Tatit faz show divulgando novo CD

Mais melódico, descompromissado do exercício de teorizar por meio da linguagem musical e, lógico, mantendo o cuidado com a palavra. É assim que, basicamente, o compositor Luiz Tatit se mostra no seu segundo disco-solo, O Meio, que acaba de ser lançado pela gravadora Dabliú. No domingo, ele fará um pocket show com o novo repertório na Choperia do Sesc Pompéia, em São Paulo."Certamente, no começo do grupo Rumo, eu já tinha um trabalho de reflexão sobre a canção, até pela presença da semiótica (hoje é professor dessa disciplina na Faculdade de Letras da USP). No início do grupo, compunha com a intenção de valorizar a entonação, mas logo na gravação do primeiro disco, percebi que isso endurecia a canção", informa Tatit, referindo-se à questão do exercício de teorizar por meio da música. "Percebido isso, a prática das descobertas teóricas ficou em segundo plano e o Rumo sentiu muito mais a necessidade do nosso desenvolvimento pela ótica criativa do que didática."Meio é também a continuidade de uma forma de compor, valorizando a palavra e explorando a entonação como parte integrante da composição, iniciada quando Tatit era integrante do grupo Rumo, criado em meados dos anos 70. No entanto, mantida essa singularidade que faz parte também da forma de interpretar de alguns ex-integrantes, como Ná Ozzetti, Tatit somou à sua música de hoje construções melódicas mais emocionantes. "Esse é um traço acentuado pela presença dos parceiros, alguns declaradamente mais românticos", conta. "E para não fazer uma letra igualmente derramada, faço uso da ironia." Mas nesse disco há momentos em que Tatit se rende ao sentimento. É o caso de Tanto Amor, feita com Ricardo Breim. "Entrei nesse excesso proposto na melodia e deixei as idéias transbordarem no conteúdo", afirma. Há, em O Meio, um bonito exercício da canção.Tatit acredita que a singularidade da sua obra se deva ao cuidado em fazer letras. "A letra é, sem dúvida, o calcanhar-de-aquiles da música de hoje. Há um percurso natural no Brasil de bons instrumentistas, que sabem compor boa música, mas o fato é justamente a dificuldade do arredondamento da letra com a idéia que a melodia expressa", analisa. "Não sei se porque estou mais velho, se porque venho dessa geração preocupada com o encaixe da palavra, que eu creio fazer uma composição que letra e melodia estão compatíveis." Na verdade, é um trabalho que Tatit se propõe desde os tempos do Rumo, por isso tem esse estilo inconfundível: quando canta, parece estar contando uma história.O novo CD tem a produção do irmão Paulo Tatit. Mas, dessa vez, há, segundo Tatit, outra figura importante na concepção instrumental de O Meio: o músico Fábio Tagliaferri. Não há nenhuma parceria dos dois no disco, mas ele toca praticamente em todas as faixas. "Ele é muito melódico e sua formação de cordas traz muito do choro, do samba, do tango. Deu soluções brilhantes para algumas músicas", conta. "Ele trabalha com gêneros mais definidos e eu não me prendo especificamente a nenhum e o interessante é trabalhar com esse limite, que desafia a resolver a letra naquele estilo." Ná Ozzetti, Zé Miguel Wisnik e Ricardo Breim, os parceiros mais constantes, também participam do disco.Meio, canção que dá nome ao CD, nasceu por causa de Essa É pra Acabar - remanescente do período do Rumo e que Tatit continuou tocando nos seus shows, legitimando assim a música como hit nas apresentações. O compositor deparou-se com a idéia de "começar e terminar". Para isso, usou o meio. "Há na história a valorização dos extremos, mas o que conta mesmo na vida é a duração, que vive no meio dos períodos." Quando se ouve "O Meio", entende-se tudo: "É bom demais estar no meio/ O meio é seguro pra gente cantar/ Primeiro, acaba o bloqueio/ E até o que era feio começa a soar/ Depois todo aquele receio/ Partindo do meio, podia evitar/ Até para as crianças nascerem/ Nascendo no meio, não iam chorar."Luiz Tatit. Domingo, às 18 horas. Entrada franca. Choperia do Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, São Paulo, tel. (11) 3871-7700.

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