Arthur Costa|Divulgação
Arthur Costa|Divulgação

Teatro Municipal de São Paulo homenageia Carlos Gomes

Produção da ópera ‘Fosca’, no entanto, não consegue fazer jus a uma das principais criações do compositor

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

08 Dezembro 2016 | 19h16

O Teatro Municipal de São Paulo escolheu a ópera Fosca para marcar o duplo aniversário do compositor Antonio Carlos Gomes: 180 anos de nascimento, 120 anos de morte. É uma opção interessante. Se é difícil ver O Guarani ou O Escravo longe da discussão a respeito do que seria (ou não) uma arte de caráter nacional, imbróglio em que desde o modernismo a percepção do legado do compositor chafurda, Fosca permite desviar o olhar em outra direção. É nela, afinal, que ficam mais claras as contribuições do autor para a história da ópera, em especial o ritmo teatral mais fluente, a tentativa de quebrar a divisão entre cenas e a aposta em um canto que, em sua complexidade, leva ao futuro do gênero, encarnado pelo verismo, espécie de realismo à italiana.

A produção estreada no Municipal na quarta, 7, no entanto, parece seguir justamente no caminho contrário. Fosca pertence a um grupo de piratas, em conflito constante com Veneza. Mas ela ama Paolo, um de seus rivais. A tragédia é dupla, não apenas pelo amor impossível (já que ele ama a jovem Delia), mas porque o sentimento é utilizado por seus aliados como joguete em uma briga política. Fosca, assim, se insere em uma linhagem de personagens femininas (Thais, Carmen, Manon) que nas últimas décadas do século 19 reivindicam para si o direito de viver de acordo com o que sentem – apenas para serem confrontadas mais uma vez por uma sociedade que as vê ainda a reboque do desejo masculino.

Nesse sentido, dar a ela um único resquício de cor em um cenário que se alterna exclusivamente entre o preto e o branco é ressaltar seu protagonismo, o de seu desejo e o de sua destruição. Da mesma forma, é preciso chamar atenção para a beleza e o virtuosismo cênicos, orquestrados pelo diretor Stefano Poda. No entanto, o maniqueísmo que perpassa a oposição entre um mundo de luz e outro de escuridão, ainda que pautados pelo mesmo senso mal colocado de fervor religioso, enfraquece o indivíduo perante o coletivo no momento em que joga para segundo plano qualquer contradição individual – e são elas, afinal, o que Gomes se propõe a ressaltar no que diz respeito à caracterização de personagens, ainda que de forma embrionária.

Também faltaram meias-tintas na realização musical. O que a partitura de Fosca tem de mais interessante é uma mistura muito particular da tradição da ópera italiana com um início de revolução wagneriana, filtrados por um melodismo que é sempre marca de Carlos Gomes. Mas na leitura de Eduardo Strausser, à frente da Sinfônica Municipal, tudo é forte, exagerado, e a ausência de contrastes dá ao espetáculo um ritmo arrastado, que depõe contra o fluxo teatral proposto pela música. Na sua regência, assim como na Fosca de Nadja Michael ou no Paolo de Thiago Arancam, verismo vira sinônimo de exagero. A Delia de Lina Mendes, o Cambro de Marco Vratogna ou o Gajolo de Luiz Ottavio Farias, no entanto, são capazes de nos lembrar que força não é o mesmo que intensidade – e não por acaso foram eles os destaques da noite de estreia.

FOSCA

Teatro Municipal. Pr. Ramos de Azevedo, s/nº, 3053-2100. Sáb. (10), 3ª (13), 5ª (15), sáb. (17), às 20h. Dom. (11), 17h. R$ 50 a R$ 160.

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