José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Suisse Romande oferece delicadeza ao público na Sala São Paulo

Debussy, Ravel e Strauss estão no repertório executado com precisão, provando que a orquestra soube se reinventar

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

21 Maio 2018 | 06h00

Delicadeza talvez seja a melhor palavra para definir a música que a Orquestra da Suisse Romande ofereceu ao público na primeira parte do concerto de segunda-feira, 14, na Sala São Paulo. De um lado, a regência plástica de Jonathan Nott. Já no Prelúdio para a Tarde de Um Fauno, peça na qual, segundo Debussy, “a música é ondulante, abundam linhas curvas”, Nott construiu no ar essas delicadas curvas, desde a primeira, tão conhecida e sonhadora, da flauta, onipresente até o final diáfano. Poucas vezes se viu uma execução tão precisa e adequada dessa obra tecida em arabescos melódicos que ora se dissolvem, ora se fragmentam, de modo genial.

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Christopher Adey, em seu livro sobre performance sinfônica, diz que o difícil nesse repertório é cada músico estar alerta para executar sua parte, em geral fragmentos da linha melódica, na mesma voltagem do fragmento emitido por outro – como numa corrida de revezamento 4x4 multiplicada. A orquestração caminha a partir de fiapos daqui e dali, compondo um incrível mosaico de pequenos arabescos. 

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De novo, repetiu-se a ótima execução da orquestra no jazzístico Concerto em Sol Maior de Ravel, combinando precisão rítmica e ímpeto adequado. O problema aqui é a junção entre o piano solista e a orquestra; abundam as síncopes e a proeminência dos sopros (sobretudo os metais) que ele tanto curtiu no Harlem, em visita ao lado de Gershwin em 1928 (o concerto é do ano seguinte). O virtuosismo ficou ainda mais claro devido ao andamento talvez acelerado demais de Goerner. A instabilidade é provocada pelo uso da bitonalidade e também pela convivência simultânea de métricas diferentes. 

Não poderia haver segunda parte mais contrastante. Saíram as filigranas, entraram tutti majestosos e tonitruantes. Uma Vida de Herói é uma ode ao esplendor do maior instrumento já criado, a orquestra, aqui com 112 músicos. O herói, no caso, é ele mesmo.

Uma autobiografia musical, incluindo estocadas em Eduard Hanslick, o crítico vienense amigo de Brahms e adepto da música pura, sob a forma de quintas paralelas nas tubas, que ficam martelando por bom tempo, mas sobretudo no segundo movimento. Aliás, são seis os movimentos, interligados, começando com O Herói, passando pelos adversários, a companheira, o combate, as obras de paz e a aposentadoria. Strauss a recheia com autocitações de outras obras.

A Suisse Romande soube se reinventar, transformou-se numa opulenta massa sonora. Cá entre nós, a parte do violino solista, a cargo do spalla Svetlin Roussev, transforma na prática o poema num concerto para violino e orquestra. Aqui a dificuldade é não se perder em fortíssimos e transformar o resultado final numa pasta informe. Ouviam-se os detalhes, assim como tutti, com igual clareza.

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