Tango com garra, pela Orquesta Típica Fernández Fierro

Alguns deles têm aparência deroqueiros, outros usam dreadlocks de reggaemen, juntos produzemdiscos com títulos impactantes e se definem como uma banda "comos piores expoentes de cada família". Não é o perfil que ospuristas esperam de uma típica orquestra de tango, mas é isto oque a Fernández Fierro faz, turbinando a tradição. Pela primeiravez no Brasil, os jovens integrantes argentinos da banda trazemseu tango renovador e provocativo para o Auditório Ibirapuera,em três apresentações, de sexta a domingo. Eles dividem o palcocom a Orquestra Popular de Câmara. Cada uma terá uma hora deapresentação e um número de encerramento juntas.Humor e paixão Acordeonista, compositor e expert em ritmos da região doPrata, o gaúcho Arthur de Faria é o convidado especial dosconcertos. Vai abrir o evento tocando algumas músicas suas, comamigos das duas orquestras. "O resto do tempo vou ficar por ali,falando coisas - minha mania de embaixador mercosulista", dizFaria. "Quanto à FF, sem falar em tango eletrônico, que é outraparada, conheço vários excelentes grupos jovens de tango queestão renovando a cena na Argentina (El Arranque, Ramiro Gallo ea Orquesta Escuela são os que me vem à mente agora). Mas nenhumcom os diferenciais da FF, que, para mim, são basicamente dois:o humor e a paixão. Coisas que estão entranhadas no tango, masque geralmente são vistas de forma estanque", analisa Faria. "O modelo dos caras é o tango violentamentetestosterônico do Osvaldo Pugliese (que era um doce de criaturae virou santo depois de morto - sério!)", prossegue o músico."Mas eles dão um passo adiante. São ainda mais violentos - semperder o bom humor, mais dissonantes, mais cheios de ?yumba?,que é a levada que o Pugliese inventou (basicamente, uma porradano 1 do compasso de 2/4, dada num amontoado de notas graves dopiano e respondida pelo contrabaixo)."Padrinho Benjamin Taubkin É por intermédio do diretor da OPC, o pianista ecompositor paulista Benjamin Taubkin que a Orquestra TípicaFernandez Fierro estréia no País. "Fiquei totalmente encantadocom a musicalidade, atitude e energia do grupo. Daí surgiu odesejo de estabelecer um maior contato com esses artistas", dizTaubkin, que os viu tocar num festival de jazz na Argentina. Deuns anos para cá, o pianista tem se empenhado em aproximarmúsicos brasileiros com outros da América Latina. E vairevelando a riqueza e a diversidade da música do continente,criada por talentos extraordinários. Especialmente oscolombianos e argentinos que têm visitado o Mercado Cultural,realizado todo mês de dezembro em Salvador, capital baiana. Influenciada principalmente por nomes-chave da renovaçãodo tango - como Astor Piazzolla, Osvaldo Pugliese, Carlos DiSarli, Alfredo Gobbi e Anibal Troilo -, a OTFF busca umequilíbrio entre a tradição e a vanguarda, alterna temasinstrumentais e cantados, coloca até efeitos de sonoplastia comono álbum mais recente, Mucha Mierda (2006). "Nossasinfluências não são só do tango. Toda música feita com força ecom vontade cai bem para nós, seja rock, tango ou clássico", dizo violinista Federico Terranova. O que eles têm de tão atraente que outros não têm?"Creio que comove bastante a atitude e a personalidade daorquestra em cena. Isto apoiado em música bem-feita", dizVenturin. "Somos os mais simpáticos", desconversa Terranova.Sobre seu papel na cena do novo tango de Buenos Aires, elestambém são econômicos nas explicações. "Creio que a FF abriu umaporta no ambiente tangueiro, ou melhor, uma fenda. Sim, umafenda que se ampliará com o passo de muitos outros", dizVenturin. "Na Argentina sempre houve bons grupos de tango. Cadamomento histórico traz sua onda. Eu não analiso nada, faço o queme agrada e com vontade. A história dirá no futuro", dizTerranova. CD é campeão de vendas na internet Formada em 2001 por remanescentes da Orquesta FernándezBranca, a FF funciona em esquema de cooperativa e tem até umclube próprio, onde dão shows e aulas de tango. Seu estilotransgressor vem conquistando espaços importantes como a Rádio2x4, a mais conceituada do tango em Buenos Aires. Há dois anos,a OTFF tem seus temas entre os mais executados na emissora.Apontado como um dos dez melhores álbuns argentinos do ano nojornal La Nación, Mucha Mierda também é campeão de venda naloja virtual tangostore.com. Suas produções independentes nãosaíram no Brasil, mas eles prometem trazer este e os outros CDs- Envasado en Origen (2002), Destrucción Masiva (2003) eVivo en Europa (2005) -, além do DVD Tango Antipánico (2005) para vender nos concertos. Mucha Mierda, base das apresentações em São Paulo, foigravado ao vivo, mas sem público, no Auditório da BibliotecaNacional, em Buenos Aires. Consegue, com isso, manter-se o maispróximo da vibração dos shows, mas com a qualidade técnica deuma gravação de estúdio. Há temas de Osvaldo Pugliese(Recuerdo e Adiós Bardi), Astor Piazzolla (La Evasión eBuenos Aires Hora 0) e Osvaldo Tarantino (Del Bajo Fondo),além de composições próprias inéditas e antigas, de belezaagressiva, executadas de forma impressionante. O CD abre e fecha com alusões a Buenos Aires: 011, deYuri Venturin, correspondente ao código de identificaçãotelefônica da cidade, e a citada de Piazzolla. A bela voz docantor (em Viento Solo e Canción Desesperada) e a formaçãoinstrumental - uma sessão de cordas, bandoneóns e a base rítmicade piano e contrabaixo -, situam-se na fronteira do tangotradicional. Mas há algo mais em detalhes que fazem estremecersó de ouvir. Todos juntos no palco, então, é para arrebatar.Orquesta Típica Fernández Fierro. Auditório Ibirapuera (800 lug.). Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º - Portão 2 do Parque doIbirapuera, (11) 6846-6000. Sexta-feira, 21 horas; sábado e domingo,20h30. R$ 15 e R$ 30

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