para que você faça uma coisa de cada vez do início ao fim. A média de audição de música hoje é de 40 e poucos segundos”, diz. Um diretor da Apple afirmou que seu prazer, finalmente, era o de ouvir música. “Eu quero saber qual a novidade da música”, disse, depois de passar pelo Atmos.

Ricardo Camera, engenheiro de áudio que trabalhou na versão de Elis em Atmos, diz que a nova experiência se trata da “maior revolução depois do estéreo”. “Tudo o que havia antes dependia de uma condição física. A partir de agora, você, com um par de fones, consegue sentir tudo o que foi dito aqui. Vendo um filme, por exemplo, quando um helicóptero vem de cima. Essa imersão aumenta sobremaneira a experiência. A gente tem certeza de que isso é o futuro.”

E a audição, por tudo que a reportagem percebeu durante a audição de Elis no estúdio da Dolby, talvez não seja o único sentido humano no tabuleiro de emoções do Atmos. Inserir o ouvinte nas condições acústicas de um ato sonoro pode fazê-lo perceber situações culturais que o som estéreo até então não dava conta. Um exemplo bom será um álbum de samba de Leandro Lehart que a Dolby vai lançar em Atmos. “Vamos colocar o ouvinte dentro da roda.” E isso, se for feito com conhecimento do que é uma roda de samba, pode ser muito mais do que apenas um malabarismo tecnológico. Ouvir o samba de dentro de uma roda eleva o ouvinte à condição de participante do mais sagrado no universo do samba.

Informações ainda com certo sigilo dizem que, entre outras experiências, dois clubes de música eletrônica, um em São Paulo e outro em Porto Alegre, irão abrir as portas já com a tecnologia Atmos. E aí, culturalmente falando, a imersão quase alucinógena é mais do que bem-vinda.

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