BRUNO FIORAVANTI
BRUNO FIORAVANTI

Superlives sertanejas criam a única receita do meio musical em tempos de confinamento

Transmissões super produzidas, com arrecadação solidária e em meio à polêmica de exposição exagerada, criam estrutura que pode se tornar lucrativa na pós pandemia para artistas que souberem gerenciar sua carreira nos meios digitais

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2020 | 16h00

O colapso da cadeia produtiva da música industrial mais rentável do País não durou duas semanas. Quando estavam todos confinados, cantando de suas sacadas e fazendo lives no sofá de casa, duplas e cantores sertanejos entraram em ação de forma rápida, coordenada e, o que mais impressiona em meio à paralisia generalizada, fazendo rodar uma economia parruda, solidária e auto-sustentável. O mineiro Gusttavo Lima, 30 anos, entendendo que todos os jovens que o ouviriam na balada estariam em casa, decorou a sala com canhões de luz, posicionou quatro câmeras, uma delas se movimentando na área da piscina e do jardim de sua residência, e iniciou a primeira live dos tempos modernos. Em cinco horas, cantando 100 músicas, atingiu 11 milhões de pessoas e um número recorde de 750 mil acessos simultâneos, 300 mil a mais do que a maior marca anterior, de Beyoncé, no Festival Coachella de 2018.

Uma semana depois vieram os goianos Jorge e Mateus. Ao longo de 4h30, eles foram vistos por 3,1 milhões pessoas ao mesmo tempo, totalizando 36 milhões de visualizações, com um show chamado Na Garagem. A transmissão foi acusada de ser bem produzida até demais, com gente tomando cerveja no set, ao contrário do espírito do confinamento e simplicidade das lives tradicionais. Uma marca de cerveja entrou na jogada e teve exposição durante todo o show, com garrafas dispostas em um balde. A produção respondeu dizendo que todos seguiram as orientações da Organização Mundial de Saúde e o próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, apareceu em um vídeo pedindo cuidados, mas um alerta soou.

Marília Mendonça, a Rainha da Sofrência, foi a próxima, com uma live na última quarta (8). Sentada ou de pé na sala de sua casa, usando chinelo de dedo, Marilia bateu tudo o que havia antes, segundo os números divulgados por sua produção, chegando a mais de 3,2 milhões espectadores simultâneos, 100 mil a mais que Jorge e Mateus. Um intérprete de libras (a língua brasileira de sinais) a acompanhava o tempo todo e ela lembrava com preocupação dos cuidados para as pessoas seguirem o isolamento na luta contra o coronavírus. Fez também pausa para uma mensagem gravada por Mandetta.

A peculiaridade do meio sertanejo de se movimentar em bloco (o que não quer dizer unido), absorvendo rapidamente um ‘case’ e o transformando em padrão, criou, em uma semana atípica, uma receita com potencial para viabilizar carreiras, conseguir doações e ajudar a criar um circuito complementar ou até mais forte do que os shows ao vivo. Uma fonte ligada à agência de publicidade afirma que uma das lives ganhou, só em merchandising, R$ 5 milhões. 

É preciso avaliar a cadeia produtiva dos sertanejos sem ranço. A única música do planeta que consegue se movimentar enquanto ele, o planeta, está confinado, merece ser estudada e, por que não, servir de paradigma de mercado. Antes dos sertanejos, lives eram momentos caseiros gravados em câmeras de celular, sem nenhuma contrapartida monetária. A partir deles, pode se tornar uma saída.

Além das empresas parceiras colocando dinheiro, os shows contaram com um inédito potencial de arrecadação para os trabalhos no combate ao coronavírus. Gusttavo Lima conseguiu R$ 500 mil em doações, entre dinheiro, alimentos, máscaras e álcool gel. Jorge e Mateus ganharam 172 toneladas de alimentos, 10 mil frascos de álcool gel e 200 cursos para a área da saúde. Marilia conseguiu mais de 225 toneladas de alimentos, duas toneladas de produtos de limpeza, 250 quilos de pão de queijo, 3.600 litros de refrigerante e materiais de construção para serem doados.

Os efeitos colaterais das superlives continuam sendo aferidos. Na tarde desta quinta (9), a plataforma de streaming Deezer contabilizou o aumento de consumo de músicas digitais pós-exibições. Gusttavo Lima teve 40% a mais em audições no último domingo com relação aos domingos anteriores e as de Jorge e Mateus cresceram 55,69%. Tudo isso pode soar digital demais a setores tradicionalmente orgânicos, habitados por músicos de uma geração offline, como os da chamada MPB, e é justamente esse o choque de realidade que as lives, o único lugar onde um artista pode aparecer em tempos de pandemia, prometem fazer.

Como os bancos digitais, praticados há anos mas só agora acionados por pessoas de perfis tradicionais que precisam pagar contas mas não querem ir às agências contrair o coronavírus, as lives podem se tornar não um, mas o caminho. No entanto, elas estão na ponta de um gerenciamento de carreira digital que requer atenção e tempo. “A Marília Mendonça não conseguiu quebrar recordes por acaso. Ela alimenta suas redes com posts diários e, por isso, tem 30 milhões de seguidores do Instagram. Caetano Veloso, de uma geração que não investe tanto em redes sociais, tem um público de 1,6 milhão, um número obviamente que não condiz com a quantidade de seus fãs no mundo real”, diz João Mendes, 29 anos, empresário de mídias sociais que já gerenciou canais de Whinderson Nunes, Lucas Neto e Gustavo Mendes. “O coronavírus veio para dividir o mundo. Os hábitos nunca mais serão os mesmos.” 

O exemplo de Caetano é pertinente no momento em que sua mulher, Paula Lavigne, organiza uma live com ele e outros cinco artistas do movimento Procure Saber, associação que representa artistas grandes da MPB, ainda sem confirmações. “Será bem caseiro, para levantar fundos não para os artistas, mas para os técnicos, gente que está passando por necessidades. Se tiver que ser tosco, vai ser tosco”, ela diz.

Assim como aquilo que as originou, as superlives virais devem continuar subindo na espiral frenética até atingir o pico, permanecer no platô por um tempo e, gradativamente, começar a cair. “Só ficarão os artistas que investirem e fizerem boas lives”, diz João. O calendário garante shows digitais até o final do mês, algo que tem sido celebrado nas redes sociais como se fosse o anúncio de shows físicos. 

Luan Santana fará a sua dia 26 de abril, às 18h, direto de seu quintal, com um violonista e 52 músicas no repertório. “A live está se consolidando como um meio de engajamento solidário, e isso tem sido uma bênção”, diz Luan. “Se depois que tudo passar, com fé em Deus, ela virar mais uma ferramenta de trabalho, isso o futuro dirá.”

Paula Fernandes já havia feito uma caseira em março. “O grande propósito é levar entretenimento para quem está em casa, deixar esse clima mais leve”, afirma. Zezé Di Camargo e Luciano farão uma “semi live” dia 19, usando imagens inéditas da turnê Deus Salve a América, de 1998, comentada ao vivo por Luciano. Zezé, quarentenado em sua fazenda de Araguatás, em Goiás, não deve aparecer. O também goiano Felipe Araújo, que fará uma live dia 17, diz que o próprio meio, com erros e acertos, cria um novo caminho. “É importante seguir as normas da OMS. Creio que todos estamos aprendendo com os próprios erros, e nós com os erros dos outros. Mas ninguém pode ser crucificado por ter buscado o bem.”

PRÓXIMAS LIVES

SÁBADO - 11/04

16h00: Matheus e Kauan

20h00: Gusttavo Lima

DOMINGO - 12/04

16h00: Festival Fome de Música

16h00: Ávine Vinny

16h00: Parangolé

18h00: Zé Neto e Cristiano

PROXIMO FINAL DE SEMANA:

SEXTA - 17

20h: Felipe Araújo

SÁBADO - 18

20h: Wesley Safadão

DOMINGO - 19

18h: Henrique e Juliano

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