Tatit faz apologia do "meio" em novo CD

Sentado em seu local de trabalho, no canto em que escreve, corrige provas e compõe, em meio a livros, violão, sofá e uma escrivaninha repleta de papéis e canetas, o compositor discorre sobre assuntos os mais variados. Luiz Tatit, paulistano, membro do extinto Rumo, acha que a música brasileira está passando por um momento heterogêneo e descentralizado. Isso o agrada. Tatit tensiona ainda mais esse momento lançando O Meio, que é, como quer, um disco sem princípio e sem fim. Entre Felicidade e este segundo, e conceitual trabalho solo, passaram-se três anos. Tempo suficiente para Tatit escrever algumas canções, recuperar outras, e lançar o disco, novamente pela gravadora Dabliú. E em O Meio, ele, que é também professor de letras da USP, fala sobre a dificuldade de começar e terminar algo. O meio, para Tatit, é o local exato para estar. Ser médio é a melhor opção.O conceito não está presente em todo o disco. Das treze músicas que gravou, três tratam do meio. A primeira, faixa-título, a sétima Trio de Efeitos, antiga parceria com José Miguel Wisnik e Essa é pra Acabar. ?Na verdade eu tinha um rol de canções e surgiu essa idéia de trabalhar as extremidades e o meio, privilegiando o segundo?, explica. Abordar o assunto, segundo Tatit, foi algo que lhe surgiu naturalmente, há dois anos. ?Eu precisava gravar Essa é Pra Acabar, que desde a época do Rumo faz sucesso entre nossos fãs. Comecei a compor O Meio e pensei que poderia brincar com esta questão?, comenta. Em O Meio o compositor procurou dividir o trabalho com seus parceiros. Em Felicidade ele assinou todas as letras e canções. Neste participam Ná Ozetti, que compôs Batuqueiro e Atração Fatal, Wisnik, Trio de Efeitos (ao sabor de Stephane Grapelli) e Serra do Mar e o pianista Ricardo Breim, Tanto Amor. Na execução das músicas também são muitos os companheiros. Fábio Tagliaferri, seu parceiro em Show, das mais belas canções apresentadas no festival da Globo, fez as quase onipresentes orquestrações, um dos pontos altos do disco. O irmão Paulo Tatit assina a direção musical. Dante Ozetti, seu mais novo parceiro, vez ou outra toca violão. Foi Tatit quem escreveu todas as letras do irmão de Ná quando este venceu o prêmio Visa de MPB, no ano passado. Mário Manga, do Premê, também participa. ?Meus discos terão sempre parcerias daqui para frente?, divulga. Sertanejos e Axés ? Tatit não concorda que a música de consumo tenha atrapalhado o desenvolvimento da MPB. Para ele, pagodes, sertanejos e Axés apenas tomaram o espaço da música estrangeira. Eram os produtos enlatados dos EUA que antes dominavam o mercado fonográfico brasileiro. Acredita que o principal defeito dos novos compositores são as letras. Poucos conseguem finalizá-las com maestria. Diz ainda não ter percebido o alcance da Internet, mas vê a rede com bons olhos.E volta a falar do disco, quando perguntado sobre suas pretensões acerca da recepção do público. ?Tenho o mesmo interesse na Universidade e na música, a minha época de batalhar para entrar no mercado já passou, o que vier agora é lucro?. E completa: ?Se o mercado me encontrar acho ótimo, mas se não encontrar tudo bem. O bom, se ele me achar, é que vou poder ser mais ouvido, por mais pessoas?. E é uma pena que as pessoas não tenham fácil acesso a O Meio. A seqüência inicial, que Tatit caracteriza como aquelas que poderiam tocar no rádio, composta por O Meio, Amor e Rock, As Sílabas e Capitu possui leveza e profundidade ao estilo do compositor. Feita para agradar tanto leitores exigentes quanto aqueles que apenas tem a música como um exercício lúdico, de diversão. Esboço, a penúltima faixa, narra, com sotaque infantil, devido ao arranjo da Orquestra Jazz Sinfônica, a vida de um cidadão paulistano que percorre diversos cantos de São Paulo. Gostosinha que nem trilha de programas infantis da TV Cultura. Tanto Amor mostra que é possível falar de muito amor sem soar piegas. ?Este é um trema recorrente na obra de Chico Buarque, trata do mesmo imaginário de Mar e Lua?, adverte. Serra do Mar, toada com piano new age, cita em versos Serra da Boa Esperança de Lamartine Babo, ?No coração de quem vai/ No coração de quem vem?. Os Três Sentidos é Tatit brincando de fazer reggae. Subverte o gênero jamaicano. Não faz refrão, como no resto das canções, mas faz cantar. Sonhei, cujo arranjo de cordas equivocado ? Tagliaferri faz a abertura parecer tema de novela passada no Mato-Grosso -, tem letra Junguiana e harmonia simples. Batuqueiro destaca-se pela bela melodia composta por Ná Ozetti, engrandecida pela interpretação próxima do falar de Tatit. Tem refrão e ele é marcante. Por esses motivos todos que O Meio, que se pretende medíocre, não tem nada de médio. É um disco feito com carinho por um dos melhores compositores da geração anos 80 de São Paulo. Com letras que são poesias e harmonias simples e bem feitas.

Agencia Estado,

20 de novembro de 2000 | 13h52

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