T. S. Monk lança na Internet discos inéditos de seu pai

O baterista T.S. Monk, filho do lendário pianista Thelonious Monk, lança esta semana um projeto pioneiro no mundo do jazz: uma gravadora na Internet. O selo Thelonious Records (www.theloniousrecords.com) entra em ação ainda este mês, segundo afirmou Monk à Agência Estado na sexta-feira, por telefone, de New Jersey. ?Por enquanto, o selo só tem dois artistas: eu e meu pai?, ele afirmou. ?A primeira idéia é lançar 15 títulos inéditos, jamais lançados antes, com gravações de meu pai ao lado de gente como Charles Rouse, Roy Haynes, Johnny Griffin ? um concerto no Apollo Theater ? e o primeiro registro de uma apresentação dele na Europa?, contou o baterista, que toca na próxima terça-feira em São Paulo, no Bourbon Street, abrindo o projeto Diners Jazz de 2002. ?Meu pai era um artista de palco?, disse Monk. ?Além dessas gravações inéditas, algumas que mostram Monk compondo em casa, o site terá fotografias nunca vistas antes e textos para fins educacionais e históricos?. Segundo Monk, seu selo na rede é uma tentativa de ?ganhar mais público? para o jazz, que enfrenta crise de distribuição. E também de recuperar para a história gravações importantes. Ele volta a recorrer ao caso do pianista Monk, que fez seis álbuns para a CBS que nunca foram relançados. ?As companhias de discos convencionais não pesquisam, não fazem esforço para entender o gênero, querem apenas vender.? No show do Bourbon, T.S. Monk pretende tocar gravações conhecidas do pai, como Round Midnight, e também outras de seu próprio disco, Higher Ground. Ele vem com um sexteto, formado também por Bobby Porcelli (sax alto), Willie Williams (sax tenor), Winston Byrd (trumpete), Ray Gallon (piano) e David Jackson Jr. (contrabaixo). Abaixo, a entrevista exclusiva do músico.Agência Estado ? O sr. chega pela segunda vez ao Brasil. O que aprendeu de novo sobre a música brasileira? T. S. Monk ? Música brasileira foi parte do meu aprendizado musical. Quando eu era jovem, ouvia muito Jobim, Edu Lobo, Milton Nascimento, Airto Moreira e Flora, Sivuca. A música oriental e a música brasileira são os gêneros que mais fortemente dialogaram com o jazz americano, então são familiares para nós. O que mudou em minha visão foi a realidade. Eu não tinha idéia do tamanho do seu País, fiquei impressionado. Creio que, agora, aquela música que eu ouvia faz mais sentido para mim. O Brasil é um dos lugares mais especiais que já visitei. Em São Paulo e Rio, depois do show, conversei com músicos, aprendi muito, troquei idéias. Foi uma bela temporada. Há 20 anos, seu pai, o pianista Thelonious Monk, morria no Englewood Hospital de New Jersey. O pianista Randy Weston disse que ele deixava para a posteridade um senso raro de simplicidade. O crítico Paul Bacon disse que ele criou uma batida familiar e ainda assim estranha. John Coltrane o chamou de ?o alto arquiteto?. Qual é sua própria definição para o legado do seu pai? Tento separar minha avaliação de Monk como pai e como artista. Vejo-o, como artista, no papel de pai do jazz moderno. Muitos o definiram como o ?arquiteto do bebop?, mas ele só tem algumas canções que você pode chamar estritamente de bebop, como Straight No Chase e Round Midnight. Ele foi um compositor prolífico, extremamente ligado à harmonia, com uma obra complexa e diversa. Digo que é modern jazz porque não estava limitado às restrições do bebop e criou ritmos, melodias, frases e motivos. Foram suas composições dos anos 50 que deram base para que o jazz moderno surgisse e se desenvolvesse, abrindo caminho para Coltrane, Roy Haynes, Miles Davis e a fusion. Ele deu o apoio harmônico que eles procuravam. Há uma notícia sobre o fato de que você descobriu gravações inéditas do seu pai e pretende fazer um show com essas gravações. Sim, é verdade. Há dois anos, quando eu gravei Monk on Monk, já incluía uma de suas composições desconhecidas. O problema com essas gravações novas é que nem todas estão completas e torna-se delicado apresentá-las ao público. Nós não temos mais o criador aqui, e isso me deixa bastante assustado. Como definir o tempo de uma música sem o seu criador? Acho que podemos chegar a alguma conclusão, mas isso pode levar tempo e eu não estou com pressa. Pode sair algo nos próximos seis anos. Você está voltando com o mesmo sexteto? É o mesmo sexteto. Mudou apenas o baixista, entrou David Jackson Jr. no lugar do antigo baixista, Gary. Eu penso que continuar com um ensemble é extremamente importante para a continuidade de um trabalho. Se você muda de banda, muda também a sonoridade de algumas músicas. Manter um conjunto é, além de garantir certa estabilidade emocional, fazer com que a turnê seja economicamente viável. Como é transferir uma música composta para o piano, como é a música do seu pai, para a bateria, que é seu instrumento? É muito difícil essa transposição de posições, já que você é um band leader? Não é difícil. Uma das características de um grande compositor é que ele faz música como uma grande peça completa, não são pedaços de bolo. Monk, Ellington, Jobim, Wayne Shorter: você pode tocar a música dessas pessoas em qualquer contexto. É fácil fazer isso, porque a música é ?desenhada?, é possível falá-la em qualquer língua, qualquer contexto. O grande desafio é torná-la sempre viva e nova, seja ela bossa nova, folk ou fusion, qualquer forma. Nós não sabemos como eles a fizeram, mas nós sabemos como a fazemos. Por que levar o jazz em direção à Internet? É a única saída? Você não confia mais na indústria do disco? Temos de tentar novos meios, tentar entender a dinâmica dessa nova forma de divulgação musical. O jazz está atrasado nessa direção. Quem me abriu os olhos para essas novas possibilidades foi o meu cunhado, que é neurocirurgião e tornou-se meu parceiro no selo Thelonious Records. Eu gosto do sistema de trocas de músicas na Internet, acho que está levando a cultura popular para um novo degrau e permitindo maior independência artística, coisa que a indústria musical deixou de oferecer. As companhias de discos não pesquisam no repertório, estão apenas preocupadas em vender. Para o meu pai, nos anos 50 e 60, era importante a gravação, a documentação do processo, mas muitos daqueles registros nunca receberam atenção. Tenho 15 títulos para lançar.

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