Teatro Municipal de São Paulo celebra 130 anos do autor Bache Villa-Lobos

Comemoração terá as 'Bachianas' com concertos neste sábado e domingo

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

04 Março 2017 | 04h00

Diz a história que, ao ser apresentado em um evento público, como o “autor das Bachianas”, Villa-Lobos respondeu de pronto, não muito contente. “E por que sempre as Bachianas? Eu também escrevi outra música, música importante.” No caso do compositor, nem sempre é fácil separar lenda da realidade. Mas, querendo ele ou não, as peças entraram para a história da música brasileira como sinônimo de seu nome. E, não por acaso, foram escolhidas pelo Theatro Municipal de São Paulo para homenagear o autor, que, neste domingo, 5, faria 130 anos.

Sábado, 3, e domingo, 4, as nove Bachianas serão interpretadas em dois concertos diários. O primeiro, às 16h30, traz as de n.º 1 (para orquestra de violoncelos), n.º 6 (flauta e fagote), n.º 5 (violoncelos e soprano), n.º 8 (orquestra) e n.º 4 (orquestra de cordas); e, às 20 horas, as de n.º 9 (para coro), n.º 3 (piano e orquestra), n.º 2 (orquestra) e n.º 7 (orquestra). A regência é de Roberto Minczuk, à frente da Orquestra Sinfônica Municipal. Na n.º 3, o solista é o pianista Jean-Louis Steuermann; na de n.º 5, a soprano Laura Duarte; na n.º 9, o Coral Paulistano Mário de Andrade.

As Bachianas reúnem as duas grandes paixões de Villa-Lobos, Bach e o Brasil”, diz o maestro Minczuk. “É o país em forma de música que se revela nessas nove peças, em toda a sua imensidão, com referências tanto à música e à cultura urbanas como à tradição folclórica e sua riqueza, que tanto interessaram o compositor. Some a isso à beleza das melodias, carregadas de uma certa melancolia, e não é difícil entender como até hoje estão entre as peças mais populares de Villa-Lobos.”

As Bachianas foram escritas entre 1930 e 1945. Nelas, como o nome sugere, o compositor tenta unir uma identidade nacional brasileira à tradição da música de Bach. Se confiamos no relato do próprio Villa-Lobos, a combinação era mais do que natural. “A música de Bach vem do infinito astral para se infiltrar na terra como música folclórica e o fenômeno cósmico se reproduz nos solos, subdividindo-se nas várias partes do globo terrestre, com tendência a universalizar-se”, escreveu o compositor. Em outras palavras, Bach representaria uma espécie de folclore primordial, universal – e, portanto, em diálogo com qualquer manifestação regional.

Há uma explicação menos esotérica. Naquele momento, diversos autores europeus, que Villa-Lobos conhecera em Paris, como Stravinski, voltavam-se a Bach e aos compositores do neoclassicismo como fonte de inspiração. Seja como for, Villa trata a ideia com bastante originalidade e, ao mesmo tempo, criando obras que desenvolvem uma relação direta com a plateia. Basta lembrar do Trenzinho do Caipira, último movimento da Bachiana n.º 2 ou n.º 5.

“São dois momentos que o público com certeza vai reconhecer”, diz Minczuk. “Mas quisemos realizar todas elas justamente para mostrar as outras facetas do ciclo, que é muito diverso, com formações distintas e uso interessante de instrumentos de percussão ou do saxofone, por exemplo. A diversidade das Bachianas, seu aspecto quase caótico, também é símbolo da riqueza e da multiplicidade do Brasil.”

Novas edições de suas obras marcam a data

O aniversário de 130 anos de Heitor Villa-Lobos vai servir de gancho para uma série de iniciativas de resgate de sua obra. Peças do compositor integram séries de concertos de orquestras todo o Brasil. Mas não só: a Academia Brasileira de Música, criada por Villa-Lobos e mantida até hoje com os seus direitos autorais, aproveita a data para lançar uma série de novas edições de algumas de suas partituras - e algumas delas serão distribuídas gratuitamente para orquestras do País e do exterior.

“Em parceria com a editora Max Eschig estamos lançando novas edições revistas pelos maestros Roberto Duarte, Henrique Morelenbaum, Lutero Rodrigues e Ricardo Tacuchian de obras como a Bachianas Brasileiras n.º 9, o Concerto para Violão e os Choros n.º 10”, diz o pesquisador André Cardoso, presidente da academia. “Outras obras, por incrível que pareça, ganharam a primeira edição, já que eram alugadas em cópias manuscritas, dificultando muito a execução, como o poema sinfônico Madona, a Alvorada na Floresta Tropical e o Concerto para Harpa.”

A edição das partituras do compositor tem sido considerada, não é de hoje, condição fundamental para uma maior difusão de seu trabalho: muitas continuam na versão manuscrita. Não por acaso, a Osesp, que acaba de terminar a gravação da integral das sinfonias, também realizou novas edições das peças.

Outras peças devem ser lançadas este ano pela academia. “Com edição de Manoel Correa do Lago e de Régis Duprat, fizemos a primeira edição de obras para canto e orquestra que estavam ainda em manuscritos, como os Epigramas Irônicos e Sentimentais, as Historietas e as Miniaturas. E uma nova edição de Uirapuru, com revisão do maestro Tobias Volkmann, e da versão orquestral da Bachianas n.º 4, com minha revisão e do Manoel Corrêa do Lago”, afirma Cardoso.

CICLO BACHIANAS

Theatro Municipal. P. Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 3053-2100. República. Sáb. (4) e dom. (5), às 16h30 e 20h. R$ 17,50 a R$ 100

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