Rael Barja
Rael Barja

Tais Alvarenga lança o primeiro disco, 'Coração Só', uma narrativa sobre o fim de um relacionamento

Disco de estreia da cantora foi produzido em parceria com Pupillo, da Nação Zumbi

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

09 Março 2018 | 06h00

Tais Alvarenga gostaria de compor com mais armas e técnicas. Queria meticulosamente entender o que sente e encontrar formas de exprimir sentimentos em versos, estrofes, pontes, refrãos. Considera-se mais cantora do que pianista; mais pianista do que compositora. “Primeiro, vem a voz”, diz a carioca de 31 anos.

Voz e piano, contudo, seriam nada não fosse essa composição instintiva exibida no disco de estreia dela, Coração Só, lançado nesta sexta-feira, 8.

Porque suas canções não nascem da cabeça e seguem para a caneta ou para as teclas do piano, instrumento tocado por ela desde os 7 ou 8 anos de idade. Soariam vazias se criadas apenas para voz afinada desde a infância quando cantava na igreja. Seriam matemáticas, estéreis, se criadas somente pela técnica estudada na Berklee College of Music, prestigiada escola de música independente, em Boston. 

As dez canções que compõem a estreia dela nascem de um coração em efervescência. Borbulham, na quentura, os sentimentos cozidos ali, amores, paixões, desilusões, solidões. O caldo final acalma ou alvoroça – tudo vai depender do estado de espírito do ouvinte no momento em que decidir dar o play em Coração Só

O coração, como o título diz, está só. E a solidão nunca é fácil – Morrissey, o sofrido vocalista dos Smiths, que o diga –, mas é reveladora. Com canções que saem de suas entranhas, Tais encontra seu ponto de equilíbrio entre dor e alegria num disco narrativo, pessoal e cinematográfico. Estudante de trilha sonora no período em que cursou música em Boston, ela domina a arte de contar a história (sua, nossa, de quem já passou por um ou uma dúzia de relacionamentos fracassados), como um filme.

E, nos créditos iniciais, a cantora, pianista e compositora escancara a sua intenção de mexer no que, muitas vezes, preferimos manter numa caixa trancada, num canto escuro. “Vai me procurar / Por onde eu te perdi / Quanto eu esperei / Pode perguntar por aí / Tenho calma pra falar / Nosso amor não é bom pra ninguém/ Bom pra ninguém / Não é bom pra ninguém”, diz Esse Lugar, a faixa de abertura do disco, de início delicado, de piano, interrompido pelo caos (organizado, no sentido harmônico) trazido pela bateria de Pupillo, músico da Nação Zumbi e produtor do álbum. 

É como se o recorte da história contada em Coração Só tivesse início dos primeiros 16 segundos de paz e segurança deste(s) relacionamento(s) – é o tempo de duração da introdução de piano. A partir daí, com um grito de “vai”, Tais trata de se desapegar de um amor pegajoso. Na mesma canção, ela dispara: “Vai, sem olhar pra trás, lembrar / Que se satisfaça com alguém / Hoje a compaixão é pouco para te dar / Sinceridade, eu me levanto sem pensar”. 

“É um disco para pessoas intensas”, diz a artista, ao Estado. “Hoje, existe quem não queira sentir, porque sentimentos, quando são verdadeiros, demoram para desaparecer, eles precisam de cuidado. E há quem não preze por isso.”

A narrativa das canções, com altos e baixos, beira a sinceridade por vezes incômoda, como em Você Se Enganou, que foi parte da novela Verdades Secretas, da Globo: “Você acha mesmo / Que eu sou tudo isso? / E o que fomos nós? / Fomos só um vício?”.

O fim do disco, contudo, traz o início da reconstrução, como aquela caminhada matinal após uma noite insone, de reflexões sobre o tal término. “Vai ter um outro sol pra mim”, canta Tais em uma composição em parceria com Amanda Rocha. 

Na entrevista, Tais cita o poeta checo Rainer Maria Rilke (1875-1926), que, no livro Cartas a um Jovem Poeta, aconselha os novos escribas a fugirem dos textos sobre amor. Em Coração Só, ela vai contra o poeta.

Não é cérebro ou matemática, afinal; é coração e intuição. 

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