Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Teatro Municipal de São Paulo atrasa cachê e fala em cortes

Não há previsão para pagamentos da ópera 'Elektra'; direção do teatro diz que folha de pagamento cria 'instabilidade'

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

21 Dezembro 2016 | 20h00

O Teatro Municipal de São Paulo termina 2016 enfrentando dificuldades financeiras. Alegando problemas no “fluxo de caixa”, o Instituto Brasileiro de Gestão Cultural (IBGC), organização social responsável pela gestão do teatro, ainda não pagou os cachês referentes à produção da ópera Elektra, de Strauss, estreada em outubro. Não há previsão de pagamento. Além disso, foi adiada para 2017 a contratação via CLT dos artistas do Balé da Cidade de São Paulo - e depoimentos da direção do IBGC ao Ministério Público Estadual sugerem a possibilidade de cortes de pessoal no começo do ano.

 

Os cachês referentes a Elektra deveriam ter sido pagos, por contrato, até o dia 9 de novembro. “Isso não aconteceu e estamos até agora sem ter uma posição oficial a respeito de quando será feito o pagamento. É uma quebra na relação de confiança entre os artistas e a instituição”, diz Caetano Vilela, responsável pelo desenho de luz do espetáculo. “O que espanta é a opção artística e administrativa deliberada com relação ao não pagamento. Se não havia dinheiro, como então, após Elektra, produzir outro espetáculo?”, completa, referindo-se a Fosca, de Carlos Gomes, espetáculo encenado no início de dezembro e orçado em cerca de R$ 4 milhões. Livia Sabag, diretora cênica de Elektra, chama atenção para o fato de que “está cada vez mais impossível a situação do artista brasileiro”. “Os contratos favorecem sempre a instituição e você é obrigado a trabalhar em um contexto de incerteza”, afirma

O IBGC enviou aos artistas um e-mail no qual atribui o não pagamento a um “problema de fluxo de caixa”. “Devido às dificuldades institucionais por que passou no ano de 2016, o teatro está em débito com alguns fornecedores, mas manifesta o compromisso em solucionar essa pendência na maior brevidade possível”, diz o texto. Em outra mensagem, o diretor do IBGC, Pedro Gattoni, afirma: “Tínhamos a previsão de repasses que acabaram não se confirmando e aguardamos o aporte de recursos já referentes a 2017 para solucionar essa situação no início do ano”.

 

O IBGC tem um contrato de gestão com a Prefeitura até agosto de 2017. O Estado apurou que o repasse a que se refere Gattoni, previsto para 2016, gira em torno de R$ 8 milhões, mas só seria feito pela Prefeitura caso o contrato fosse prorrogado até o final do próximo ano - o que o IBGC, em nota oficial, nega.

O Teatro Municipal também enfrenta um problema estrutural. Desde 2014, um acordo com o Ministério do Trabalho previa a contratação por meio de CLT dos artistas da casa. Este ano, seria a vez do Balé da Cidade de São Paulo, mas a celetização foi adiada para 2017 - e no processo serão demitidos quatro bailarinos. Em declaração ao Ministério Público Estadual sobre o tema, colhida no dia 15 de dezembro, à qual o Estado teve acesso, Gattoni informou que os processos de contratação via CLT feitos antes de sua chegada ao IBGC “foram extremamente irresponsáveis, uma vez que definiram as contratações com salários muito acima da média paga pelo mercado, o que gerou uma instabilidade financeira”. No mesmo documento, ele explicou que a dotação orçamentária para o ano de 2017 para o IBGC gerir o teatro é de R$ 88 milhões. “Se mantida, a atual folha de pagamento consumiria R$ 90 milhões.” A diretora do Balé da Cidade, Iracity Cardoso, também falou ao MPE. Em sua declaração, disse que recebeu orientação do diretor do IBGC para efetuar cortes no corpo artístico do grupo. Segundo ela, houve também a criação de categorias de salário antes da celetização. Para Iracity, “o corte foi traumático”.

A declaração, somada ao corte de quase 10% no Balé da Cidade, acendeu a luz vermelha para artistas da casa. A expectativa é de que os demais corpos estáveis sofram reduções. Fala-se, por exemplo, na possibilidade de demissão de ao menos dez integrantes do Coral Lírico Municipal e de músicos da Orquestra Sinfônica Municipal. “Temos ouvido em reuniões que a estrutura está inchada. Mas precisamos lembrar que muitos desses artistas trabalharam durante anos, décadas, com contratos irregulares. Demiti-los agora, como se esse passado não existisse, é um desrespeito enorme”, diz um artista, sob condição de anonimato.

Questionado sobre a possibilidade de cortes, o IBGC não respondeu. Afirmou apenas, em nota, que “reitera sua responsabilidade em zelar pelo pleno funcionamento do Teatro Municipal de São Paulo, pelas atividades de seus grupos artísticos e seus mais de 400 funcionários, incluindo o Balé da Cidade, que terá seu processo de celetização concluído em janeiro de 2017, de forma responsável”. O texto enviado diz também que “as decisões estratégicas e medidas administrativas serão discutidas oportunamente com os demais órgãos gestores do teatro”.

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