"Tambong" tem achados poéticos e musicais

Pós-rock dos anos 80, pós-pop comercial dos anos 90, pós-MPB dos anos 70. Moderna, mas sem apelar para loops, samplers e derivados eletrônicos que servem, na grande maioria das vezes, para padronizar a recente produção musical brasileira. Assim é a música de Vitor Ramil, que em Tambong revitaliza elementos poéticos e musicais característicos da clássica MPB. Neste novo disco, o compositor, cantor e escritor de Pelotas não só alimenta os conceitos de sua Estética do Frio (Rigor, Profundidade, Clareza, Concisão, Pureza, Leveza e Melancolia), defendidos no anterior Ramilonga, como os aprofunda. Se em Ramilonga, Ramil, que vinha de trabalhos mais voltados para o pop, foi em busca de encontrar suas raízes milongueiras, neste novo álbum ele parte do gênero sulista para reencontrar a sua face de compositor popular. Valendo-se da bagagem harmônica, melódica e lírica que herdou de Caetano Veloso (repare no timbre da voz), Chico Buarque, Egberto Gismonti e Milton Nascimento, Vitor Ramil construiu Tambong. Um disco que não pode ser analisado sem os devidos créditos a Pedro Aznar, seu produtor e baixista. Aliás, linhas marcantes de contra-baixo, herdeiras do jazz, não faltam no trabalho de Ramil. E ele admite isso: "Sou viciado em bons baixistas. Desta vez foi Aznar, antes Nico Assumpção, André Gomes, Alberto Continentino", cita. É o instrumento, muitas vezes, responsável pelo clima melancólico do disco. Lírica - A profundidade de Ramil estende-se para as letras. Em Não é Céu, discurso fragmentado, o compositor faz um passeio pelas cinzentas ruas de Porto Alegre. Ou seria Buenos Aires? Talvez Montevidéu. E nelas encontra abrigo para o frio, que aumenta na medida que palavras como sol, brasa vão sendo sussurradas em consonância com o trompete ao sabor de Miles Davis de Henrique Norris. "Quarto de não dormir/Sala de não estar/Porta de não abrir/Pátio de sufocar", canta o músico, melancólico, em Espaço. Depois dos versos, um assobio, e a melodia reverbera, simples, sem ter palavras para dialogar. Brincando com o tempo, "Foi no mês que vem/ Foi quando eu chegar/ Foi na hora em que eu te vi", Ramil entoa, numa homenagem a mulher amada: "Quando o vento fez do teu vestido um dom que Deus te deu". E a língua portuguesa, bem tratada, agradece.

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