Surfista e roqueiro Rodrigo Esteves lança disco de canto lírico

Ele começou a cantar, ainda naadolescência, imitando o que ouvia nos LPs do Queen e dosSecos e Molhados. Teve, em seguida, a fase "um banquinho e umviolão", cantarolando e arriscando composições próprias para,logo depois, criar uma banda, a Azul Limão - heavy metalpesado, com direito a cabelão, "roupa sempre preta, bastantecouro, anéis, tudo a que tinha direito". Quem imaginaria que o carioca Rodrigo Esteves (que até pouco tempo dividiaa música com a praia, pegando onda) se tornaria um dos principaiscantores líricos de sua geração, com uma carreira internacionalque nos últimos anos tem se estendido ao Brasil, onde ele lançaneste fim de semana seu primeiro disco, uma coletânea de cançõesde autores espanhóis, brasileiros e americanos? Seu próximo passo de sua carreira será dado no fim datarde de sábado, quando ele subir ao palco paraparticipar da abertura de temporada do Teatro São Pedro, comoEnrico em nova produção da ópera Lucia di Lammermoor, de Donizetti.Cancioneiro espanholO disco, lançado pela Algol, é uma volta ao início da carreira,diz Esteves. "É o repertório que cantei durante meu período deestudos no Rio", conta, em entrevista. "Trabalhei muito orepertório brasileiro e, quando fui para a Europa estudar naEscola Superior de Canto de Madri, trabalhei muito o cancioneiroespanhol. Mas então comecei a cantar ópera e deixei as cançõesde lado por um bom tempo."Até que o empresário Heraldo Marin, dono da Algol, sugeriu a elea gravação do disco. Nele, acompanhado dos pianistas AchillePicchi e Karin Uzun, Esteves interpreta as Siete CancionesPopulares Españolas, de Manuel De Falla, as Canções de DonQuixote a Dulcinéia, de Ravel, uma seleção de canções deVilla-Lobos, Valdemar Henrique, Lorenzo Fernandes, Hekel Tavares Babi de Oliveira e Jayme Ovalle, e dois spirituals, música decaráter religiosa entoada pelos afro-americanos. É um repertórioque se sobressai pelas pontes que propõe, tendo como idéiabásica a inspiração no folclore e mostrando como diversosautores, de locais e épocas distintas, lidaram com ele.Da praia ao coralQuando Rodrigo Esteves fala quetrabalhou muito com canções enquanto estudava, na verdade, estárevelando apenas parte da história. O resto vem mais tarde naentrevista. Mas, antes, voltemos um pouco no tempo. "Imagina umcara, surfista maluco, que passou cinco anos se esgoelando numabanda de heavy metal, que ficou em dúvida se prestava vestibularpara música ou geologia, de repente chegando à universidade e sedeparando com um professor de canto que vinha da ópera e não damúsica popular e ficava me empurrando aquelas canções leves,líricas", lembra Esteves. "Achava aquilo muito chato, me sentiaridículo, um anjinho de igreja, até que um dia meu professor (otenor Alfredo Colosimo), vendo que eu não conseguia fazerdireito uma certa passagem, a cantou para mim. Foi um momentodecisivo. Aquela voz saía dele e enchia o ambiente de um jeito.. Ali entendi que o canto lírico, de ópera, é o ponto mais altoda vocalidade, do uso da voz."A confirmação da vocação viria alguns anos mais tarde, quandoEsteves passou a integrar o coro do projeto Ópera Brasil, quetrouxe ao País cantores como Fiorenza Cossoto, Carlo Bergonzi,Plácido Domingo, Aprile Millo. "Ouvindo aquelas vozesimpressionantes tive a certeza de que queria cantar." O que elefez, até que o Plano Collor acabasse com o projeto, idealizadopor Fernando Bicudo, e deixasse Esteves sem emprego. Tinhaalgumas economias e então resolveu partir para o exterior.Acabou na Espanha, em Madri, onde mora até hoje. Lá, entrou emoutro coro. Novo dilema. "Para um cantor, o coro significasegurança, um salário fixo, a possibilidade de um planejamentode vida, coisas que são difíceis de ter como solista, quandovocê fica na dependência de alguém te chamar para cantar."Esteves estava disposto a ficar no coro. Mas o acaso interferiu.Foi convidado a fazer uma turnê com a Sinfonietta Paris,interpretando a Missa da Coroação, de Mozart. "Pedi à direção docoro que me liberasse, mas eles se recusaram. Avisei então quefaltaria aos ensaios durante a turnê." Para encurtar a história:foi demitido do coro no dia seguinte à primeira falta. Ecomeçava, ali, sua carreira como solista.PapéisOs primeiros passos foram dados em missas e oratórios. Com otempo, começou a interpretar papéis pequenos em produções deópera na Espanha e em Portugal. A maior visibilidade eleconseguiu em uma La Bohème, no Teatro da Zarzuela, em Madri.Papéis em Mozart, Donizetti, Leoncavallo se seguiram. Em 2001,voltou ao Brasil para cantar Giorgio Germont na Traviata deVerdi. Dois anos depois, em Manaus, cantou Dandini naCenerentola de Rossini. A estréia em São Paulo, em 2004, foi noMunicipal, cantando o Marquês de Posa na controversa montagem doDon Carlo, de Verdi, dirigida por Gabriel Villela. Um ano depois a estréia com a Osesp e o maestro John Neschling, no Fausto deGounod, e o seu primeiro Macbeth, um dos principaisprotagonistas de Verdi, no Municipal do Rio. A lista de papéis éextensa, mas permite entender um pouco da voz de Esteves. Seutimbre é escuro, com graves amplos e cheios, características quefazem dele um cantor ímpar entre os brasileiros, talhado parauma série de papéis principais, em especial de Verdi,fundamentais na história da ópera, mas para os quais não há hojemuitos intérpretes entre nós.

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